sexta-feira, 14 de abril de 2017

"A Despedida da Morte" - Poema de Alberto da Costa e Silva


Frederick McCubbin, Bush Sawyers, 1910



A Despedida da Morte


Falo de mim porque bem sei que a vida 
lava o meu rosto com o suor dos outros, 
que também sou, pois sou tudo o que posto 

ao meu redor se cala, e é pedra, ou, água, 
cicia apenas — O teu tempo é a trava 
que te impede de ter a calma clara 

do chão de lajes que o sol recobre, 
este esperar por tudo que não corre, 
nem pára e nem se apressa, e é só estado, 

e nem sequer murmura: — O que te trazem 
é o riso e o lamento, o ser amado 
e o roçar cada dia a tua morte, 

que não repõe em ti o, sem passado, 
ficar no teu escuro, pois herdaste 
e legas um sussurro, um som de passos, 

uma sombra, um olhar sobre a paisagem, 
memória, cálcio, húmus, eis que o mundo 
nada rejeita, sendo pobre e triste 
no esplendor que nos dá. A madrugada. 


in 'Antologia Poética'



Frederick McCubbin, Lost, 1907



"A presença do perigo confere génio ao homem sensato." 




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