domingo, 9 de abril de 2017

"O nome do Cão" - Poema de Manuel António Pina


 Abbott Fuller Graves (American, 1859-1936), The nest egg, 1910



O nome do Cão


O cão tinha um nome 
por que o chamávamos 
e por que respondia, 

mas qual seria 
o seu nome 
só o cão obscuramente sabia. 

Olhava-nos com uns olhos que havia 
nos seus olhos 
mas não se via o que ele via, 
nem se nos via e nos reconhecia 
de algum modo essencial 
que nos escapava 

ou se via o que de nós passava 
e não o que permanecia, 
o mistério que nos esclarecia. 

Onde nós não alcançávamos 
dentro de nós 
o cão ia. 

E aí adormecia 
dum sono sem remorsos 
e sem melancolia. 

Então sonhava 
o sonho sólido que existia. 
E não compreendia. 

Um dia chamámos pelo cão e ele não estava 
onde sempre estivera: 
na sua exclusiva vida. 

Alguém o chamara por outro nome, 
um absoluto nome, 
de muito longe. 

E o cão partira 
ao encontro desse nome 
como chegara: só. 

E a mãe enterrou-o 
sob a buganvília 
dizendo: " É a vida..." 





Abbott Fuller Graves, Near Kennebunkport, 1900



"A vida de uma pessoa não é o que lhe acontece, mas aquilo que recorda e a maneira como o recorda."



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