segunda-feira, 10 de abril de 2017

"Paz!" - Poema de António Nobre


Wright Barker (British, 1864-1941), Awaiting the Guns, 1897,  Private collection



Paz!


E a Vida foi, e é assim, e não melhora. 
Esforço inútil, crê! Tudo é ilusão... 
Quantos não cismam nisso mesmo a esta hora 
Com uma taça, ou um punhal na mão! 

Mas a Arte, o Lar, um filho, António? Embora! 
Quimeras, sonhos, bolas de sabão. 
E a tortura do além e quem lá mora! 
Isso é, talvez, minha única aflição... 

Toda a dor pode suportar-se, toda! 
Mesmo a da noiva morta em plena boda, 
Que por mortalha leva... essa que traz... 

Mas uma não: é a dor do pensamento! 
Ai quem me dera entrar nesse convento 
Que há além da Morte e que se chama a Paz! 


António Nobre, in 'Só' (1892)


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