quinta-feira, 18 de maio de 2017

"No entardecer dos dias de verão" - Poema de Alberto Caeiro


Fátima Bacharel, Crepuscúlo de um dia de verão



No entardecer dos dias de verão


No entardecer dos dias de verão, às vezes, 
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece 
Que passa, um momento, uma leve brisa... 
Mas as árvores permanecem imóveis 
Em todas as folhas das suas folhas 
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão, 
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...

Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem! 
Fôssemos nós como devíamos ser 
E não haveria em nós necessidade de ilusão... 
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida 
E nem repararmos para que há sentidos...

Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo 
Porque a imperfeição é uma coisa, 
E haver gente que erra é original, 
E haver gente doente torna o Mundo engraçado. 
Se não houvesse imperfeição, havia uma coisa a menos, 
E deve haver muita coisa 
Para termos muito que ver e ouvir...

7-5-1914

Alberto Caeiro,
Heterónimo de Fernando Pessoa
in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLI"

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