sábado, 13 de maio de 2017

"O caçador de borboletas" - Poema de Álvaro Magalhães


Pintura de Jim Daly



O caçador de borboletas


Sorridente, ao nascer do dia,
ele sai de casa com a sua rede.
Vai caçar borboletas, mas fica preso
à frescura do rio que lhe mata a sede
ou ao encanto das flores do prado.
Vê tanta beleza à sua volta
que esquece a rede em qualquer lado
e antes de caçar já foi caçado.

À noite, regressa a casa cansado
e estranhamente feliz
porque a sua caixa está vazia,
mas diz sempre, suspirando:
Que grande caçada e que belo dia!

Antes de entrar, limpa as botas
num tapete de compridos pêlos
e sacode, distraído,
as muitas borboletas de mil cores
que lhe pousaram nos ombros, nos cabelos.


in 'O reino perdido, 2000



Pintura de Jim Daly


"A casa da infância é como um rosto de mãe: contemplamo-lo como se já existisse antes de haver o Tempo." 

Mia CoutoO outro pé da sereia 


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