quarta-feira, 9 de agosto de 2017

"Poema de Amor" - de Edmundo Bettencourt


François Batet (Espanha, 1921-2015)



Poema de Amor


A noite é cheia de vales e baías. 
E do meu peito aberto um rio largo de sangue... 
Águas densas, de correntes lentas, 
serpentes mortas a arrastarem-se. 
Águas? 
Águas negras, pastosas, alcatrão rolante. 
Mas águas puras, verde-claras, atraindo 
a margem donde os crocodilos fogem mastigando. 
Águas em transparências lucilantes, para cima, 
e as estrelas do mar, um polvo e um mefistófeles 
ficam no ar sobre ilhéus e lodosos calhaus 
que se descobrem. 
Plantas brancas e extáticas... 
Lágrimas... nuvens... e a cabeça, o perfil, 
os olhos, todo o corpo da mulher amada, a prostituta 
antes de virgem, que é bela e feia, velha e nova, 
e não conhece os filhos! 

O fogo envolve essa mulher amada 
e é um guindaste erguendo-a e atirando-a, 
enquanto dispersas pelo chão brilham mandíbulas 
naturalmente à espera... 


Edmundo Bettencourt, in 'Poemas Surdos'





"Por pior que seja a noite, amanhã é outro dia.."



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