sábado, 12 de agosto de 2017

"Prova Documental" - Poema de Francisco Carvalho


James Tissot, Gentleman in a railway carriage, 1872



Prova Documental


Já assumi a solidão dos outros 
já provei do enigma insolúvel 
já calcei as botas do morto 
já tive segredo e foi de água abaixo. 

Já fugi ao encontro marcado 
já fui banido, já disse adeus 
já fui soldado, já fui rapsodo 
já tive inocência e foi de água abaixo. 

Já fui esperto, já fui afoito 
já puxei faca, já toquei pífaro 
já fui vaiado depois da briga 
já tive saudade e foi de água abaixo. 

Já fui árcade, já fui arcaico 
já fui pateta, já fui patético 
já perdi no jogo e na vida 
já tive amor e foi de água abaixo. 

Já tive pressa, já sentei praça 
já tive ouro, já tive prata 
já tive lenda, já tive fazenda 
já tive paz e foi de água abaixo. 

Já tive herdade, já fui deserdado 
já tive episódio, já tive epitáfio 
já levei o andor de Nosso Senhor 
já tive esperança e foi de água abaixo. 

Já tive mando, já corri mundo 
já fui a Roma e não quis ver o Papa 
já fui pra cama com Ana Bolena 
já tive infância e foi de água abaixo. 

Já fui Arlequim, já fui Pierrot 
já tive herança, já tive prosápia 
já tive estrela, já fui primogénito 
já tive cabelo e foi de água abaixo. 

Já fui feliz, já tive almofariz 
já fui a Belém, já comi vatapá 
já andei a cavalo no arco-íris 
já tive paisagem e foi de água abaixo. 

Já pesquei hipocampo de anzol 
já fui de trem ver o quebrar da barra 
já tive odalisca, já tive andaluza 
já tive memória e foi de água abaixo. 


Francisco Carvalho, in 'As Verdes Léguas'


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