terça-feira, 24 de outubro de 2017

"O Bailador de Fandango" - Poema de Pedro Homem de Mello


Jesús Helguera (pintor mexicano, 1910-1971)



O Bailador de Fandango


Sua canção fora a Gota,
Sua dança fora o Vira.
Chamavam-lhe “o fandangueiro”.
Mas seu nome verdadeiro
Quando bailava, bailava,
Não era nome de cravo,
Nem era nome de rosa.
- Era o de flor, misteriosa,
Que se esfolhava, esfolhava...
E havia um cristal na vista
E havia um cristal no ar
Quando aquele fandanguista
Se demorava a bailar!
E havia um cristal no vento
E havia um cristal no mar.
E havia no pensamento
Uma flor por esfolhar...
Fandangueiro! Fandangueiro?...
(nem sei que nome lhe dar...)

Tinham seus braços erguidos
Nem sei que ignotos sentidos
- leitos de Asa pelo ar...
Quando bailava, bailava,
Não era folha de cravo
Nem era folha de rosa.
Era uma flor, misteriosa,
Que se esfolhava, esfolhava...

Domingos Enes Pereira
Do lugar de Montedor...
(O bailador do Fandango
Era aquele bailador!)
Vinham moças da Areosa
Para com ele bailar...
E vinham moças de Afife
Para com ele bailar.
Então as sombras dos corpos,
Como chamas traiçoeiras,
Entrelaçavam-se e a dança
Cobria o chão de fogueiras...

E as sombras formavam sebe...
O movimento as florira...
O sonho, a noite, o desejo...
Ai! belezas de mentira!

E as sombras entrelaçavam-se...
Os corpos, ninguém sabia
Se eram corpos, se eram sombras,
Se era o amor que se escondia...







"Não se pode ser sábio e amar ao mesmo tempo."



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