domingo, 12 de novembro de 2017

"Colhe o dia, porque és ele" - Poema de Ricardo Reis


Emil Nolde (1867-1956), Summer Afternoon, 1903



Colhe o dia, porque és ele


Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.


28-8-1933

Odes de Ricardo Reis
Heterónimo de Fernando Pessoa



Emil Nolde, Sommerwolken (Summer clouds), 1913, óleo sobre lienzo, 73 x 88 cm, 
Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid


"Para vermos o azul, olhamos para o céu. A Terra é azul para quem a olha do céu. Azul será uma cor em si, ou uma questão de distância? Ou uma questão de grande nostalgia? O inalcançável é sempre azul." 



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