quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

"O adeus" - Poema de Yves Bonnefoy


Charles Courtney CurranSelf Portrait, 1892



O adeus


Estamos de regresso à nossa origem.
Foi o lugar da evidência, mas rasgada.
As janelas mesclavam muitas luzes,
As escadas galgavam estrelas demais
Que são arcadas desabando, são entulhos,
O fogo parecia arder num outro mundo. 

E agora voam pássaros de quarto em quarto,
Caíram as janelas, cobre-se o leito de pedras,
O lar cheio de escombros do céu a se apagarem.
Ali falávamos, à noite, em voz velada
Por causa dos rumores dos arcos, lá no entanto
Formávamos projetos: e uma barca,
Carregada de pedras rubras, se afastava
Irresistível de uma margem, e o olvido
Já deitava sua cinza sobre os sonhos
Que retomávamos sem fim, a povoar de imagens
O fogo que queimou até o último dia. 

É certo, minha amiga,
Que há apenas um termo para designar
Na língua que chamamos de poesia
O sol do amanhecer e o da tarde,
Um só o grito de júbilo e o grito de angústia,
Um só o deserto rio acima e as machadadas,
Um só o leito desfeito e o céu de tempestade,
Um só a criancinha a nascer e o deus morto? 

Sim, creio, quero crer, mas que sombras são essas
Que consigo carregam o espelho?
E vê, a urze pega em meio às pedras
Na via de relva ainda mal aberta
Onde iam nossos passos às árvores novas.
Parece-me hoje, aqui, que a palavra
É esse cocho partido, de que se derrama
A cada alva de chuva a água inútil. 

A relva e nela a água a brilhar como um rio.
Tudo está sempre a remalhar o mundo.
O paraíso é esparso, bem o sei,
É tarefa terrestre lhe reconhecer
As flores esparzidas pela relva pobre,
Mas desapareceu o anjo, uma luz
Quem não foi de repente mais que o sol poente. 

E como Adão e Eva nós caminharemos
Uma última vez pelo jardim.
Como Adão o primeiro remorso, como Eva
A primeira coragem vamos querer e não 
Passar a porta baixa que se entreabre
Lá adiante, na outra ponta das cordas, colorida
Como de último raio, auguralmente.
O futuro acaso pega-se na origem
Como consente o céu a um espelho curvo,
Poderemos colher daquela luz,
Que foi daqui o milagre, a semente nas mãos
Sombrias, para outras poças no segredo
De outros campos “barrados de pedras”? 

Sim, o lugar para vencer, para vencer-nos, é aqui
De onde partimos, esta noite. Aqui sem fim
Tal como aquela água que escapa do cocho.


Yves Bonnefoy, Obra Poética. 
Tradução de Mário Laranjeira



Charles Courtney CurranThe Artist's Father, 1911


"A beleza das coisas existe no espírito de quem as contempla."



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