sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

"Caminhada" - Poema de Manoel de Barros


Paul Peel, The Young Biologist, 1891



Caminhada


Eu vinha aquela tarde pela terra 
fria de sapos… 
O azul das pedras tinha cauda e canto.

De um sarã espreitava meu rosto um passarinho. 
Caracóis passeavam com róseos casacos ao sol. 
As mãos cresciam crespas para a água da ilha.

Começaram de mim a abrir roseiras bravas. 
Com as crinas a fugir rodavam cavalos 
investindo os orvalhos ainda em carne.

De meu rosto viam ribeiros…

Limpando da casa-do-vento os limos 
no ar minha voz pisava…



Manoel de Barros, no livro "Compêndio para uso dos pássaros" (1960)



Paul Peel, Adoration, 1885


"Amor, fascinante amor, o campo é o teu templo." 




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