sábado, 24 de fevereiro de 2018

"Vida!" - Poema de Augusto de Lima


Ivan Kramskoi, Girl with a Cat, 1882



Vida!


Olha esta gota de água cristalina:
é tão leve, tão ténue e pequenina,
que a sede vegetal mais estimula,
e nem ao menos molha
do lírio o hastil, o cálice ou a folha,
em que, líquida pérola, trémula;
dir-se-ia um pingo de sidérea mágoa.
Tu, que já penetraste os oceanos
e devassas recônditos arcanos,
não a desprezes, olha-a:
que vês na gota cristalina de água?

Nela se espelham fulgidos, celestes
prismas, que a luz exterior difunde,
como em puro diamante lapidado.
Mas se o olhar limitado
de uma lente revestes,
porque a vista sagaz mais se profunde,
verás, então, do turbilhão da Vida,
surdirem novos seres, e estes seres
aumentando-se em linha indefinida,
de modo a não poderes
contar sequer seu número. Detém-te
e observa a formação vária, infinita
dos corpos, cujo frémito latente
um mesmo protoplasma anima e agita.

Mas não! O olhar perturba-se em vertigens
de febril paroxismo.
Nem procures saber-lhes as origens,
a esses entes anónimos, que viste.
Para o prescrutador olhar humano,
como no grande, existe
no infinito minúsculo – um abismo.
Homem, na gota de água há um oceano!


em "Contemporâneas", 1887.


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