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quinta-feira, 16 de agosto de 2018

"Soneto de separação" - Poema de Vinicius de Moraes

SONETO DE SEPARAÇÃO
Inglaterra, 1938


De repente do riso fez-se o pranto 
Silencioso e branco como a bruma 
E das bocas unidas fez-se a espuma 
E das mãos espalmadas fez-se o espanto. 

De repente da calma fez-se o vento 
Que dos olhos desfez a última chama 
E da paixão fez-se o pressentimento 
E do momento imóvel fez-se o drama. 

De repente, não mais que de repente 
Fez-se de triste o que se fez amante 
E de sozinho o que se fez contente. 

Fez-se do amigo próximo o distante 
Fez-se da vida uma aventura errante 
De repente, não mais que de repente.


Vinicius de Moraes
[Oceano Atlântico, a bordo do Highland Patriot,
 a caminho da Inglaterra, setembro de 1938]


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

"Inscrição" - Poema de Luís Filipe Castro Mendes


Émile Bernard (1868-1941), Iron Bridges at Asnières, 1887, oil on canvas



Inscrição


Ama silenciosamente o teu destino. 
Nem pátria nem palavras memoráveis 
farão durar a luz nos teus sentidos: 
alguns objetos que te lembrem, poucos livros 
e versos que sílaba a sílaba transfiguras 
até entardecer cada palavra. 

Teces o teu tremor. E sobre a pedra 
a marca que ficar será de ausência. 


in "Os Amantes Obscuros"



Émile Bernard, Afternoon at Saint-Briac, 1887, Oil on canvas


"Somos o que fazemos, mas somos principalmente o que fazemos para mudar o que somos."



sábado, 19 de agosto de 2017

"Um ofício que fosse de intensidade e calma" - Poema de António Ramos Rosa


Émile Bernard (1868-1941), Buckwheat Harvesters at Pont Aven, 1888



Um ofício


Um ofício que fosse de intensidade e calma
e de um fulgor feliz
E que durasse com a densidade ardente e contemporâneo
de quem está no elemento aceso e é a estatura
da água num corpo de alegria
 E que fosse fundo o fervor de ser a metamorfose da matéria
que já não se separa da incessante busca
que se identifica com a concavidade originária
que nos faz andar e estar de pé
expostos sempre à única face do mundo
Que a palavra fosse sempre a travessia
de um espaço em que ela própria fosse aérea
do outro lado de nós e do outro lado de cá
tão idêntica a si que unisse o dizer e o ser
e já sem distância e não-distância nada a separasse
desse rosto que na travessia é o rosto do ar e de nós próprios


António Ramos Rosa, in "Poemas Inéditos"



Émile Bernard (1868-1941), Pink Street in Pont-Aven, 1892 
Private collection



O Silêncio não existe


O silêncio não existe porque é o constante rumor de uma inexistência. O que se ouve, para além do movimento da cidade, é o monótono murmúrio do nada. Apenas sombra de nada, quem nele procura um apelo ou uma resposta não os encontra ou encontra um sinal negativo. Nada diz esse murmúrio nulo, que é o eco inalterável do vazio do mundo, mas quem o ouve sente a radicalidade da sua negação como se a cada momento nos dissesse: Não há. 

António Ramos Rosa, in 'Relâmpago de Nada'


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

"Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça" - Poema de Álvaro de Campos


Émile Bernard (1868-1941), Boats at Pont-Aven, 1890, Private collection



Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça 


Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça
O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido ou desconhecido,
Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une,
A sensação de arrepio, o medo do novo, a náusea —
Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma, 
Trinta dias de viagem, três dias de viagem, três horas de viagem — 
Sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração.


Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa



Émile Bernard, Breton Landscape, 1890-1891, Private collection 


"Descobri como é bom chegar quando se tem paciência. E para se chegar, onde quer que seja, aprendi que não é preciso dominar a força, mas a razão. É preciso, antes de mais nada, querer.

Amyr Klink in "Cem dias entre céu e mar‎" - Página 6, Publicado por Companhia das Letras, 1985 



Émile Bernard, The Harbor at Saint-Briac, 1887


"Hoje entendo bem meu pai. Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livro ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece, para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como imaginamos e não simplesmente como ele é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver... Il faut aller voir - é preciso ir ver! É preciso questionar o que se aprendeu. É preciso ir tocá-lo". (Daqui)

Amyr Klink, in "Mar sem fim: 360̊ ao redor da Antártica‎", Publicado por Companhia das Letras, 2000 



Émile BernardThe Cliffs of Pouldu, 1887, Private collection 


domingo, 28 de agosto de 2016

"Grão de incenso" - Poema de Augusto Gil


Émile Bernard, Lady in the rain, 1895



Grão de incenso


Entraste com ar cansado 
Numa igreja fria e triste. 
Ajoelhei-me ao teu lado 
– E nem ao menos me viste...

Ficaste a rezar ali, 
Naquela imensa tristeza. 
Rezei também, mas a ti. 
– Que aos anjos também se reza...

Ficaste a rezar até 
Manhã dentro, manhã alta. 
Como é que tens tanta fé 
E a caridade te falta?...


In, Luar de Janeiro


domingo, 29 de maio de 2016

"Ismália" - Poema de Alphonsus de Guimaraens


Émile Bernard, Breton Women with Umbrellas (1892), musée d'Orsay, Paris.



Ismália


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...




sábado, 28 de maio de 2016

"Canção do Mar Aberto" - Poema de Armando César Côrtes-Rodrigues


Émile Bernard, Madeleine in the Bois d'Amour, 1888



Canção do Mar Aberto


Onde puseram teus olhos
A mágoa do teu olhar?
Na curva larga dos montes
Ou na planura do mar?

De dia vivi este anseio;
De noite vem o luar,
Deixa uma estrada de prata
Aberta para eu passar.

Caminho por sobre as ondas
Não paro de caminhar.
O longe é sempre mais longe…
Ai de mim se me cansar!...

Morre o meu sonho comigo,
Sem te poder encontrar.


Armando César Côrtes-Rodrigues


domingo, 30 de outubro de 2011

"Envelhecer" - Poema de Wilson Frade


Émile Bernard (1868-1941), Avó, 1887, Óleo sobre tela



Envelhecer


Embora todos os pretensos à velhice
se agarrem ao espírito,
o tédio chega e vai ficando.

As nossas mãos já não escrevem com o mesmo brilho
e já não enfrentamos a vida com o mesmo espanto no olhar.

O verde já não é tão verde
e não nos atiramos no mar com a mesma gulodice.

Amamos com maior cautela,
menos febrilmente, mas, bem mais ordenadamente.

Buscamos o sabor do beijo com a febre de que ele possa acabar,
mas sentimos um frio no corpo se pensamos que tudo isso
possa terminar.

Os fios de cabelos brancos já não nos castigam
porque descobrimos mais a lua e as estrelas,
e curtimos aquele chinelo velho
em extremo desuso.

Prestamos mais atenção aos passarinhos
e no riacho que corre,
e tornamo-nos mais íntimos da morte.

Fingimos que ela é nossa amante
para que não nos leve assim tão de repente
e não nos tire os raros momentos em que nos tornamos jovens.



Wilson Frade,
Poemas de um livro só, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1991

Wilson Frade (1920-2000) foi um jornalista, pintor, poeta, instrumentista e compositor mineiro.



Leonard Cohen - Dance Me to the End Of Love



"A alegria mantém uma espécie de luz solar brilhando na mente e a invade com uma serenidade perene e firme."

(Josefh Addison)

Joseph Addison (Milston, Inglaterra, 1 de maio de 1672 — 17 de junho de 1719) foi um poeta e ensaísta inglês.


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