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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

"Em Louvor da Miniblusa" - poema de Carlos Drummond de Andrade


Émile Friant (1863-1932), The Study, 1885


Em Louvor da Miniblusa



Hoje vai a antiga musa
celebrar a nova blusa
que de Norte a Sul se usa
como graça de verão.
Graça que mostra o que esconde
a blusa comum, mas onde
um velho da era do bonde
encontrará mais mensagem
do que na bossa estival
da rola que ao natural
mostra seu colo fatal,
ou quase, pois tanto faz,
se a anatomia me ensina
a tocar a concertina
em busca ao mapa da mina
que ora muda de lugar?
Já nem sei mais o que digo
ao divisar certo umbigo:
penso em flor, cereja, figo,
penso em deixar de pensar,
e em louvar o costureiro
ou costureira — joalheiro
que expõe a qualquer soleiro
esse profundo diamante
exclusivo antes das praias
(Copas, Leblons, Marambaias
e suas areias gaias).
Salve, moda, salve, sol
de sal, de alegre inventiva,
que traz à matéria viva
a prova figurativa!
Pode a indústria de fiação
carpir-se do pouco pano
que o figurino magano
reduz a zero, cada ano.
Que importa? A melhor fazenda
o mais cetínio tecido,
que me bota comovido
e bole em cada sentido,
ainda é a doce pele,
de original padronagem,
pois adere a cada imagem
qual sua própria tatuagem
que ninguém copiará.
Miniblusa, miniblusa,
garanto que quem te acusa
a cuca há de ter confusa.
És pano de boca? O palco
tão redondo quão seleto
que abres ao avô e ao neto
(à vista, apenas), objeto
é de puro encantamento.
No cenário em suave curva
nosso olhar jamais se turva,
falte embora rima em urva,
pois é pelúcia-piscina
onde a ilha umbilical
vale a urna de São Gral,
o Tesouro Nacional,
vale tudo... e lembra a drósera,
flor carnívora exigente
que pra devorar a gente
não cochila certamente.
Drósera? Drupa, talvez,
carnoso fruto de vida,
drusa tão bem inserida
na superfície polida
que a blusa desvesteveste.
Ai, blublu de semiblusa,
de Ipanema ou Siracusa,
que me perco na fiúza
de capturar o mistério
— Quid mulieris... ? — do corpóreo.
Mas chega de latinório,
vaníloquo verbolório
e versiconversa obtusa
de tudo que a musa canta,
pois mais alto se alevanta
o sem-véu da miniblusa.


Carlos Drummond de Andrade,
in 'O Poder Ultrajovem' 



Galeria de Émile Friant

Émile Friant, Self portrait (1878)




Émile Friant, Studio Visit1906
Private collection


Émile Friant, Portrait de Mme Petitjean, 1883
Émile Friant, Portrait de madame Coquelin Mère, collection privée



Émile Friant, Portrait de sa mère épluchant un navet, devant une fenêtre, 1887



Émile Friant, La Porte Saint-Georges, 1878




Émile Friant, Voyage a l'Infini, 1889

sábado, 7 de dezembro de 2013

A Deliciosa Solidão dos Anos de Maturidade... de Albert Einstein


Émile Friant (1863–1932), Le printemps, 1888 


 
A Deliciosa Solidão dos Anos de Maturidade


O que é significativo na existência de cada um é algo de que dificilmente temos consciência e não deve seguramente incomodar os outros. O que sabe um peixe acerca da água na qual nada durante toda a vida?
A amargura e a doçura vêm do exterior, as dificuldades do interior, dos nossos próprios esforços. Na maior parte das vezes faço as coisas que a minha própria natureza me compele a fazer. É embaraçador ganhar tanto respeito e amor por isso. Também me foram atiradas setas de ódio, mas nunca me atingiram, porque de algum modo pertencem a outro mundo, com o qual não tenho qualquer tipo de ligação.
Vivo naquela solidão que é penosa na juventude, mas deliciosa nos anos de maturidade.


 
Albert Einstein, in 'Out Of My Later Years'






Galeria de Émile Friant
Émile Friant, Autoportrait,
Date inconnue

Émile Friant, La Lutte,1889


 Émile Friant, Artistic anatomy, sisters,1897


 Émile Friant, Sisters,1897


Émile Friant, Jeune nancéienne dans un paysage de neige, 1887


Émile Friant, The Frugal Repast, Date inconnue


Émile Friant, La Discussion politique,1889, coleção privada


Émile Friant, Les Canotiers de la Meurthe, 1888 


Émile Friant, La Toussaint, 1888
Collection musée des Beaux-Arts, Nancy


Émile Friant, La Douleur, 1898


Émile Friant, Tendresse Maternelle, 1906, coleção privada




Luciano Pavarotti - Avé Maria

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Este é o Verdadeiro Amor de que Tanto se Fala... de Almeida Garrett


Émile Friant (1863–1932) , Les Amoureux (Soir d'automne, Idylle sur la passerelle) 
The Lovers (Autumn Evening)
Oil on canvas, 1888
 
 
Este é o Verdadeiro Amor de que Tanto se Fala



Estranho e inexplicável sentimento este! Que quando sinto transbordar-me do coração toda esta imensa ventura, acomete-me então um terror grande - parece-me que é impossível ser tão feliz - que o Mundo não comporta esta ventura celeste, e que chegado ao ápice de todas as felicidades já será forçoso declinar. (...) Sucede-te isto também a ti, esposa querida do meu coração? Conheces tu também este tormento, anjo divino?
Ai, Rosa, minha doce Rosa, este que nós sentimos, este é o verdadeiro amor de que tanto se fala, e tão pouco se sabe o que é. São regiões pouco conhecidas em que a cada passo se encontram belezas nunca sonhadas, terrores inexplicáveis, felicidades sem par e tristezas que não têm nome.

(...) Oh! Como se riria de mim quem lesse esta carta, Rosa! - De mim que eles julgam um incrédulo, um cético, e cujas palavras sarcásticas no Mundo não significam senão a mais perfeita indiferença por tudo! Há dois homens em mim, vida desta alma; um é o que veem todos, o que fez a experiência, a sociedade e o conhecimento de suas misérias e nulidades - o outro é o que tu fizeste, é a criação do teu amor, a tua obra, e este vale muito decerto, porque é feito à tua imagem.

 
Almeida Garrett, in 'Carta a Rosa Barreiras'
 
 
 
Emile Friant, Autoportrait, 1887


Émile Friant (Dieuze, 16 de Abril de 1863Paris, 9 de Junho de 1932) foi um pintor francês. Seus trabalhos foram expostos no Salão de Paris. Ele era conhecido como um professor da arte na Escola de Belas Artes em Paris. Foi condecorado com a Legião de Honra e também foi membro do Instituto de França.
Movimento estético: Realismo



Emile Friant, Autoportrait, 1885

 
 
 
  Emile Friant, Interieur d'atelier,1884



   Emile Friant, Ombres portées, 1891



Amo-te Por Todas as Razões e Mais Uma
 
 
Por todas as razões e mais uma. Esta é a resposta que costumo dar-te quando me perguntas por que razão te amo. Porque nunca existe apenas uma razão para amar alguém. Porque não pode haver nem há só uma razão para te amar.
Amo-te porque me fascinas e porque me libertas e porque fazes sentir-me bem. E porque me surpreendes e porque me sufocas e porque enches a minha alma de mar e o meu espírito de sol e o meu corpo de fadiga. E porque me confundes e porque me enfureces e porque me iluminas e porque me deslumbras.
Amo-te porque quero amar-te e porque tenho necessidade de te amar e porque amar-te é uma aventura. Amo-te porque sim mas também porque não e, quem sabe, porque talvez. E por todas as razões que sei e pelas que não sei e por aquelas que nunca virei a conhecer. E porque te conheço e porque me conheço. E porque te adivinho. Estas são todas as razões.
Mas há mais uma: porque não pode existir outra como tu.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'



Joaquim Pessoa

Joaquim Maria Pessoa (Barreiro, 22 de fevereiro de 1948), conhecido por Joaquim Pessoa, é um poeta, artista plástico, publicitário e estudioso de arte pré-histórica português.
 
 
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