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sábado, 13 de outubro de 2018

"Elegia 1938" - Poema de Carlos Drummond de Andrade



Édouard Manet, Le Bon Bock (Portrait of Emile Bellot), 1873, Oil on canvas, 94 x 83 cm
Philadelphia Museum of Art



Elegia 1938 


Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.


Carlos Drummond de Andrade 
 

domingo, 26 de agosto de 2018

"Quero me casar" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Sir William Quiller Orchardson (scottish, 1832-1910),
  Dolce Far Niente, 1872



Quero me casar


Quero me casar 
na noite na rua 
no mar ou no céu 
quero me casar. 

Procuro uma noiva 
loura morena 
preta ou azul 
uma noiva verde 
uma noiva no ar 
como um passarinho. 

Depressa, que o amor 
não pode esperar! 


 in 'Alguma Poesia'


domingo, 24 de junho de 2018

"Consolo na praia" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Emil Nolde, Meer Bei Alsen (Sea Off Alsen), 1910



Consolo na praia


Vamos, não chores…
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-se – de vez – nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.


in A rosa do povo, 1945



Emil Nolde, Sunrise at the sea, 1927


"Nenhuma ilusão é mais corriqueira do que aquela que a nostalgia nos inspira na velhice."


sábado, 11 de novembro de 2017

"A Dança e a Alma" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Hans Thoma, Eight dancing women with bird bodies, 1886 



A Dança e a Alma


A dança? Não é movimento,
súbito gesto musical.
É concentração, num momento,
da humana graça natural.

No solo não, no éter pairamos,
nele amaríamos ficar.
A dança – não vento nos ramos:
seiva, força, perene estar.

Um estar entre céu e chão,
novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão
libertar-se por todo lado…

Onde a alma possa descrever
suas mais divinas parábolas
sem fugir à forma do ser,
por sobre o mistério das fábulas. 




domingo, 12 de março de 2017

"Tarde de Maio" - Poema de Carlos Drummond de Andrade






Tarde de Maio


Como esses primitivos que carregam por toda parte
 o maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cómicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh’alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza
sem fruto.

Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto e passa…
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.

Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.

E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.

Nunca há testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.




quinta-feira, 10 de novembro de 2016

"Procura da Poesia" - Poema de Carlos Drummond de Andrade



Procura da Poesia 


Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a 
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. 
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito 
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda húmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.







“A loucura é vizinha da mais cruel sensatez. Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente.”



terça-feira, 18 de outubro de 2016

"Confissão" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Valentín Thibon de Libian (1889-1931), En el café (El café de las midinettes), c.1919



Confissão


É certo que me repito, 
é certo que me refuto 
e que, decidido, hesito 
no entra-e-sai de um minuto. 

É certo que irresoluto 
entre o velho e o novo rito 
atiro à cesta o absoluto 
como inútil papelito. 

É tão certo que me aperto 
numa tenaz de mosquito 
como é trinta vezes certo 
que me oculto no meu grito. 

Certo, certo, certo, certo 
que mais sinto que reflito 
as fábulas do deserto 
do raciocínio infinito. 

É tudo certo e prescrito 
em nebuloso estatuto. 
O homem, chamar-lhe mito 
não passa de anacoluto. 


in 'As Impurezas do Branco'



Valentín Thibon de Libian, El ocaso, 1930



"Eu acredito que a poesia tenha sido uma vocação, embora não tenha sido uma vocação desenvolvida conscientemente ou intencionalmente. Minha motivação foi esta: tentar resolver, através de versos, problemas existenciais internos. São problemas de angústia, incompreensão e inadaptação ao mundo."

(Carlos Drummond de Andrade)


domingo, 9 de outubro de 2016

"Véspera" - Poema de Carlos Drummond de Andrade





Véspera


Amor: em teu regaço as formas sonham 
o instante de existir: ainda é bem cedo 
para acordar, sofrer. Nem se conhecem 
os que se destruirão em teu bruxedo. 

Nem tu sabes, amor, que te aproximas 
a passo de veludo. És tão secreto, 
reticente e ardiloso, que semelhas 
uma casa fugindo ao arquiteto. 

Que presságios circulam pelo éter, 
que signos de paixão, que suspirália 
hesita em consumar-se, como flúor, 
se não a roça enfim tua sandália? 

Não queres morder célere nem forte. 
Evitas o clarão aberto em susto. 
Examinas cada alma. É fogo inerte? 
O sacrifício há de ser lento e augusto. 

Então, amor, escolhes o disfarce. 
Como brincas (e és sério) em cabriolas, 
em risadas sem modo, pés descalços, 
no círculo de luz que desenrolas! 

Contempla este jardim: os namorados, 
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo 
de teu capricho o hermético astrolábio, 
e perseguem o sol no dia findo. 

E se deitam na relva; e se enlaçando 
num desejo menor, ou na indecisa 
procura de si mesmos, que se expande, 
corpóreos, são mais leves do que brisa. 

E na montanha-russa o grito unânime 
é medo e gozo ingénuo, repartido 
em casais que se fundem, mas sem flama, 
que só mais tarde o peito é consumido. 

Olha, amor, o que fazes desses jovens 
(ou velhos) debruçados na água mansa, 
relendo a sem-palavra das estórias 
que nosso entendimento não alcança. 

Na pressa dos comboios, entre silvos, 
carregadores e campainhas, rouca 
explosão de viagem, como é lírico 
o batom a fugir de uma a outra boca. 

Assim teus namorados se prospectam: 
um é mina do outro; e não se esgota 
esse ouro surpreendido nas cavernas 
de que o instinto possui a esquiva rota. 

Serão cegos, autómatos, escravos 
de um deus sem caridade e sem presença? 
Mas sorriem os olhos, e que claros 
gestos de integração, na noite densa! 

Não ensaies de mais as tuas vítimas, 
ó amor, deixa em paz os namorados 
Eles guardam em si, coral sem ritmo, 
os infernos futuros e passados. 


in 'A Vida Passada a Limpo'


sábado, 17 de setembro de 2016

"Sociedade" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Malthe Odin Engelstedt (Danish, 1852–1930), The Game of Bridge 



Sociedade


O homem disse para o amigo: 
— Breve irei a tua casa 
e levarei minha mulher. 

O amigo enfeitou a casa 
e quando o homem chegou com a mulher, 
soltou uma dúzia de foguetes. 

O homem comeu e bebeu. 
A mulher bebeu e cantou. 
Os dois dançaram. 
O amigo estava muito satisfeito. 

Quando foi hora de sair, 
o amigo disse para o homem: 
— Breve irei a tua casa. 
E apertou a mão dos dois. 

No caminho o homem resmunga: 
— Ora essa, era o que faltava. 
E a mulher ajunta: — Que idiota. 

— A casa é um ninho de pulgas. 
— Reparaste o bife queimado? 
O piano ruim e a comida pouca. 

E todas as quintas-feiras 
eles voltam à casa do amigo 
que ainda não pôde retribuir a visita. 


in 'Alguma Poesia'


quarta-feira, 11 de maio de 2016

"Maneira de amar" - Conto de Carlos Drummond de Andrade


Emile Claus, The Old Gardener, 1885



Maneira de amar 


O jardineiro conversava com as flores, e elas se habituaram ao diálogo. Passava manhãs contando coisas a uma cravina ou escutando o que lhe confiava um gerânio. O girassol não ia muito com sua cara, ou porque não fosse homem bonito, ou porque os girassóis são orgulhosos de natureza. 
Em vão o jardineiro tentava captar-lhe as graças, pois o girassol chegava a voltar-se contra a luz para não ver o rosto que lhe sorria. Era uma situação bastante embaraçosa, que as outras flores não comentavam. Nunca, entretanto, o jardineiro deixou de regar o pé de girassol e de renovar-lhe a terra, na ocasião devida. 
O dono do jardim achou que seu empregado perdia muito tempo parado diante dos canteiros, aparentemente não fazendo coisa alguma. E mandou-o embora, depois de assinar a carteira de trabalho. 
Depois que o jardineiro saiu, as flores ficaram tristes e censuravam-se porque não tinham induzido o girassol a mudar de atitude. A mais triste de todas era o girassol, que não se conformava com a ausência do homem. “Você o tratava mal, agora está arrependido?” “Não”, respondeu “estou triste porque agora não posso tratá-lo mal. É a minha maneira de amar, ele sabia disso, e gostava”. 



segunda-feira, 4 de abril de 2016

"Igual-Desigual" - Poema de Carlos Drummond de Andrade





Igual-Desigual


Eu desconfiava: 
todas as histórias em quadrinho são iguais. 
Todos os filmes norte-americanos são iguais. 
Todos os filmes de todos os países são iguais. 
Todos os best-sellers são iguais 
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são 
iguais. 
Todos os partidos políticos 
são iguais. 
Todas as mulheres que andam na moda 
são iguais. 
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais 
e todos, todos 
os poemas em verso livre são enfadonhamente iguais. 

Todas as guerras do mundo são iguais. 
Todas as fomes são iguais. 
Todos os amores, iguais iguais iguais. 
Iguais todos os rompimentos. 
A morte é igualíssima. 
Todas as criações da natureza são iguais. 
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais. 
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa. 

Ninguém é igual a ninguém. 
Todo o ser humano é um estranho 
ímpar. 


in 'A Paixão Medida'


domingo, 7 de fevereiro de 2016

“Um homem e o seu carnaval” - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Robert Delaunay, 1906, Carousel of Pigs, oil on canvas, Solomon R. Guggenheim Museum




“Um homem e o seu carnaval”


Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.

O pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.

Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.


Carlos Drummond de Andrade



Queen - Innuendo



domingo, 20 de setembro de 2015

"Família" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Família


Três meninos e duas meninas, 
sendo uma ainda de colo. 
A cozinheira preta, a copeira mulata, 
o papagaio, o gato, o cachorro, 
as galinhas gordas no palmo de horta 
e a mulher que trata de tudo. 

A espreguiçadeira, a cama, a gangorra, 
o cigarro, o trabalho, a reza, 
a goiabada na sobremesa de domingo, 
o palito nos dentes contentes, 
o gramofone rouco toda a noite 
e a mulher que trata de tudo. 

O agiota, o leiteiro, o turco, 
o médico uma vez por mês, 
o bilhete todas as semanas 
branco! mas a esperança sempre verde. 
A mulher que trata de tudo 
e a felicidade. 



 in 'Alguma Poesia'



Almada Negreiros, Duplo Retrato, 1934-36,
óleo sobre tela, 146 cm x 101 cm



"Interroguei-me muitas vezes se uma pessoa tem justificação para negligenciar a sua própria família para lutar por oportunidades para os outros."

in Manuscrito (1975)

quarta-feira, 22 de julho de 2015

"Falta Pouco" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Tjalf Sparnaay,  Sandwich Ham-Egg, oil on canvas, 2014, 95x150cm



Falta Pouco


Falta pouco para acabar 
o uso desta mesa pela manhã 
o hábito de chegar à janela da esquerda 
aberta sobre enxugadores de roupa. 
Falta pouco para acabar 
a própria obrigação de roupa 
a obrigação de fazer barba 
a consulta a dicionários 
a conversa com amigos pelo telefone. 

Falta pouco 
para acabar o recebimento de cartas 
as sempre adiadas respostas 
o pagamento de impostos ao país, à cidade 
as novidades sangrentas do mundo 
a música dos intervalos. 

Falta pouco para o mundo acabar 
sem explosão 
sem outro ruído 
além do que escapa da garganta com falta de ar. 

Agora que ele estava principiando 
a confessar 
na bruma seu semblante e melodia. 



 in 'A Falta que Ama' 


segunda-feira, 20 de julho de 2015

"Congresso Internacional do Medo" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


John Everett MillaisThe North West Passage, 1874



Congresso Internacional do Medo


Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.



sábado, 30 de agosto de 2014

"Rodando" - de Adélia Prado


Imagem de Sarolta Bán



Rodando


Depois de muita e boa chuva, Célia voltava de Belo Horizonte para sua casa no interior do Estado. Era bom viajar de ônibus, vendo, parecia-lhe que pela primeira vez, o verde rebrotando com força. Ouviu um passageiro falando pra ninguém: que cheiro de mato! Sol farto e os moradores desses conjuntos habitacionais de caixa de papelão e zinco, que brotam como grama à margem das rodovias, aproveitavam pra esquentar o couro rodeados de criança e cachorro. Os deserdados desfilavam, a moça e seu namorado com bota de imitação de peão boiadeiro iam de mãos dadas, com certeza à casa de uma tia da moça, comunicar que pretendiam se casar. Uma avó gorda com seu neto também passou, ela de sombrinha, ele de calcinha comprida de tergal. Iam aonde? Célia fantasiou, ah, com certeza na casa de uma comadre da avó, uma amiga dela de juventude. O menino ia sentir demais a morte daquela avó que lhe pegava na mão de um jeito que nem sua mãe fazia. Desceram três moços de bermuda e camisa do Clube Atlético Mineiro, e um quarto com grande inscrição na camiseta: SÓ CRISTO SALVA! Camiseta e bermuda não favorecem a ninguém, ela pensou desgostosa com a feiura das roupas. Bermudas principalmente, teria que se ter menos de dez anos pra se usar aquela invenção horrorosa. Teve dó dos moços que só conheciam futebol e dupla sertaneja. Foi um pensamento soberbo, se arrependeu na hora. Tinha preconceitos, lembrou-se de que gostara muito de um jogo de futebol em Londrina, rodeada de palavrões e chup-chup com água de torneira e famílias inteiras se esturricando gozosamente entre pão com molho e adjetivos brutais, prodigiosamente colocados, lindos e surpreendentes como as melhores invenções da poesia. Concluiu sonolenta, o mundo está certo. Uma criança começou a chorar muito alto: quero ficar aqui não, quero sentar com meu pai, quero o meu pai. A mãe parecia muito agoniada e pelo tom do choro Célia achou que ela abafava a boca da criança com uma fralda ou a apertava raivosa contra o peito, envergonhada de ter filha chorona. Suposições. Tudo estava muito bom naquele dia, não sofria com nada, nem ao menos quis ajudar a mãe, botar a menina no colo, estas coisas em que era presta e mestra. Assistia ao mundo, rodava macio tudo, o ônibus, a vida, nem protagonista nem autora, era figurante, nem ao menos fazia o ponto naquele teatro perfeito, era só plateia. Aplaudia, gostando sinceramente de tudo. Contra céu azul e cheiro de mato verde Deus regia o planeta. Estava muito surpresa com a perfeita mecânica do mundo e muitíssimo agradecida por estar vivendo. Foi quando teve o pensamento de que tudo que nasce deve mesmo nascer sem empecilho, mesmo que os nascituros formem hordas e hordas de miseráveis e os governos não saibam mais o que fazer com os sem-teto, os sem-terra, os sem-dentes e as igrejas todas reunidas em concílio esgotem suas teologias sobre caridade discernida e não tenhamos mais tempo de atender à porta a multidão de pedintes. Ainda assim, a vida é maior, o direito de nascer e morar num caixote à beira da estrada. Porque um dia, e pode ser um único dia em sua vida, um deserdado daqueles sai de seu buraco à noite e se maravilha. Chama seu compadre de infortúnio: vem cá, homem, repara se já viu o céu mais estrelado e mais bonito que este! Para isto vale nascer.


Adélia Prado
(Extraído do livro "Filandras",
 Editora Record - Rio de Janeiro, 2001, pág. 119.) (Daqui)



Adélia Prado


Adélia Luzia Prado Freitas
(Divinópolis, 13 de dezembro de 1935) é uma escritora brasileira. Formou-se em Filosofia em 1973, dirigiu um grupo de teatro amador, exerceu o cargo de professora durante 24 anos, até que a carreira de escritora  se tornou a atividade central.
O seu primeiro livro de poemas chama-se Bagagem (1976) e foi apadrinhado por Carlos Drummond de Andrade. A partir dessa altura, começou a escrever e a publicar mais obras. Em 1978 editou o seu primeiro livro em prosa, intitulado Soltem os Cachorros.
Entre outras obras da autora encontram-se: Terra de Santa Cruz (poesia, 1981), A Faca no Peito (poesia, 1988), Poesia Reunida (antologia, 1991), O Homem da Mão Seca (prosa, 1994), Prosa Reunida (antologia, 1999) e Filandras (prosa, 2001).
Seus textos retratam o quotidiano com perplexidade e encanto, norteados pela fé cristã e permeados pelo aspecto lúdico, uma das características de seu estilo único.
Em termos de literatura brasileira, o surgimento da escritora representou a revalorização do feminino nas letras e da mulher como ser pensante, tendo-se em conta que Adélia incorpora os papéis de intelectual e de mãe, esposa e dona de casa.

“Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis“.







Galeria de Sarolta Bán

Imagem de Sarolta Bán


"I was born in 1982 in Budapest, Hungary. Originally I’m a jewellery designer, later I discovered digital photo manipulation and it became my passion and main activity. I like using ordinary elements and by combining them, I can give them various stories, personalities. I hope that the meanings of my pictures are never too limited, are open in some way, each viewer can transform them into a personal aspect. "



Imagem de Sarolta Bán


Imagem de Sarolta Bán
 

Imagem de Sarolta Bán


Imagem de Sarolta Bán


 Imagem de Sarolta Bán

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

"Em Louvor da Miniblusa" - poema de Carlos Drummond de Andrade


Émile Friant (1863-1932), The Study, 1885


Em Louvor da Miniblusa



Hoje vai a antiga musa
celebrar a nova blusa
que de Norte a Sul se usa
como graça de verão.
Graça que mostra o que esconde
a blusa comum, mas onde
um velho da era do bonde
encontrará mais mensagem
do que na bossa estival
da rola que ao natural
mostra seu colo fatal,
ou quase, pois tanto faz,
se a anatomia me ensina
a tocar a concertina
em busca ao mapa da mina
que ora muda de lugar?
Já nem sei mais o que digo
ao divisar certo umbigo:
penso em flor, cereja, figo,
penso em deixar de pensar,
e em louvar o costureiro
ou costureira — joalheiro
que expõe a qualquer soleiro
esse profundo diamante
exclusivo antes das praias
(Copas, Leblons, Marambaias
e suas areias gaias).
Salve, moda, salve, sol
de sal, de alegre inventiva,
que traz à matéria viva
a prova figurativa!
Pode a indústria de fiação
carpir-se do pouco pano
que o figurino magano
reduz a zero, cada ano.
Que importa? A melhor fazenda
o mais cetínio tecido,
que me bota comovido
e bole em cada sentido,
ainda é a doce pele,
de original padronagem,
pois adere a cada imagem
qual sua própria tatuagem
que ninguém copiará.
Miniblusa, miniblusa,
garanto que quem te acusa
a cuca há de ter confusa.
És pano de boca? O palco
tão redondo quão seleto
que abres ao avô e ao neto
(à vista, apenas), objeto
é de puro encantamento.
No cenário em suave curva
nosso olhar jamais se turva,
falte embora rima em urva,
pois é pelúcia-piscina
onde a ilha umbilical
vale a urna de São Gral,
o Tesouro Nacional,
vale tudo... e lembra a drósera,
flor carnívora exigente
que pra devorar a gente
não cochila certamente.
Drósera? Drupa, talvez,
carnoso fruto de vida,
drusa tão bem inserida
na superfície polida
que a blusa desvesteveste.
Ai, blublu de semiblusa,
de Ipanema ou Siracusa,
que me perco na fiúza
de capturar o mistério
— Quid mulieris... ? — do corpóreo.
Mas chega de latinório,
vaníloquo verbolório
e versiconversa obtusa
de tudo que a musa canta,
pois mais alto se alevanta
o sem-véu da miniblusa.


Carlos Drummond de Andrade,
in 'O Poder Ultrajovem' 



Galeria de Émile Friant

Émile Friant, Self portrait (1878)




Émile Friant, Studio Visit1906
Private collection


Émile Friant, Portrait de Mme Petitjean, 1883
Émile Friant, Portrait de madame Coquelin Mère, collection privée



Émile Friant, Portrait de sa mère épluchant un navet, devant une fenêtre, 1887



Émile Friant, La Porte Saint-Georges, 1878




Émile Friant, Voyage a l'Infini, 1889

sábado, 29 de junho de 2013

"Que todos os dias sejam dias de Amor" - de Carlos Drummond de Andrade


Ilustração de Tom Lovell



Que todos os dias sejam dias de Amor


João Brandão pergunta, propõe e decreta: 
Se há o Dia dos Namorados, por que não haver o Dia dos Amorosos, o Dia dos Amadores, o Dia dos Amantes? Com todo o fogo desta última palavra, que circula entre o carnal e o sublime? 
E o Dia dos Amantes Exemplares e o Dia dos Amantes Platónicos, que também são exemplares à sua maneira, e dizem até que mais? 
Por que não instituir, ó psicólogos, ó sociólogos, ó lojistas e publicitários, o Dia do Amor
O Dia de Fazê-lo, o Dia de Agradecer-lhe, o de Meditá-lo em tudo que encerra de mistério e grandeza, o Dia de Amá-lo? Pois o Amor se desperdiça ou é incompreendido até por aqueles que amam e não sabem, pobrezinhos, como é essencial amar o Amor. 
E mais o Dia do Amor Tranquilo, tão raro e vestido de linho alvo, o Dia do Amor Violento, o Dia do Amor que não ousava dizer o seu nome mas agora ousa, na arrebentação geral do século? 
Amor Complicado pede o seu Dia, não para tornar-se pedestre, mas para requintar em sua complicação cheia de vôos fora do horário e da visibilidade. Amor à Primeira Vista, o fulminante, bem que gostava de ter o seu, cortado de relâmpagos. E há motivos de sobra para se estabelecer o Dia do Amor ao Próximo, e o Próximo somos nós, quando nos esquecemos de nós mesmos, abjurando o enfezadíssimo Amor-Próprio. 
Depressa, amigos criadores de Dias, criai o do Amor Livre, entendido como tal o que desata as correntes do interesse imediato, da discriminação racial e económica, ri das divisões políticas, das crenças separatórias, e planta o seu estandarte no cimo da cordilheira mais alta. Livre até no impulso egoístico da correspondência geométrica. Amor que nem a si mesmo se escraviza, na total doação que é converter-se no alvo, pois lá diz o que sabe: «Transforma-se o amador na coisa amada.» 
Haja também um Dia para o Amor não correspondido, em que ele se console e crie alento para perseverar, se esta é a sua condição fatal, melhor direi, a sua graça. Pois todo Amor tem o seu ponto de luz, que às vezes se confunde com a sombra. 

O Amor Impossível, exatamente por sua impossibilidade, merece a compensação de um Dia. Concederemos outro ao Amor Perfeito, que não precisa de mais, mergulhado que está na eternidade, a mover os sóis, independentemente da astrofísica. Ao Amor Imperfeito, síntese muito humana de tantos, retrato mal copiado do modelo divino, igualmente, se consagre um Dia generoso. 
Amor à Glória não carece ter Dia, nem Amor ao Dinheiro e seu primo (ou irmão) Amor ao Poder. Eles se satisfazem, o primeiro com uma bolha de sabão, os outros dois com a mesa posta. Mas ao Amor faminto e sem talher, e ao que nenhuma iguaria lhe satisfaz, porque sua fome vai além dos alimentos e é a fome em si, a ansiosa procura do que não existe nem pode existir: um Dia para cada um. 

E se mais Dias sobrarem, que sejam reservados para os Amores de que não me lembro no momento mas certamente existem, pois sendo o Amor infinito em sua finitude, isto é, fugindo ao tempo no tempo, e multiplicando-se em invenções, subtilezas, desvarios, enigmas e tudo mais, sempre haverá um Amor novo no sujeito amante, dentro do Amor que nele pousou e que cada manhã nasce outra vez, de sorte que o mesmo Amor é cada dia outro sem deixar de ser o antigo, e são muitos outros concentrados e não compendiados na potencialidade de amar. Assim sendo, recomendo e requeiro e decreto que todos os dias do ano sejam Dias do Amor, e não mais disso ou daquilo, como erradamente se convencionou e precisa ser corrigido. Tenho dito. Cumpra-se. 


Carlos Drummond de Andrade, in 'O Poder Ultrajovem'



Tom LovellUp the Staircase, 1942


terça-feira, 30 de abril de 2013

"Fraga e Sombra" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Odilon RedonBusto de Homem dormindo no meio de Flores



Fraga e Sombra


A sombra azul da tarde nos confrange.
Baixa, severa, a luz crepuscular.
Um sino toca, e não saber quem tange
é como se este som nascesse do ar.

Música breve, noite longa. O alfanje
que sono e sonho ceifa devagar
mal se desenha, fino, ante a falange
das nuvens esquecidas de passar.

Os dois apenas, entre céu e terra,
sentimos o espetáculo do mundo,
feito de mar ausente e abstrata serra.

E calcamos em nós, sob o profundo
instinto de existir, outra mais pura
vontade de anular a criatura.





Odilon Redon, Roger and Angelica, 1910-1912


"Procurem ver o mundo como na verdade ele pode ser visto, como um lugar maravilhoso, que, à semelhança de um jardim, podemos cultivar e tornar ainda melhor. Procurem ter a humildade de um jardineiro experiente, de um jardineiro que sabe que muitas das suas tentativas não irão ser bem sucedidas."
Karl Popper (1983)


Karl Raimund Popper (Viena, 28 de Julho de 1902 — Londres, 17 de Setembro de 1994) foi um filósofo da ciência austríaco naturalizado britânico. É considerado por muitos como o filósofo mais influente do século XX a tematizar a ciência. Foi também um filósofo social e político de estatura considerável, um grande defensor da democracia liberal e um oponente implacável do totalitarismo.
Ele é talvez mais conhecido pela sua defesa do falsificacionismo como um critério da demarcação entre a ciência e a não-ciência, e pela sua defesa da sociedade aberta.
Nascido numa família de classe alta de origem judaica secularizada, foi educado na Universidade de Viena. Concluiu o doutoramento em filosofia em 1928 e ensinou numa escola secundária entre 1930 e 1936. Em 1937, a ascensão do Nazismo levou-o a emigrar para a Nova Zelândia, onde foi professor de filosofia em Canterbury University College, Christchurch. Em 1946, foi viver na Inglaterra, tornando-se assistente (reader) de lógica e de método científico na London School of Economics, onde foi nomeado professor em 1949. Foi nomeado cavaleiro da Rainha Isabel II em 1965, e eleito para a Royal Society em 1976. Reformou-se da vida académica em 1969, apesar de ter permanecido activo intelectualmente até à sua morte, em 1994. Recebeu a insígnia de Companheiro de Honra (Companion of Honour) em 1982.
Popper recebeu vários prémios e honras no seu campo, incluindo o prémio Lippincott da associação americana de ciência política, o prémio Sonning, e o estatuto de membro na sociedade real, na academia britânica, London School of Economics, Kings College de Londres, Darwin College de Cambridge e o  Prémio Kyoto (1992).



Odilon Redon - Decorative Pannels


Odilon Redon - Coquille, 1912 


Odilon Redon - Bazon, the artist's cat


Odilon Redon Buda, 1904


Odilon Redon - São João, 1892




Odilon Redon - São Sebastião, 1910-1912             Odilon Redon - O Nascimento de Vênus, 1912


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