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quarta-feira, 27 de março de 2019

"A bailarina" - Poema de Cecília Meireles


Edgar Degas, The Dancing Class, 1872



A bailarina 


Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
mas inclina o corpo para cá e para lá.

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.


Cecília Meireles

(Ou Isto ou Aquilo, Ed. Nova Fronteira)



Thomas Eakins (1844–1916), The Dancing Lesson, 1878,
 Metropolitan Museum of Art, New York



“Quando perdemos o direito de ser diferentes perdemos o privilégio de ser livres.”

Charles Evans Hughes,
(1862-1948)


sábado, 2 de fevereiro de 2019

"Cenário" - Poema de Cecília Meireles





Cenário


Passei por essas plácidas colinas
e vi das nuvens, silencioso, o gado
pascer nas solidões esmeraldinas.

Largos rios de corpo sossegado
dormiam sobre a tarde, imensamente,
— e eram sonhos sem fim, de cada lado.

Entre nuvens, colinas e torrente,
uma angústia de amor estremecia
a deserta amplidão na minha frente.

Que vento, que cavalo, que bravia
saudade me arrastava a esse deserto,
me obrigava a adorar o que sofria?

Passei por entre as grotas negras, perto
dos arroios fanados, do cascalho
cujo ouro já foi todo descoberto.

As mesmas salas deram-me agasalho
onde a face brilhou de homens antigos,
iluminada por aflito orvalho.

De coração votado a iguais perigos
vivendo as mesmas dores e esperanças,
a voz ouvi de amigos e inimigos

Vencendo o tempo, fértil em mudanças,
conversei com doçura as mesmas fontes,
e vi serem comuns nossas lembranças.

Da brenha tenebrosa aos curvos montes,
do quebrado almocafre aos anjos de ouro
que o céu sustêm nos longos horizontes,

tudo me fala e entende do tesouro
arrancado a estas Minas enganosas,
com sangue sobre a espada, a cruz e o louro.

Tudo me fala e entendo: escuto as rosas
e os girassóis destes jardins, que um dia
foram terras e areias dolorosas,

por onde o passo da ambição rugia;
por onde se arrastava, esquartejado,
o mártir sem direito de agonia.

Escuto os alicerces que o passado
tingiu de incêndio: a voz dessas ruínas
de muros de ouro em fogo evaporado.

Altas capelas cantam-me divinas
fábulas. Torres, santos e cruzeiros
apontam-me altitudes e neblinas.

Ó pontes sobre os córregos! ó vasta
desolação de ermas, estéreis serras
que o sol frequenta e a ventania gasta!

Armado pó que finge eternidade,
lavra imagens de santos e profetas
cuja voz silenciosa nos persuade.

E recompunha as coisas incompletas:
figuras inocentes, vis, atrozes,
vigários, coronéis, ministros, poetas.

Retrocedem os tempos tão velozes
que ultramarinos árcades pastores
falam de Ninfas e Metamorfoses.

E percebo os suspiros dos amores
quando por esses prados florescentes
se ergueram duros punhos agressores.

Aqui tiniram ferros de correntes;
pisaram por ali tristes cavalos.
E enamorados olhos refulgentes

— parado o coração por escutá-los
prantearam nesse pânico de auroras
densas de brumas e gementes galos.

Isabéis, Dorotéias, Heliodoras,
ao longo desses vales, desses rios,
viram as suas mais douradas horas

em vasto furacão de desvarios
vacilar como em caules de altas velas
cálida luz de trêmulos pavios.

Minha sorte se inclina junto àquelas
vagas sombras da triste madrugada,
fluidos perfis de donas e donzelas.

Tudo em redor é tanta coisa e é nada:
Nise, Anarda, Marília… — quem procuro?
Quem responde a essa póstuma chamada?

Que mensageiro chega, humilde e obscuro?
Que cartas se abrem? Quem reza ou pragueja?
Quem foge? Entre que sombras me aventuro?

Quem soube cada santo em cada igreja?
A memória é também pálida e morta
sobre a qual nosso amor saudoso adeja.

O passado não abre a sua porta
e não pode entender a nossa pena.
Mas, nos campos sem fim que o sonho corta,

vejo uma forma no ar subir serena:
vaga forma, do tempo desprendida.
É a mão do Alferes, que de longe acena.

Eloquência da simples despedida:
“Adeus! que trabalhar vou para todos!…”
(Esse adeus estremece a minha vida.)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

"A Amiga deixada" - Poema de Cecília Meireles


Francis Cadell, Afternoon, 1913



A Amiga deixada


Antiga cantiga
da amiga
deixada.

Musgo da piscina,
de uma água tão fina,
sobre a qual se inclina
a lua exilada.

Antiga
cantiga
da amiga
chamada.

Chegara tão perto!
Mas tinha, decerto,
seu rosto encoberto...
Cantava — mais nada.

Antiga
cantiga
da amiga
chegada.

Pérola caída
na praia da vida:
primeiro, perdida
e depois — quebrada.

Antiga
cantiga
da amiga
calada.

Partiu como vinha,
leve, alta, sozinha,
— giro de andorinha
na mão da alvorada.

Antiga
cantiga
da amiga
deixada.


Cecília Meireles,
in 'Vaga Música'


Francis Cadell, Selfportrait, 1914


"A pintura não é mais que uma ideia de coisas incorporais."



quarta-feira, 2 de maio de 2018

"Hoje desaprendo o que tinha aprendido até hoje" - Poema de Cecília Meireles


Kees van Dongen, The Sphinx, 1920, oil on canvas, 146 x 113 cm,


Hoje desaprendo o que tinha aprendido até hoje


Hoje desaprendo o que tinha aprendido até hoje
e que amanhã recomeçarei a aprender.
Todos os dias desfaleço e desfaço-me em cinza efêmera:
todos os dias reconstruo minhas edificações, em sonho eternas.
Esta frágil escola que somos, levanto-a com paciência
dos alicerces às torres, sabendo que é trabalho sem termo.

E do alto avisto os que folgam e assaltam, donos de riso e pedras.
Cada um de nós tem sua verdade, pela qual deve morrer.

De um lugar que não se alcança, e que é, no entanto, claro,
minha verdade, sem troca, sem equivalência nem desengano
permanece constante, obrigatória, livre:
enquanto aprendo, desaprendo e torno a reaprender. 


Cecília Meireles, no livro "Cecília de bolso"

quarta-feira, 7 de junho de 2017

"Canção Póstuma" - Poema de Cecília Meireles


Albert Chevallier Tayler (1862-1925),  Not Lost but Gone Before, 1886



Canção Póstuma 


Fiz uma canção para dar-te; 
porém tu já estavas morrendo. 
A Morte é um poderoso vento. 
E é um suspiro tão tímido, a Arte... 

É um suspiro tímido e breve 
como o da respiração diária. 
Choro de pomba. E a Morte é uma águia 
cujo grito ninguém descreve. 

Vim cantar-te a canção do mundo, 
mas estás de ouvidos fechados 
para os meus lábios inexatos, 
— atento a um canto mais profundo. 

E estou como alguém que chegasse 
ao centro do mar, comparando 
aquele universo de pranto 
com a lágrima da sua face. 

E agora fecho grandes portas 
sobre a canção que chegou tarde. 
E sofro sem saber de que Arte 
se ocupam as pessoas mortas. 

Por isso é tão desesperada 
a pequena, humana cantiga. 
Talvez dure mais do que a vida. 
Mas à Morte não diz mais nada. 


in 'Retrato Natural'



sábado, 27 de maio de 2017

"A velhice pede desculpas" - Poema de Cecília Meireles



Abbott Fuller Graves, Yankee Peddler



A velhice pede desculpas


Tão velho estou como árvore no inverno, 
vulcão sufocado, pássaro sonolento. 
Tão velho estou, de pálpebras baixas, 
acostumado apenas ao som das músicas, 
à forma das letras. 

Fere-me a luz das lâmpadas, o grito frenético 
dos provisórios dias do mundo: 
Mas há um sol eterno, eterno e brando 
e uma voz que não me canso, muito longe, de ouvir. 

Desculpai-me esta face, que se fez resignada: 
já não é a minha, mas a do tempo, 
com seus muitos episódios. 

Desculpai-me não ser bem eu: 
mas um fantasma de tudo. 
Recebereis em mim muitos mil anos, é certo, 
com suas sombras, porém, suas intermináveis sombras. 

Desculpai-me viver ainda: 
que os destroços, mesmo os da maior glória, 
são na verdade só destroços, destroços. 


in 'Poemas (1958)'


terça-feira, 15 de novembro de 2016

"Da Solidão" - Poema de Cecília Meireles


William Anderson Coffin (1855–1925), Central Park and the Plaza



Da Solidão


Estarei só. Não por separada, não por evadida.
Pela natureza de ser só.

No entanto, a multidão tem sua música,
seu ritmo, seu calor,
e deve ser uma felicidade, às vezes,
ser na multidão o que o peixe é no oceano.
Ah! mas quem sabe das solidões que haverá nessas águas enormes!

Estarei só. Recordarei essas cidades, esses tempos.
Recordarei esses rostos. Pode ser que recorde
alguma palavra.
Nada perturbou o meu estar só. Por vezes, com o rosto nas mãos,
pode ser que sentisse como os desertos amontoavam suas areias
entre meu pensamento e o horizonte.
Mas o deserto tem sua música,
seu ritmo, seu calor.

Era uma solidão que outrora se levava nos dedos,
como a chave do silêncio. Uma solidão de infância
sobre a qual se podia brincar,
como sobre um tapete.
Uma solidão que se podia ouvir, como quem olha para as árvores,
onde há vento.
Uma solidão que se podia ver, provar, sentir,
pensar, sofrer, amar, 
uma solidão como um corpo, fechado sobre a noção que temos de nós:
como a noção que temos de nós.

E andava, e sorria, cumprimentava e fazia discursos,
dava autógrafos, abria a janela, conhecia gavetas,
chaves, endereços, comprava, lia,
recordava, sonhava,
às vezes pensava – Solidão – e logo seguia,
tinha até dinheiro comigo, tinha palavras, também,
que escolhia, dava, usava, recusava...

Solidão – dizia: fechava a tarde de mil portas,
andava por essas fortalezas da noite,
essas escadas, essas plataformas, essas pedras...
e deitava-me sobre o mar, sobre as florestas,
deitava-me assim – aldeias? cidades?
O sono é um límpido deserto – deitava-me nos ares,
onde quer que estivesse deitada.

Deitava-me nessas asas. Ia para outras solidões.

Se me chamares, responderei, mas serei solidão.
Serei solidão, se me esqueceres ou lembrares.
Qualquer coisa que sintas por mim, eu te retribuirei:
como o eco.
Mas és tu que vens e voltas:
a tua solidão e a minha solidão.


in Poesia Completa



Elvis Presley - Are You Lonesome Tonight



"O amor é um modo de viver e de sentir. É um ponto de vista um pouco mais elevado, um pouco mais largo; nele descobrimos o infinito e horizontes sem limites."



domingo, 16 de outubro de 2016

"Não queiras ser" - Poema de Cecília Meireles


Florine Stettheimer (American, 1871-1944), Self- Portrait with Paradise Birds



Não queiras ser


Não queiras ser. 
Não ambiciones. 
Não marques limites ao teu caminho. 
A Eternidade é muito longe. 
E dentro dele tu te moves, eterno. 
Sê o que vem e o que vai. 
Sem forma. 
Sem termo. 
Como uma grande luz difusa. 
Filha de nenhum sol.


In Cânticos, 1982 



 
Florine Stettheimer, Heat, c.1919, Brooklyn Museum



"O prazer dos grandes homens consiste em fazer os outros felizes." 




Florine Stettheimer, Picnic at Bedford Hills, 1918



"Claro que te farei mal. Claro que me farás mal. Claro que podemos, mas essa é a condição da existência. Receber a Primavera significa correr os riscos do Inverno. Se desistir agora será correr o risco do desaparecimento. Amo-te."


- parte de uma carta escrita a Natalie Paley citada no livro "Sept lettres à Natalie Paley (1942 – 1943)"


terça-feira, 4 de outubro de 2016

"Até o Fim" - Poema de Walmir Ayala


Petrus van Schendel (1806 - 1870), Market by candlelight, 1869



Até o fim


Até o fim com esta garganta
e estes olhos
líquidos, até o fim
com estas mãos
trémulas.

Até o fim com estes pés exaustos
e estes lábios costurados
ao pé da noite. Até o fim
sem dizer nada.

Até o fim estes canais premindo
o sangue.
Até o fim o obrigatório oxigénio
sobrevivência
no abstrato
difícil ar.

Até o fim a tinta ilesa do amor
na alma,
até que quebrem as epidermes
desta mentira,
e o fim prossiga
até o fim. 


 in ‘Antologia Poética’



Petrus van SchendelFish Seller, Evening Market, 1843


E minha alma, sem luz nem tenda,
passa errante, na noite má,
à procura de quem me entenda
e de quem me consolará…




quinta-feira, 11 de agosto de 2016

"De longe te hei de amar" - Poema de Cecília Meireles


Samuel Luke Fildes (1843-1927), The Love Letter



De longe te hei de amar


De longe te hei de amar 
- da tranquila distância 
em que o amor é saudade 
e o desejo, constância. 

Do divino lugar 
onde o bem da existência 
é ser eternidade 
e parecer ausência. 

Quem precisa explicar 
o momento e a fragrância 
da Rosa, que persuade 
sem nenhuma arrogância? 

E, no fundo do mar, 
a Estrela, sem violência, 
cumpre a sua verdade, 
alheia à transparência. 


Cecília Meireles, in 'Canções' 


terça-feira, 28 de junho de 2016

"Inscrição" - Poema de Cecília Meireles


Sophie Gengembre Anderson (1823-1903), Natural Princess, 1881




Inscrição


Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar. 
Por que havemos de ser unicamente humanos, 
limitados em chorar?

Não encontro caminhos
 fáceis de andar.
 Meu rosto vário desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e de ar

E por isso levito.
É bom deixar
um pouco de ternura e encanto indiferente
de herança, em cada lugar.

Rastro de flor e estrela,
Nuvem e mar.
Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido:
A sombra é que vai devagar.



In Mar Absoluto e Outros Poemas (1945)



Sophie Gengembre Anderson (1823-1903), The turtle dove



"A bondade é o humano que toca o divino."




terça-feira, 21 de junho de 2016

"Romanceiro da Inconfidência" - Poema de Cecília Meireles


Middleton Alexander Jameson (Scottish, 1851-1919), At the Piano (1877). Oil on canvas.



Romanceiro da Inconfidência 

(trecho)


Não posso mover meus passos
Por esse atroz labirinto
De esquecimento e cegueira
Em que amores e ódios vão:
- pois sinto bater os sinos,
percebo o roçar das rezas,
vejo o arrepio da morte,
à voz da condenação;
- avisto a negra masmorra
e a sombra do carcereiro
que transita sobre angústias,
com chaves no coração;
- descubro as altas madeiras
do excessivo cadafalso
e, por muros e janelas,
o pasmo da multidão.

Batem patas de cavalos.
Suam soldados imóveis.
Na frente dos oratórios,
que vale mais a oração?
Vale a voz do Brigadeiro
sobre o povo e sobre a tropa,
louvando a augusta Rainha,
– já louca e fora do trono –
na sua Proclamação.

Ó meio-dia confuso,
ó vinte-e-um de abril sinistro,
que intrigas de ouro e de sonho
houve em tua formação?
Quem condena, julga e pune?
Quem é culpado e inocente?
Na mesma cova do tempo
Cai o castigo e o perdão.
Morre a tinta das sentenças
e o sangue dos enforcados …
- liras, espadas e cruzes
pura cinza agora são.
Na mesma cova, as palavras,
e o secreto pensamento,
as coroas e os machados,
mentiras e verdade estão.

Aqui, além, pelo mundo,
ossos, nomes, letras, poeira…
Onde, os rostos? onde, as almas?
Nem os herdeiros recordam
rastro nenhum pelo chão.

Ó grandes muros sem eco,
presídios de sal e treva
onde os homens padeceram
sua vasta solidão…

Não choraremos o que houve,
nem os que chorar queremos:
contra rocas de ignorância
rebenta nossa aflição.

Choraremos esse mistério,
esse esquema sobre-humano,
a força, o jogo, o acidente
da indizível conjunção
que ordena vidas e mundos
em pólos inexoráveis
de ruína e de exaltação.

Ó silenciosas vertentes
por onde se precipitam
inexplicáveis torrentes,
por eterna escuridão!




terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Canção a caminho do céu" - Poema de Cecília Meireles


Pierre Carrier-Belleuse (French, 1851-1932), Ballerina. Pastel on canvas.



Canção a caminho do céu


Foram montanhas? Foram mares?
foram os números...?— não sei.
Por muitas coisas singulares,
não te encontrei.

E te esperava, e te chamava,
e entre os caminhos me perdi.
Foi nuvem negra? Maré brava?
Era por ti.

As mãos que trago, as mãos são estas.
Elas sozinhas te dirão
se vem de mortes ou de festas
o meu coração.

Tal como sou, não te convido
a ires para onde eu for.

Tudo que tenho é haver sofrido
pelo meu sonho, alto e perdido,
e o encantamento arrependido
do meu amor.




sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

"Gargalhada" - Poema de Cecília Meireles

 
Giacomo Balla, Pessimism and Optimism, 1923
 
 

Gargalhada


Homem vulgar! Homem de coração mesquinho!
eu te quero ensinar a arte sublime de rir.
Dobra essa orelha grosseira, e escuta
o ritmo e o som da minha gargalhada:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Não vês?
É preciso jogar por escadas de mármore baixelas de ouro.
Rebentar colares, partir espelhos, quebrar cristais,
vergar a lâmina das espadas e despedaçar estátuas,
destruir as lâmpadas, abater cúpulas,
e atirar para longe os pandeiros e as liras...

O riso magnífico é um trecho dessa música desvairada.

Mas é preciso ter baixelas de ouro,
compreendes?
- e colares, e espelhos, e espadas e estátuas.
E as lâmpadas. Deus do céu!
E os pandeiros ágeis e as liras sonoras e trémulas...

Escuta bem:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Só de três lugares nasceu até hoje esta música heróica:
do céu que venta,
do mar que dança,
e de mim. 


Cecília Meireles
In Viagem, 1939 


quarta-feira, 1 de julho de 2015

"Os Homens Gloriosos" - Poema de Cecília Meireles


Os Homens Gloriosos


 Sentei-me sem perguntas à beira da terra,
e ouvi narrarem-se casualmente os que passavam.
Tenho a garganta amarga e os olhos doloridos:
deixai-me esquecer o tempo,
inclinar nas mãos a testa desencantada,
e de mim mesma desaparecer,
— que o clamor dos homens gloriosos
cortou-me o coração de lado a lado.

Pois era um clamor de espadas bravias,
de espadas enlouquecidas e sem relâmpagos,
ah, sem relâmpagos...
pegajosas de lodo e sangue denso.

Como ficaram meus dias, e as flores claras que pensava!
Nuvens brandas, construindo mundos,
como se apagaram de repente!

Ah, o clamor dos homens gloriosos
atravessando ebriamente os mapas!

Antes o murmúrio da dor, esse murmúrio triste e simples
de lágrima interminável, com sua centelha ardente e eterna.

Senhor da Vida, leva-me para longe!
Quero retroceder aos aléns de mim mesma!
Converter-me em animal tranquilo,
em planta incomunicável,
em pedra sem respiração.

Quebra-me no giro dos ventos e das águas!
Reduze-me ao pó que fui!
Reduze a pó minha memória!

Reduze a pó
a memória dos homens, escutada e vivida...


Cecília Meireles, in 'Mar Absoluto'

sábado, 27 de junho de 2015

"Guerra" - Poema de Cecília Meireles


El Aquelarre ou El Gran Cabrón ("O grande Bode") (1820-1823), pintura mural a óleo deslocada para tela, 
140 x 438 cm, Museu do Prado, uma das pinturas negras de Goya, visão fantástica e horripilante.




Guerra

Tanto é o sangue
que os rios desistem de seu ritmo,
e o oceano delira
e rejeita as espumas vermelhas.

Tanto é o sangue
que até a lua se levanta horrível,
e erra nos lugares serenos,
sonâmbula de auréolas rubras,
com o fogo do inferno em suas madeixas.

Tanta é a morte
que nem os rostos se conhecem, lado a lado,
e os pedaços de corpo estão por ali como tábuas sem uso.

Oh, os dedos com alianças perdidos na lama...
Os olhos que já não pestanejam com a poeira...
As bocas de recados perdidos...
O coração dado aos vermes, dentro dos densos uniformes...

Tanta é a morte
que só as almas formariam colunas,
as almas desprendidas... — e alcançariam as estrelas.

E as máquinas de entranhas abertas,
e os cadáveres ainda armados,
e a terra com suas flores ardendo,
e os rios espavoridos como tigres, com suas máculas,
e este mar desvairado de incêndios e náufragos,
e a lua alucinada de seu testemunho,
e nós e vós, imunes,
chorando, apenas, sobre fotografias,
— tudo é um natural armar e desarmar de andaimes
entre tempos vagarosos,
sonhando arquiteturas.


Cecília Meireles, in 'Mar Absoluto' 

sábado, 13 de junho de 2015

"Apresentação" - poema de Cecília Meireles



Alfred Stevens (Belgian painter, 1823 – 1906), Jeune femme à l'ombrelle rouge au bord de la mer, c.1885. Oil on canvas



Apresentação


Aqui está minha vida — esta areia tão clara 
com desenhos de andar dedicados ao vento. 

Aqui está minha voz — esta concha vazia, 
sombra de som curtindo o seu próprio lamento. 

Aqui está minha dor — este coral quebrado, 
sobrevivendo ao seu patético momento. 

Aqui está minha herança — este mar solitário, 
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento. 



Cecília Meireles, in 'Retrato Natural', 1949




Cecília Meireles desembarcando em Lisboa em outubro de 1934. 
Desenho Bico de pena de seu primeiro marido Fernando Correia Dias.



“- Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança,  achava essa ilusão maravilhosa, e sentia-me completamente feliz. (...)”(daqui)

(Cecília Meireles)


Cecília Meireles


Cecília Benevides de Carvalho Meireles (Rio de Janeiro, 7 de novembro de 1901 — Rio de Janeiro, 9 de novembro de 1964) foi uma poetisa, pintora, professora e jornalista brasileira. É considerada uma das vozes líricas mais importantes da  literatura em língua portuguesa.



“A vida só é possível reinventada”

(Cecília Meireles)


domingo, 8 de junho de 2014

"Discurso"... Poema de Cecília Meireles


Walter Westley Russell, Prunella


Discurso


E aqui estou, cantando.

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.

Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando.

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?

Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?


 Cecília Meireles 




Walter Westley Russell, Marion


"Quando procuramos descobrir o melhor nos outros, de algum modo mostramos o melhor de nós mesmos."


(1921-1994),
Escritor e professor americano.



Walter Westley Russell, The Flower Girl, 1938



"O pessimista queixa-se do vento, o otimista espera que mude, o realista ajusta as velas."


"The pessimist complains about the wind; the optimist expects it to change; the realist adjusts the sails."

William Arthur Ward citado em Mind Over Golf: Play Your Best by Thinking Smart‎
 Página 56, de Richard H. Coop, Bill Fields
 Publicado por Macmillan Pub. Co., 1993



Walter Westley Russell, Amelia, 1937



"As oportunidades são como o nascer do sol: se você esperar demais, vai perdê-las."


"Opportunities are like sunrises. If you wait too long, you miss them."

 William Arthur Ward, citado em "In Search of the Fourth Freedom" 
 Página 16, de Howard S. Brembeck 
 Publicado por University of Notre Dame Press, 2000



Walter Westley Russell, Girl in a Muslin Dress



"Liderança é baseada em imaginação; não em dominação, em cooperação; não em intimidação."

"Leadership is based on inspiration, not domination; on cooperation, not intimidation."

 William Arthur Ward citado em "Inspirit Revolution‎" 
 Página 63, de Dave Witmer 
 Publicado por Xulon Press, 2006



Walter Westley Russell, Lydia


segunda-feira, 2 de junho de 2014

"Morrer de Indiferença"... Poema de Cecília Meireles


Walter Westley Russel, O vestido azul, 1911



Como se Morre de Velhice 


Como se morre de velhice 
ou de acidente ou de doença, 
morro, Senhor, de indiferença. 

Da indiferença deste mundo 
onde o que se sente e se pensa 
não tem eco, na ausência imensa. 

Na ausência, areia movediça 
onde se escreve igual sentença 
para o que é vencido e o que vença. 

Salva-me, Senhor, do horizonte 
sem estímulo ou recompensa 
onde o amor equivale à ofensa. 

De boca amarga e de alma triste 
sinto a minha própria presença 
num céu de loucura suspensa. 

(Já não se morre de velhice 
nem de acidente nem de doença, 
mas, Senhor, só de indiferença.) 


Cecília Meireles, in 'Poemas (1957)'




Walter Westley Russel, Carting Sand, 1910




"O maior pecado para com os nossos semelhantes, não é odiá-los mas sim tratá-los com indiferença; é a essência da desumanidade."


George Bernard Shaw, O Discípulo do Diabo




Walter Westley Russel, The Farmyard, 1934



"Descartes já o tinha percebido com uma admirável clareza: a liberdade da indiferença é o grau mais baixo da liberdade."


Gabriel Marcel, O Mistério do Ser




Walter Westley Russel, High Tide, Blakeney, 1938



"A filosofia deveria saber que a indiferença é uma coisa militante.


Stephen CraneImpressões de Londres



domingo, 1 de junho de 2014

"Retrato de Mulher Triste" - Poema de Cecília Meireles


Walter Westley Russell, Isabella



Retrato de Mulher Triste 


Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.” 


 Cecília Meireles



Walter Westley Russell, The Amber Beads



"A arte existe no instante em que o artista se afasta da natureza."

(Jean Cocteau)



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