Mostrar mensagens com a etiqueta Cesário Verde. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cesário Verde. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

"Arrojos" - Poema de Cesário Verde


Émile Eisman Semenowsky (1857-1911), Portrait of a Spanish Woman



Arrojos


Se a minha amada um longo olhar me desse 
Dos seus olhos que ferem como espadas, 
Eu domaria o mar que se enfurece 
E escalaria as nuvens rendilhadas. 

Se ela deixasse, extático e suspenso 
Tomar-lhe as mãos «mignonnes» e aquecê-las, 
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso 
Apagaria o lume das estrelas. 

Se aquela que amo mais que a luz do dia, 
Me aniquilasse os males taciturnos, 
O brilho dos meus olhos venceria 
O clarão dos relâmpagos noturnos. 

Se ela quisesse amar, no azul do espaço, 
Casando as suas penas com as minhas, 
Eu desfaria o Sol como desfaço 
As bolas de sabão das criancinhas. 

Se a Laura dos meus loucos desvarios 
Fosse menos soberba e menos fria, 
Eu pararia o curso aos grandes rios 
E a terra sob os pés abalaria. 

Se aquela por quem já não tenho risos 
Me concedesse apenas dois abraços, 
Eu subiria aos róseos paraísos 
E a Lua afogaria nos meus braços. 

Se ela ouvisse os meus cantos moribundos 
E os lamentos das cítaras estranhas, 
Eu ergueria os vales mais profundos 
E abateria as sólidas montanhas. 

E se aquela visão da fantasia 
Me estreitasse ao peito alvo como arminho, 
Eu nunca, nunca mais me sentaria 
As mesas espelhentas do Martinho. 


in 'O Livro de Cesário Verde'


segunda-feira, 3 de abril de 2017

"Frígida" - Poema de Cesário Verde





Frígida

Balzac é meu rival, minha senhora inglesa! 
Eu quero-a porque odeio as carnações redondas! 
Mas ele eternizou-lhe a singular beleza 
E eu turbo-me ao deter seus olhos cor das ondas. 

II 
Admiro-a. A sua longa e plácida estatura 
Expõe a majestade austera dos invernos. 
Não cora no seu todo a tímida candura; 
Dançam a paz dos céus e o assombro dos infernos. 

III 
Eu vejo-a caminhar, fleumática, irritante, 
Numa das mãos franzindo um lençol de cambraia!... 
Ninguém me prende assim, fúnebre, extravagante, 
Quando arregaça e ondula a preguiçosa saia! 

IV 
Ouso esperar, talvez, que o seu amor me acoite, 
Mas nunca a fitarei duma maneira franca; 
Traz o esplendor do Dia e a palidez da Noite, 
É, como o Sol, dourada, e, como a Lua, branca! 

Pudesse-me eu prostar, num meditado impulso, 
Ó gélida mulher bizarramente estranha, 
E trémulo depor os lábios no seu pulso, 
Entre a macia luva e o punho de bretanha!... 

VI 
Cintila ao seu rosto a lucidez das jóias. 
Ao encarar consigo a fantasia pasma; 
Pausadamente lembra o silvo das jibóias 
E a marcha demorada e muda dum fantasma. 

VII 
Metálica visão que Charles Baudelaire 
Sonhou e pressentiu nos seus delírios mornos, 
Permita que eu lhe adule a distinção que fere, 
As curvas da magreza e o lustre dos adornos! 

VIII 
Desliza como um astro, um astro que declina, 
Tão descansada e firme é que me desvaria, 
E tem a lentidão duma corveta fina 
Que nobremente vá num mar de calmaria. 

IX 
Não me imagine um doido. Eu vivo como um monge, 
No bosque das ficções, ó grande flor do Norte! 
E, ao persegui-la, penso acompanhar de longe 
O sossegado espectro angélico da Morte! 

O seu vagar oculta uma elasticidade 
Que deve dar um gosto amargo e deleitoso, 
E a sua glacial impassibilidade 
Exalta o meu desejo e irrita o meu nervoso. 

XI 
Porém, não arderei aos seus contactos frios, 
E não me enroscará nos serpentinos braços: 
Receio suportar febrões e calafrios; 
Adoro no seu corpo os movimentos lassos. 

XII 
E se uma vez me abrisse o colo transparente, 
E me osculasse, enfim, flexível e submissa, 
Eu julgara ouvir alguém, agudamente, 
Nas trevas, a cortar pedaços de cortiça! 


Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

"Contrariedades" - Poema de Cesário Verde


Balthus, The king of cats, 1935



Contrariedades


Eu hoje estou cruel, frenético, exigente; 
Nem posso tolerar os livros mais bizarros. 
Incrível! Já fumei três maços de cigarros 
Consecutivamente. 

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos: 
Tanta depravação nos usos, nos costumes! 
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes 
E os ângulos agudos. 

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora 
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes; 
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes 
E engoma para fora. 

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas! 
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica. 
Lidando sempre! E deve a conta na botica! 
Mal ganha para sopas... 

O obstáculo estimula, torna-nos perversos; 
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias, 
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias, 
Um folhetim de versos. 

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta 
No fundo da gaveta. O que produz o estudo? 
Mais duma redação, das que elogiam tudo, 
Me tem fechado a porta. 

A crítica segundo o método de Taine 
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa 
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa 
Vale um desdém solene. 

Com raras exceções merece-me o epigrama. 
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo, 
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho 
Diverte-se na lama. 

Eu nunca dediquei poemas às fortunas, 
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas. 
Independente! Só por isso os jornalistas 
Me negam as colunas. 

Receiam que o assinante ingénuo os abandone, 
Se forem publicar tais coisas, tais autores. 
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores 
Deliram por Zaccone. 

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa, 
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie; 
E a mim, não há questão que mais me contrarie 
Do que escrever em prosa. 

A adulação repugna aos sentimentos finos; 
Eu raramente falo aos nossos literatos, 
E apuro-me em lançar originais e exatos, 
Os meus alexandrinos... 

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso! 
Ignora que a asfixia a combustão das brasas, 
Não foge do estendal que lhe humedece as casas, 
E fina-se ao desprezo! 

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova. 
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente, 
Oiço-a cantarolar uma canção plangente 
Duma opereta nova! 

Perfeitamente. Vou findar sem azedume. 
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas, 
Conseguirei reler essas antigas rimas, 
Impressas em volume? 

Nas letras eu conheço um campo de manobras; 
Emprega-se a reclame, a intriga, o anúncio, a blague, 
E esta poesia pede um editor que pague 
Todas as minhas obras 

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha? 
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia? 
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia... 
Que mundo! Coitadinha! 


 in 'O Livro de Cesário Verde'


domingo, 20 de novembro de 2016

"O sentimento dum ocidental" - Poema de Cesário Verde


Jean Béraud, Paris Kiosk, 1880-1884



O sentimento dum ocidental

I

Ave-Maria


Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro onde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

II

Noite fechada

Toca-se às grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O Aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de “dom”!

E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À vista das prisões, da velha Sé, das Cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abisma.

A espaços, iluminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela História eu me aventuro e alargo.

Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções retas, iguais, crescidas;
Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.

Mas, num recinto público e vulgar,
Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico doutrora ascende, num pilar!

E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.

Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quartéis que foram já conventos:
Idade Média! A pé, outras, a passos lentos,
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir às montras dos ourives.

E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas delas são comparsas ou coristas.

E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.

III

Ao gás

E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arrepia os ombros quase nus.

Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!

Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.

Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós de arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

“Dó da miséria!… Compaixão de mim!…
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!

III

Horas mortas


O teto fundo de oxigênio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

Ó nossos filhos! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!…
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.

E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!


Cesário Verde, 1880


No longo poema "O Sentimento dum Ocidental", constituído por quatro partes ( I - AVÉ-MARIAS / II - NOITE FECHADA / III - AO GÁS / IV - HORAS MORTAS), o poeta deambula mais uma vez pela cidade de Lisboa passando pelo cais junto ao Tejo e pelas ruas limítrofes; à medida que vai passeando, anoitece (os subtítulos das quatro partes em que o poema se divide explicitam-no). O poeta descreve o espaço, a gente que passa ou que trabalha, ambientes, e enuncia as suas sensações, as impressões que vai recolhendo (o cheiro a gás, o ar acinzentado das casas envoltas na neblina). Ao longo do poema o sujeito revela, contudo, estar mais voltado para a sua própria interioridade por onde vai "deambulando" também. (Daqui)

terça-feira, 1 de novembro de 2016

"Responso" - Poema de Cesário Verde


Auguste Toulmouche (1829-1890), The lost love



Responso

Num castelo deserto e solitário, 
Toda de preto, às horas silenciosas, 
Envolve-se nas pregas dum sudário 
E chora como as grandes criminosas. 

Pudesse eu ser o lenço de Bruxelas 
Em que ela esconde as lágrimas singelas. 

II 
É loura como as doces escocesas, 
Duma beleza ideal, quase indecisa; 
Circunda-se de luto e de tristezas 
E excede a melancólica Artemisa. 

Fosse eu os seus vestidos afogados 
E havia de escutar-lhe os seu pecados. 

III 
Alta noite, os planetas argentados 
Deslizam um olhar macio e vago 
Nos seus olhos de pranto marejados 
E nas águas mansíssimas do lago. 

Pudesse eu ser a Lua, a Lua terna, 
E faria que a noite fosse eterna. 

IV 
E os abutres e os corvos fazem giros 
De roda das ameias e dos pegos, 
E nas salas ressoam uns suspiros 
Dolentes como as súplicas dos cegos. 

Fosse eu aquelas aves de pilhagem 
E cercara-lhe a fronte, em homenagem. 

E ela vaga nas praias rumorosas, 
Triste como as rainhas destronadas, 
A contemplar as gôndolas airosas, 
Que passam, a giorno iluminadas. 

Pudesse eu ser o rude gondoleiro 
E ali é que fizera o meu cruzeiro. 

VI 
De dia, entre os veludos e entre as sedas, 
Murmurando palavras aflitivas, 
Vagueia nas umbrosas alamedas 
E acarinha, de leve, as sensitivas. 

Fosse eu aquelas árvores frondosas, 
E prendera-lhe as roupas vaporosas. 

VII 
Ou domina, a rezar, no pavimento 
Da capela onde outrora se ouviu missa, 
A música dulcíssima do vento 
E o sussurro do mar, que se espreguiça. 

Pudesse eu ser o mar e os meus desejos 
Eram ir borrifar-lhe os pés, com beijos. 

VIII 
E às horas do crepúsculo saudosas, 
Nos parques com tapetes cultivados, 
Quando ela passa curvam-se amorosas 
As estátuas dos seus antepassados. 

Fosse eu também granito e a minha vida 
Era vê-la a chorar arrependida. 

IX 
No palácio isolado como um monge, 
Erram as velhas almas dos precitos, 
E nas noites de inverno ouvem-se ao longe 
Os lamentos dos náufragos aflitos. 

Pudesse eu ter também uma procela 
E as lentas agonias ao pé dela! 

E às lajes, no silêncio dos mosteiros, 
Ela conta o seu drama negregado, 
E o vasto carmesim dos reposteiros 
Ondula como um mar ensanguentado. 

Fossem aquelas mil tapeçarias 
Nossas mortalhas quentes e sombrias. 

XI 
E assim passa, chorando, as noites belas, 
Sonhando uns tristes sonhos doloridos, 
E a refletir nas góticas janelas 
As estrelas dos céus desconhecidos. 

Pudesse eu ir sonhar também contigo 
E ter as mesmas pedras no jazigo! 

XII 
Mergulha-se em angústias lacrimosas 
Nos ermos dum castelo abandonado, 
E as próximas florestas tenebrosas 
Repercutem um choro amargurado. 

Uníssemos, nós dois, as nossas covas, 
Ó doce castelã das minhas trovas! 


in 'O Livro de Cesário Verde'


quinta-feira, 5 de março de 2015

"Loira" - Poema de Cesário Verde


Théophile Alexandre Steinlen, Il n’y est pas, 1901



Loira


Eu descia o Chiado lentamente 
Parando junto às montras dos livreiros 
Quando passaste irónica e insolente, 
Mal pousando no chão os pés ligeiros. 

O céu nublado ameaçava chuva, 
Saía gente fina de uma igreja; 
Destacavam no traje de viúva 
Teus cabelos de um louro de cerveja. 

E a mim, um desgraçado a quem seduzem 
Comparações estranhas, sem razão, 
Lembrou-me este contraste o que produzem 
Os galões sobre os panos de um caixão. 

Eu buscava uma rima bem intensa 
Para findar uns versos com amor; 
Olhaste-me com cega indiferença 
Através do lorgnon provocador. 

Detinham-se a medir tua elegância 
Os dandies com aprumo e galhardia; 
Segui-te humildemente e a distância, 
Não fosses suspeitar que te seguia. 

E pensava de longe, triste e pobre, 
Desciam pela rua umas varinas 
Como podias conservar-te sobre 
O salto exagerado das botinas. 

E tu, sempre febril, sempre inquieta, 
Havia pela rua uns charcos de água 
Ergueste um pouco a saia sobre a anágua 
De um tecido ligeiro e violeta. 

Adorável! Na ideia de que agora 
A branda anágua a levantasse o vento 
Descobrindo uma curva sedutora, 
Cada vez caminhava mais atento. 

Mas súbito parei, sentindo bem 
Ser loucura seguir-te com empenho, 
A ti que és nobre e rica, que és alguém, 
Eu que de nada valho e nada tenho. 

Correu-me pelo corpo um calafrio, 
E tive para o teu perfil ligeiro 
Este olhar resignado do vadio 
Que fita a exposição de um confeiteiro. 

Vi perder-se na turba que passava 
O teu cabelo de ouro que faz mal; 
Não achei essa rima que buscava, 
Mas compus este quadro natural. 


in 'O Livro de Cesário Verde' 



Sarah Brightman


"Quem ama a vida é amado por ela" 


quinta-feira, 9 de maio de 2013

"Humilhações" - Poema de Cesário Verde


Balthus, Portrait de Femme en Robe Bleue, 1935



Humilhações


Esta aborrece quem é pobre. Eu, quase Jó, 
Aceito os seus desdéns, seus ódios idolatro-os; 
E espero-a nos salões dos principais teatros, 
Todas as noites, ignorado e só. 

Lá cansa-me o ranger da seda, a orquestra, o gás; 
As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos, 
E enquanto vão passando as cortesãs e os brilhos, 
Eu analiso as peças no cartaz. 

Na representação dum drama de Feuillet, 
Eu aguardava, junto à porta, na penumbra, 
Quando a mulher nervosa e vã que me deslumbra 
Saltou soberba o estribo do coupé. 

Como ela marcha! Lembra um magnetizador. 
Roçavam no veludo as guarnições das rendas; 
E, muito embora tu, burguês, me não entendas, 
Fiquei batendo os dentes de terror. 

Sim! Porque não podia abandoná-la em paz! 
Ó minha pobre bolsa, amortalhou-se a ideia 
De vê-la aproximar, sentado na plateia, 
De tê-la num binóculo mordaz! 

Eu ocultava o fraque usado nos botões; 
Cada contratador dizia em voz rouquenha: 
— Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha? 
E ouviam-se cá fora as ovações. 

Que desvanecimento! A pérola do Tom! 
As outras ao pé dela imitam de bonecas; 
Têm menos melodia as harpas e as rabecas, 
Nos grandes espetáculos do Som. 

Ao mesmo tempo, eu não deixava de a abranger; 
Via-a subir, direita, a larga escadaria 
E entrar no camarote. Antes estimaria 
Que o chão se abrisse para me abater. 

Saí: mas ao sair senti-me atropelar. 
Era um municipal sobre um cavalo. A guarda 
Espanca o povo. Irei-me; e eu, que detesto a farda, 
Cresci com raiva contra o militar. 

De súbito, fanhosa, infecta, rota, má, 
Pôs-se na minha frente uma velhinha suja, 
E disse-me, piscando os olhos de coruja: 
— Meu bom senhor! Dá-me um cigarro? Dá?... 


Cesário Verde, 
in 'O Livro de Cesário Verde'



Balthus (Francês, 1908-2001), Self portrait, 1940



Balthus, Le passage du Commerce-Saint-André, 1952-1954 


Balthus, The street, 1933


Balthus, The white skirt, 1937

quinta-feira, 11 de abril de 2013

"Ironias do Desgosto" - Poema de Cesário Verde


Octavia Walton Le Vert, painted in 1833 by Thomas Sully.



Ironias do Desgosto


Onde é que te nasceu - dizia-me ela às vezes - 
O horror calado e triste às coisas sepulcrais? 
Por que é que não possuis a verve dos franceses 
E aspiras, em silêncio, os frascos dos meus sais? 

Por que é que tens no olhar, moroso e persistente, 
As sombras dum jazigo e as fundas abstrações, 
E abrigas tanto fel no peito, que não sente 
O abalo feminil das minhas expansões? 

Há quem te julgue um velho. O teu sorriso é falso; 
Mas quando tentas rir parece então, meu bem, 
Que estão edificando um negro cadafalso 
E ou vai alguém morrer ou vão matar alguém! 

Eu vim - não sabes tu? - para gozar em maio, 
No campo, a quietação banhada de prazer! 
Não vês, ó descorado, as vestes com que saio, 
E os júbilos, que abril acaba de trazer? 

Não vês como a campina é toda embalsamada 
E como nos alegra em cada nova flor? 
Então por que é que tens na fronte consternada
Um não-sei-quê tocante e enternecedor? 

Eu só lhe respondia: — Escuta-me. Conforme 
Tu vibras os cristais da boca musical, 
Vai-nos minando o tempo, o tempo - o cancro enorme 
Que te há de corromper o corpo de vestal. 

E eu calmamente sei, na dor que me amortalha, 
Que a tua cabecinha ornada à Rabagas, 
A pouco e pouco há de ir tornando-se grisalha 
E em breve ao quente sol e ao gás alvejará! 

E eu que daria um rei por cada teu suspiro, 
Eu que amo a mocidade e as modas fúteis, vãs, 
Eu morro de pesar, talvez, porque prefiro 
O teu cabelo escuro às veneráveis cãs! 


Cesário Verde, 
in 'O Livro de Cesário Verde'


sábado, 2 de março de 2013

"Flores Velhas" - Poema de Cesário Verde


Robert Hope (Scottish 1869-1936), Idle Hours



Flores Velhas


Fui ontem visitar o jardinzinho agreste, 
Aonde tanta vez a lua nos beijou, 
E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste, 
Soberba como um sol, serena como um voo. 

Em tudo cintilava o límpido poema 
Com ósculos rimado às luzes dos planetas: 
A abelha inda zumbia em torno da alfazema; 
E ondulava o matiz das leves borboletas. 

Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem, 
A imagem que inspirava os castos madrigais; 
E as vibrações, o rio, os astros, a paisagem, 
Traziam-me à memória idílios imortais. 

E nosso bom romance escrito num desterro, 
Com beijos sem ruído em noites sem luar, 
Fizeram-mo reler, mais tristes que um enterro, 
Os goivos, a baunilha e as rosas-de-toucar. 

Mas tu agora nunca, ah! Nunca mais te sentas 
Nos bancos de tijolo em musgo atapetados, 
E eu não te beijarei, às horas sonolentas, 
Os dedos de marfim, polidos e delgados... 

Eu, por não ter sabido amar os movimentos 
Da estrofe mais ideal das harmonias mudas, 
Eu sinto as decepções e os grandes desalentos 
E tenho um riso meu como o sorrir de Judas. 

E tudo enfim passou, passou como uma pena 
Que o mar leva no dorso exposto aos vendavais, 
E aquela doce vida, aquela vida amena, 
Ah! Nunca mais virá, meu lírio, nunca mais! 

Ó minha boa amiga, ó minha meiga amante! 
Quando ontem eu pisei, bem magro e bem curvado, 
A areia em que rangia a saia roçagante, 
Que foi na minha vida o céu aurirrosado, 

Diziam-me que tu, no flórido passado, 
Detinhas sobre mim, ao pé daquelas rosas, 
Aquele teu olhar moroso e delicado, 
Que fala de langor e de emoções mimosas; 

E, ó pálida Clarisse, ó alma ardente e pura, 
Que não me desgostou nem uma vez sequer, 
Eu não sabia haurir do cálix da ventura 
O néctar que nos vem dos mimos da mulher. 

Falou-me tudo, tudo, em tons comovedores, 
Do nosso amor, que uniu as almas de dois entes; 
As falas quase irmãs do vento com as flores 
E a mole exalação das várzeas recendentes. 

Inda pensei ouvir aquelas coisas mansas 
No ninho de afeições criado para ti, 
Por entre o riso claro, e as vozes das crianças, 
E as nuvens que esbocei, e os sonhos que nutri. 

Lembre-me muito, muito, ó símbolo das santas, 
Do tempo em que eu soltava as notas inspiradas, 
E sob aquele céu e sobre aquelas plantas 
Bebemos o elixir das tardes perfumadas. 

Eu tinha tão impresso o cunho da saudade, 
Que as ondas que formei das suas ilusões 
Fizeram-me enganar na minha soledade 
E as asas ir abrindo às minhas impressões. 

Soltei com devoção lembranças inda escravas, 
No espaço construí fantásticos castelos, 
No tanque debrucei-me em que te debruçavas, 
E onde o luar parava os raios amarelos. 

Cuidei até sentir, mais doce que uma prece, 
Suster a minha fé, num véu consolador, 
O teu divino olhar que as pedras amolece, 
E há muito me prendeu nos cárceres do amor. 

Os teus pequenos pés, aqueles pés suaves, 
Julguei-os esconder por entre as minhas mãos, 
E imaginei ouvir ao conversar das aves 
As célicas canções dos anjos teus irmãos. 

E como na minha alma a luz era uma aurora, 
A aragem ao passar parece que me trouxe 
O som da tua voz, metálica, sonora, 
E o teu perfume forte, o teu perfume doce, 

Agonizava o Sol gostosa e lentamente, 
Um sino que tangia, austero e com vagar, 
Vestia de tristeza esta paixão veemente, 
Esta doença enfim, que a morte há de curar. 

E quando me envolveu a noite, noite fria, 
Eu trouxe do jardim duas saudades roxas, 
E vim a meditar em que me cerraria, 
Depois de eu morrer, as pálpebras já frouxas. 

Pois que, minha adorada, eu peço que não creias 
Que eu amo esta existência e não lhe queira um fim; 
Há tempos que não sinto o sangue pelas veias 
E a campa talvez seja afável para mim. 

Portanto, eu, que não cedo às atrações do gozo, 
Sem custo hei-de deixar as mágoas deste mundo, 
E, ó pálida mulher, de longo olhar piedoso, 
Em breve te olharei calado e moribundo. 

Mas quero só fugir das coisas e dos seres, 
Só quero abandonar a vida triste e má 
Na véspera do dia em que também morreres, 
Morreres de pesar, por eu não viver já! 

E não virás, chorosa, aos rústicos tapetes, 
Com lágrimas regar as plantações ruins; 
E esperarão por ti, naqueles alegretes, 
As dálias a chorar nos braços dos jasmins! 


Cesário Verde, 
in 'O Livro de Cesário Verde'



Cesário Verde
Portugal
1855 // 1886
Poeta



Galeria de Robert Hope
Robert Hope, A Quiet Pool, Evening


Robert Hope, A Victorian Debutante, 1922


Robert Hope, A Pageant of the Sea


Robert Hope, Before the Looking Glass


Robert Hope, Glints of  Gold (Miss Dorothy)


Robert Hope, The Golden Apple


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

"Cristalizações" - Poema de Cesário Verde


Martin Johnson Heade, Sunlight and Shadow, The Newbury Marshes, 1871



Cristalizações


Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,
Vibra uma imensa claridade crua.
De cócaras, em linha os calceteiros,
Com lentidão, terrosos e grosseiros,
Calçam de lado a lado a longa rua.

Como as elevações secaram do relento,
E o descoberto Sol abafa e cria!
A frialdade exige o movimento;
E as poças de água, como um chão vidrento,
Reflectem a molhada casaria.

Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
Disseminadas, gritam as peixeiras;
Luzem, aquecem na manhã,
Uns barracões de gente pobrezita
E uns quintalórios velhos, com parreiras.

Não se ouvem aves; nem o choro duma nora!
Tomam por outra parte os viandantes;
E o ferro e a pedra - que união sonora! -
Retinem alto pelo espaço fora,
Com choques rijos, ásperos, cantantes.

Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços,
Cuja coluna nunca se endireita,
Partem penedos. Voam-lhe estilhaços.
Pesam enormemente os grossos maços,
Com que outros batem a calçada feita.

A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
Que espessos forros! Numa das regueiras
Acamam-se as japonas, os coletes;
E eles descalçam com os picaretes
Que ferem lume sobre pederneiras.

E neste rude mês, que não consente as flores,
Fundeiam, como esquadra em fria paz,
As árvores despidas. Sóbrias cores!
Mastros, enxárcias, vergas! Valadores
Atiram terra com as largas pás...

Eu julgo-me no Norte, ao frio - o grande agente!
Carros de mão que chiam carregados,
Conduzem saibro, vagarosamente;
Vê-se a cidade, mercantil, contente:
Madeiras, águas, multidões, telhados!

Negrejam os quintais; enxuga a alvenaria;
Em arco, sem as nuvens flutuantes,
O céu renova a tinta corredia;
E os charcos brilham tanto que eu diria
Ter ante mim lagoas de brilhantes!

E engelhem muito embora, os fracos, os tolhidos,
Eu tudo encontro alegremente exato,
Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
E tangem-me, excitados, sacudidos,
O tato, a vista, o ouvido, o gosto, o olfato!

Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem
De tão lavada e igual temperatura!
Os ares, o caminho, a luz reagem;
Cheira-me a fogo, a sílex, a ferragem;
Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

Mal encarado e negro, um pára enquanto eu passo;
Dois assobiam, altas as marretas
Possantes, grossas, temperadas de aço;
E um gordo, o mestre, com ar ralaço
E manso, tira o nível das valetas.

Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
Que vida tão custosa! Que diabo!
E os cavadores descansam as enxadas,
E cospem nas calosas mãos gretadas,
Para que não lhes escorregue o cabo.

Povo! No pano cru rasgado das camisas
Uma bandeira penso que transluz!
Com ela sofres, bebes, agonizas;
Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!

De escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
Surge um perfil direito que se aguça;
E ar matinal de quem saiu da toca,
Uma figura fina, desemboca,
Toda abafada num casaco à russa.

Donde ela vem! A atriz que tanto cumprimento
E a quem, à noite, na plateia, atraio
Os olhos lisos como polimento!
Com seu rostinho estreito, friorento,
Caminha agora para o seu ensaio.

E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
Como lajões. Os bons trabalhadores!
Os filhos das lezírias, dos montados:
Os das planícies, altos, aprumados;
Os das montanhas, baixos, trepadores!

Mas fina de feições, o queixo hostil, distinto,
Furtiva a tiritar em suas peles,
Espanta-me a atrizita que hoje pinto,
Neste Dezembro enérgico, sucinto,
E nestes sítios suburbanos, reles!

Como animais comuns, que uma picada esquente,
Eles, bovinos, másculos, ossudos,
Encaram-na, sanguínea, brutamente:
E ela vacila, hesita, impaciente
Sobre as botinas de tacões agudos.

Porém, desempenhando o seu papel na peça,
Sem que inda o público a passagem abra,
O demonico arrisca-se, atravessa
Covas, entulhos, lamaçais, depressa,
Com seus pezinhos rápidos, de cabra!


Cesário Verde
(1855-1886)


Martin Johnson Heade, Newburyport Meadows


Martin Johnson Heade, Sudden Showers, Newbury Marshes


Martin Johnson Heade, Singing Beach, Manchester, Massachusetts, 1862


Martin Johnson Heade, Lake George, 1862

quinta-feira, 21 de junho de 2012

"Lágrimas" - Poema de Cesário Verde





Lágrimas


Ela chorava muito e muito, aos cantos, 
Frenética, com gestos desabridos; 
Nos cabelos, em ânsias desprendidos 
Brilhavam como pérolas os prantos. 

Ele, o amante, sereno como os santos, 
Deitado no sofá, pés aquecidos, 
Ao sentir-lhe os soluços consumidos, 
Sorria-se cantando alegres cantos. 

E dizia-lhe então, de olhos enxutos: 
- "Tu pareces nascida da rajada, 
"Tens despeitos raivosos, resolutos: 

"Chora, chora, mulher arrenegada; 
"Lagrimeja por esses aquedutos... 
-"Quero um banho tomar de água salgada." 


Cesário Verde, 
in 'O Livro de Cesário Verde'



Cesário Verde 


José Joaquim Cesário Verde, nascido a 25 de Fevereiro de 1855, morreu muito jovem, a 19 de Julho de 1886. Filho do lavrador e comerciante José Anastácio Verde e de Maria da Piedade dos Santos Verde, Cesário matriculou-se na Universidade de Coimbra em 1873, frequentando por apenas alguns meses o curso de Letras. Ali conheceu Silva Pinto, grande amigo pelo resto da vida. Dividia-se entre a produção de poesias (publicadas em jornais) e as atividades de comerciante, herdadas do pai.
A supremacia exercida pela cidade sobre o campo leva o poeta a tratar estes dois espaços em termos dicotómicos. O contacto com o campo na sua infância determina a visão que dele nos dá e a sua preferência. Ao contrário de outros poetas anteriores, o campo não tem um aspecto idílico, paradisíaco, bucólico, susceptível de devaneio poético, mas sim um espaço real, concreto, autêntico, que lhe confere liberdade. O campo é um espaço de vitalidade, alegria, beleza, vida saudável… Na cidade, o ambiente físico, cheio de contrastes, apresenta ruas macadamizadas/esburacadas, casas apalaçadas (habitadas pelos burgueses e pelos ociosos), quintalórios velhos, edifícios cinzentos e sujos… O ambiente humano é caracterizado pelos calceteiros, cuja coluna nunca se endireita, pelos padeiros cobertos de farinha, pelas vendedeiras enfezadas, pelas engomadeiras tísicas, pelas burguesinhas… É neste sentido que podemos reconhecer a capacidade de Cesário Verde em trazer para a poesia o real quotidiano do homem citadino. 
Morto prematuramente, foi curta a obra que nos deixou Cesário Verde. No entanto, o carácter ousado de um realismo lírico e prosaico confere à sua poesia importância determinante no contexto da segunda metade do séc. XIX e perspectivando já algumas vertentes da modernidade do séc. XX. 
Postumamente os seus poemas foram reunidos por Silva Pinto em colectânea a que atribuíu o título de ‘O Livro de Cesário Verde’.


August Macke, Staudacher's house at the Tegernsee, 1910



"Os libertinos são aranhas repugnantes que às vezes apanham lindas borboletas."

(Denis Diderot)



Portrait of Denis Diderot, painted 1767, by Louis-Michel van Loo 


Denis Diderot (Langres, 5 de Outubro de 1713 — Paris, 31 de Julho de 1784) foi um filósofo e escritor francês. A primeira peça relevante da sua carreira literária é Lettres sur les aveugles a l’usage de ceux qui voient (Cartas sobre os cegos para uso por aqueles que veem), em que sintetiza a evolução do seu pensamento desde o deísmo até ao cepticismo e o materialismo ateu, e tal obra culminou em sua prisão. Sua obra prima é a edição da Encyclopédie (1750-1772) ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers (Dicionário razoado das ciências, artes e ofícios), onde reportou todo o conhecimento que a humanidade havia produzido até sua época. Demorou 21 anos para ser editada, e é composta por 28 volumes. Mesmo que na época o número de pessoas que sabia ler era pouco, ela foi vendida com sucesso. Denis conseguiu uma fortuna. Deu continuidade com empenho e entusiasmo apesar de alguma oposição da Igreja Católica e dos poderes estabelecidos. Escreveu também algumas outras peças teatrais de pouco êxito. Destacou-se particularmente nos romances, nos quais segue as normas dos humoristas ingleses, em especial de Sterne: A Religiosa, O Sobrinho de Rameau, Jacques, o fatalista e seu mestre. Escreveu vários artigos de crítica de arte.
Foi um dos primeiros autores que fazem da literatura um ofício, mas sem esquecer jamais que era um filósofo. Preocupava-se sempre com a natureza do homem, a sua condição, os seus problemas morais e o sentido do destino. Admirador entusiasta da vida em todas as suas manifestações, Diderot não reduziu a moral e a estética à fisiologia, mas situou-as num contexto humano total, tanto emocional como racional. Diderot é considerado por muitos um precursor da filosofia anarquista. Alguns estudiosos acreditam que, sob inspiração de sua obra, "A Religiosa", barbáries foram praticadas contra religiosos e freiras na Revolução Francesa de 1789 com o deturpado intuito de "protegê-los" contra os crimes praticados pela Santa Sé, há ainda um suposto dossiê encontrado por Georges May em 1954, que mostra a obra A religiosa como pura ficção e não um retrato da realidade. 
Faleceu em 31 de julho de 1784. Encontra-se sepultado no Panteão de Paris na França.



August Macke, Índios, 1911



"O homem vendido por outro pode não ser escravo; o que se vendeu a si mesmo, esse é o escravo absoluto."



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...