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quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

"Poça de água" - Poema de Wisława Szymborska

                                                                                                     
Charles Courtney Curran, Children Fishing, 1897, Private collection


Poça de água



Recordo bem este medo da infância.
Evitava as poças, sobretudo as novas, após a chuva.
Afinal, uma delas poderia não ter fundo,
ainda que parecesse igual às outras.

Ponho o pé e, de súbito, afundar-me-ei,
voando para baixo,
cada vez mais baixo,
rumo às nuvens refletidas
ou talvez mais além.

Depois a poça secar-se-á,
fechar-se-á por cima de mim,
e eu para sempre trancada — onde —
ficarei com um grito não repercutido à superfície.

Só mais tarde compreendi que
nem todas as más aventuras
cabem nas regras do mundo
e mesmo que o quisessem,
não poderiam acontecer.


Wislawa Szymborska




Charles Courtney Curran, Children by the Seashore, 1896,
 Private collection


"Todos os jardins da nossa infância são o jardim do paraíso. A pele suave desses tempos em que se corria com as pernas arqueadas soltando uma espécie de luz pela respiração. Ríamos a correr para os braços dos adultos numa entrega absoluta. Eles, os adultos, atiravam-nos ao ar e apanhavam-nos com mãos ásperas, e, talvez por isso, quando crescemos nunca mais deixamos de, esporadicamente, sonhar que voamos. E de sonhar com gigantes e anões, pois eram essas as nossas proporções."


Afonso Cruz,  O Pintor Debaixo do Lava-Loiças


Charles Courtney Curran, Date unknown


Tão pequena
E desbotada de chuva
A casa da infância!...


Paulo Franchetti,
Haicais

domingo, 25 de fevereiro de 2018

"Com as maçãs" - Poema de Eugénio de Andrade


Charles Courtney Curran, Apple Perfume, 1911



Com as maçãs


As crianças chegam com as maçãs.
Vêm do sul,
os choupos brancos sabem o seu nome.
Também as gaivotas as conhecem:
aposto que foram elas,
estas ciganas das areias,
quem lhes mostrou o caminho.
Chegam com as maçãs:
as crianças, as abelhas.


In «Coração habitado»



Andorinha (Hirundo rustica), Springtime' by Luis-Gaspar



Sentadas num fio
estão cinco andorinhas
fugidas do frio

Portugal (1931)


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

"Minha Mãe" - Poema de Azevedo Cruz


Charles Courtney Curran, 'Breakfast for Three', 1909


Minha Mãe


Da luz do Além vejo terras distantes
Num quadro de expressão que nunca vira.
Orion, Sirius, Aldebaran, Alfa e Lira…
Na celeste harmonia de gigantes.

 A saudade cruel é a força que me inspira.
Todo ambiente em torno é belo como dantes
No reduto das rosas fascinantes
Sustentadas aos toques da safira.

 Busco uma casa amiga, o coração estala.
Encontro minha mãe! Corro a beijá-la
Abraçado no amor de que me inundo.

Meu Deus! Não quero o céu, mesmo em te amando.
Quero ficar com minha mãe rezando
Na verdadeira paz que achei no mundo!…




Charles Courtney Curran, Dolly's Portrait, 1909


"As mulheres são as flores da vida, assim como as crianças são os frutos dela." 



quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

"Os problemas de um livro" - Poema de Laura Riding


Charles Courtney Curran, An Afternoon Respite, 1894, Private collection



Os problemas de um livro


O problema de um livro é, primeiro, não ser 
Pensamentos para ninguém 
E ficará tão inescrito 
Quanto permanecerá não lido 
E construir um autor palavra por palavra 
E ocupar sua cabeça 
Até que a cabeça feche pra balanço 
Para publicar a todos 
Seu esvaziamento. 

O segundo problema de um livro 
É ficar desperto e pronto 
À escuta como um dono de pousada 
Querendo, não querendo hóspedes, 
Indeciso entre a esperança de folga nenhuma 
E a esperança de folga. 
Vacilantes, as páginas cochilam 
E piscam para os dedos que passam 
Com sorriso proprietário, e fecham-se. 

O terceiro problema de um livro é 
Dar seu sermão e virar as costas 
Suscitando comoção nas margens 
Onde a língua cruza o olho, 
Sem declarar nenhuma experiência de pânico, 
Nenhuma cumplicidade neste tumulto. 
A provação de um livro é não dar pistas 
De ser provação, é ser neutro e leigo 
No sentido reto do impresso. 

O problema de um livro, principalmente, 
É ser só livro na superfície; 
Vestir capa como capa, 
Se enterrar em morte-livro 
Mas se sentir tudo menos livro, 
Respirar palavras vivas, mas com o hálito 
Das letras; endereçar vivacidade 
Nos olhos que lêem, ser respondido 
Com letras e livrescidade.


Charles Courtney Curran, Fair Critics, 1887, The Metropolitan Museum of Art


"Um pintor não tem outros inimigos sérios senão os seus piores quadros."



quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

"Os sentidos" - Poema de Augusto de Lima


Charles Courtney Curran, On the Heights, 1909



Os sentidos


Há uma correspondência que equilibra
todas as formas num consenso eterno:
dos sentidos humanos cada fibra
liga a nossa existência ao mundo externo.

Os olhos querem luz; flores, o olfato;
frutos, o paladar; o ouvido, harpejos;
macia polpa setinosa, o tato;
o coração, afeto; os lábios, beijos.

Há, porém, de outras laços um sistema,
que a natureza em nós conserva inerte:
para a ciência e a fé sempre é problema;
basta, no entanto, um toque que os desperte...

E como vós, ó sensações, outrora
adormecidas no organismo estáveis,
eles dormem também, presos embora
ao turbilhão das cousas impalpáveis.

Cérebro humano, criador da Psique,
centro radial do cosmos consciente,
para que ainda mais perfeita fique,
deixa que as formas Psique nua ostente!


Antônio Augusto de Lima,
em "Laudas inéditas"



Charles Courtney Curran, The Boulder, 1919


"Nem tudo o que enfrentamos pode ser mudado. Mas nada pode ser mudado enquanto não for enfrentado."

(James Baldwin)


domingo, 4 de fevereiro de 2018

"Sabedoria" - Poema de Yeda Prates Bernis


Charles Courtney CurranThe Cabbage Field, 1914


Sabedoria


Aborrecem-me as mulheres de lantejoulas
e as coroadas com tiaras de diamantes.
Nem mesmo invejo as que muito leram
e extraíram dos livros o sumo
da desesperança
ou as que misturaram palavras,
pincéis e pautas
às linhas de suas vidas.

Fascinam-me as mulheres do campo
que acordam de madrugada,
coam café com rapadura
para os maridos e lavram a terra
com enxada, suor e amor,
ou as lavadeiras de beira-rio
quarando suas roupas com canções
e coração:
sábias, não meditam sobre a fugacidade
das horas, fazem de cada instante
a doação perfeita, a morte é sua
verdade sem temência
e suas vidas são plenas
como árvore absorvendo o sol das manhãs.




Charles Courtney Curran, After the Storm, c. 1916-1919, Private collection


"A arte do descanso é uma parte da arte de trabalhar."

(John Steinbeck)


segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

"Tercetos de amor" - Poema de Thiago de Mello


Charles Courtney Curran, Among the Wild Azaleas, 1908



Tercetos de amor


Só agora aprendi 
que amar é ter e reter. 
Foi quando te vi. 

Vi quando a rosa se abriu. 
Como a eternidade 
pode ser tão fugaz? 

Não sei quando é o mar, 
ou se é o sol dos teus cabelos. 
Tudo são funduras. 

Na entressombra, o sabre 
se estira na relva morna. 
O nenúfar se abre. 

Brilha um dorso: és tu. 
Encontro no teu ventre 
a explicação da luz. 


em "Num campo de margaridas", 1986


segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

"Canção Báquica" - Poema de Aleksander Púchkin


Charles Courtney CurranHollyhocks and Sunlight, 1902



Canção Báquica


Que fez calar a alegre voz?
Ressoai, canções licenciosas!
Bem-vindas, moças carinhosas
E esposas tão jovens que amáveis a nós!
As taças enchei sem tardança!
No vinho a espumar,
No fundo, o jogar
Vinde (e ouvi-las soar) cada aliança!
Cada taça se erga, de vez seja finda!
Bem-vindas, ó musas; Razão, sê bem-vinda!
Astro sagrado, arde tu, sol!
Como o lampião empalidece
Ao claro surgir do arrebol,
Assim o saber falso hesita e esvanece
Ante o imortal sol da Razão.
Bem-vindo sê tu, sol; vai-te negridão!

(1825)

Aleksander Púchkin, em "Poesias escolhidas" 
Tradução de José Casado



Charles Courtney Curran, Among the Hollyhocks, 1904


A uva


Não choro, finda a primavera 
ligeira, a rosa que definha, 
pois, maturando numa vinha 
ao pé do monte, a uva me espera: 
primor do vale viridente, 
deleite do dourado outono,
tão diáfana e tão longo como
os dedos de uma adolescente.

(1824)

A dama de espadas: prosa e poemas. 
Tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

"Rios" - Poema de Viviane Mosé


Charles Courtney Curran, Lotus Lilies, 1888



Rios


Rios, quando ainda são rios,
Conservam vegetação nas margens.
Córregos são águas geralmente claras
Que correm rasas entre as pedras.

Algumas vezes árvores chegam a cobrir um rio por inteiro:
Suas copas vão tecendo um véu verde sobre as águas
(em geral muito limpas) que correm.

As margens de um rio são plantas e terra molhada.
Terra e água em convivência pacífica.
Que não é lama, é terra e água,
Em sua diferença.

O leito se sabe leito daquele fluxo líquido inserido no chão. 
Eu poderia chorar de coisas assim:
Corre um rio de minha boca corre um rio de minhas mãos.
Dos meus olhos corre um rio.

Na verdade sofro de excessos, que me dão certo vocabulário
Como derramar, escorrer, atravessar.
Tenho a impressão de que tudo vaza em sobras.
Tenho dificuldade em caber. 

Pra caber mais derramo por nada derramo sem motivo.
Vou acalmar meu excesso pensei
Ministrando doses diárias de barcos ancorados ao sol,
Rodeados por pequenos pássaros em busca de restos de peixe.

Águas se lançando sobre as pedras e um vento que parece vivo,
Como se tivesse a intenção de às vezes fazer agrados
Em minha pele.

Meu rosto tem muita simpatia por ventos,
Reconhece certos humores próprios a vento.
Gosto de coisas que se movem.

Por isso aprecio rios e não sou tanto assim apegada a mares.
E árvores.
Se bem que tenho enorme ternura por bois
Fincados no pasto como palavras no papel.

Palavras são estacas fincadas ao chão.
Pedras onde piso nessa imensa correnteza que atravesso.


em "Toda palavra"


Charles Courtney Curran, Dans le Jardin du Luxembourg, 1889


"Ninguém ainda sabe se tudo apenas vive para morrer ou se morre para renascer."



quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

"O adeus" - Poema de Yves Bonnefoy


Charles Courtney CurranSelf Portrait, 1892



O adeus


Estamos de regresso à nossa origem.
Foi o lugar da evidência, mas rasgada.
As janelas mesclavam muitas luzes,
As escadas galgavam estrelas demais
Que são arcadas desabando, são entulhos,
O fogo parecia arder num outro mundo. 

E agora voam pássaros de quarto em quarto,
Caíram as janelas, cobre-se o leito de pedras,
O lar cheio de escombros do céu a se apagarem.
Ali falávamos, à noite, em voz velada
Por causa dos rumores dos arcos, lá no entanto
Formávamos projetos: e uma barca,
Carregada de pedras rubras, se afastava
Irresistível de uma margem, e o olvido
Já deitava sua cinza sobre os sonhos
Que retomávamos sem fim, a povoar de imagens
O fogo que queimou até o último dia. 

É certo, minha amiga,
Que há apenas um termo para designar
Na língua que chamamos de poesia
O sol do amanhecer e o da tarde,
Um só o grito de júbilo e o grito de angústia,
Um só o deserto rio acima e as machadadas,
Um só o leito desfeito e o céu de tempestade,
Um só a criancinha a nascer e o deus morto? 

Sim, creio, quero crer, mas que sombras são essas
Que consigo carregam o espelho?
E vê, a urze pega em meio às pedras
Na via de relva ainda mal aberta
Onde iam nossos passos às árvores novas.
Parece-me hoje, aqui, que a palavra
É esse cocho partido, de que se derrama
A cada alva de chuva a água inútil. 

A relva e nela a água a brilhar como um rio.
Tudo está sempre a remalhar o mundo.
O paraíso é esparso, bem o sei,
É tarefa terrestre lhe reconhecer
As flores esparzidas pela relva pobre,
Mas desapareceu o anjo, uma luz
Quem não foi de repente mais que o sol poente. 

E como Adão e Eva nós caminharemos
Uma última vez pelo jardim.
Como Adão o primeiro remorso, como Eva
A primeira coragem vamos querer e não 
Passar a porta baixa que se entreabre
Lá adiante, na outra ponta das cordas, colorida
Como de último raio, auguralmente.
O futuro acaso pega-se na origem
Como consente o céu a um espelho curvo,
Poderemos colher daquela luz,
Que foi daqui o milagre, a semente nas mãos
Sombrias, para outras poças no segredo
De outros campos “barrados de pedras”? 

Sim, o lugar para vencer, para vencer-nos, é aqui
De onde partimos, esta noite. Aqui sem fim
Tal como aquela água que escapa do cocho.


Yves Bonnefoy, Obra Poética. 
Tradução de Mário Laranjeira



Charles Courtney CurranThe Artist's Father, 1911


"A beleza das coisas existe no espírito de quem as contempla."



sábado, 9 de setembro de 2017

"A Lavadeira" - Poema de Cora Coralina


Charles Courtney Curran (1861-1942), A Breezy Day, 1887



A Lavadeira


Essa mulher...
Tosca. Sentada. Alheada ...
Braços cansados
Descansando nos joelhos ...
Olhar parado, vago,
Perdida no seu mundo
De trouxas e espumas de sabão
- é a lavadeira.

Mãos rudes deformadas.
Roupa molhada.
Dedos curtos.
Unhas enrugadas.
Córneas.
Unheiros doloridos
Passaram, marcaram.
No anular, um círculo metálico
Barato, memorial.

Seu olhar distante,
Parado no tempo.
À sua volta
-uma espumadeira branca de sabão.

Inda o dia vem longe
Na casa de Deus Nosso Senhor,
O primeiro varal de roupa
Festeja o sol que vai subindo.

Vestindo o quaradouro
De cores multicores.

Essa mulher
Tem quarenta anos de lavadeira.
Doze filhos
Crescidos e crescendo.

Viúva, naturalmente.
Tranquila, exata, corajosa.

Temente dos castigos do céu
Enrodilhada no seu mundo pobre.

Madrugadeira.

Salva a aurora.
Espera pelo sol.
Abre os portais do dia
entre trouxas e barrelas.

Sonha calada.
Enquanto a filharada cresce
Trabalha suas mãos pesadas.

Seu mundo se resume
na vasca, no gramado.
No arame e prendendores.
Na tina d’água.
De noite – o ferro de engomar.

Vai lavando, vai levando.
Levando doze filhos
Crescendo devagar,
Enrodilhada no seu mundo pobre,
Dentro de uma espumadeira
Branca de sabão.

Às lavadeiras do Rio Vermelho
Da minha terra,
Faço deste pequeno poema
Meu altar de ofertas.





Charles Courtney Curran, Hanging out Linen, 1887


"O silêncio é um amigo que nunca trai."

(Confúcio)


Charles Courtney Curran, Hanging Out the Clothes, 1887


"A cura para o tédio é a curiosidade. Não há cura para a curiosidade."



domingo, 27 de agosto de 2017

"Perdida" - Poema de Camilo Castelo Branco


Charles Courtney Curran, Peonies, 1915



Perdida


Veloz, qual flecha impelida
O meu cavalo corria…
Eu tinha a febre da raiva,
Abrasava-me a agonia,
E o cavalo generoso
O meu ódio concebia.

Os precipícios transpunha
Sem as rédeas sofrear!
Longe, ao longe eu ansiava
Este horizonte alargar;
Procurava mundos novos,
Faltava-me ali o ar.

E, de relance, deviso 
Linda flor em ermo Val,
Mal aberta, e aljofrada
Pelo orvalho matinal,
Reacendendo solitária
Seu perfume virginal.

Nenhum homem lhe tocara,
Nem talvez a vira ali!
Tive orgulho de encontrá-la,
Que outra mais bela não vi.
Mas o ímpeto indomável
Do cavalo não venci.

E perdi-a! Não me lembro
Onde vi tão linda flor!
Sei que lá me fica a alma 
Como um feudo pago à dor.
Outros lábios viral dar-lhe
Férvido beijo d’amor.

1850

 (1825-1895), 
in Ao Anoitecer da Vida


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

"Quando o meu amor vem ter comigo" - Poema de Edward Estlin Cummings


Charles Courtney Curran (1861-1942), Lady with a Bouquet (Snowballs), 1890



Quando o meu amor vem ter comigo


Quando o meu amor vem ter comigo é 
um pouco como música, um 
pouco mais como uma cor curvando-se (por exemplo 
laranja) 

contra o silêncio, ou a escuridão...

a vinda do meu amor emite 
um maravilhoso odor no meu pensamento, 

devias ver quando a encontro 
como a minha menor pulsação se torna menos. 
E então toda a beleza dela é um torno 

cujos quietos lábios me assassinam subitamente, 

mas do meu cadáver a ferramenta o sorriso dela faz algo 
subitamente luminoso e preciso 

— e então somos Eu e Ela... 

o que é isso que o realejo toca 


E. E. Cummings, in "livrodepoemas" 
Tradução de Cecília Rego Pinheiro


segunda-feira, 31 de julho de 2017

"Branco" - Poema de Rosa Maria Martelo


Charles Courtney Curran (Pintor norte-americano, 1861-1942), "Sombras"



Branco


Interessa-me o inconcreto branquejar
da roupa no estendal (o branco, não)

mais do que o peso da água, ver
que o nada não se vê na água a evaporar

na luz do tecido em contraluz interessa-me
o vazio suspenso do vazio
quando a roupa enforma ao vento e sobe
no arame, interessa o risco que sustém a louca nave,
os voos desabitados e a pequena hora de ninguém.




quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

"Nasceste do outro lado" - Poema de José Agostinho Baptista


Charles Courtney Curran, Afternoon in the Cluny Garden, Paris, 1889



Nasceste


Nasceste do outro lado,
onde o sol nunca destruiu os negros signos
da escuridão,
onde o terror do pai,
o distraído olhar da mãe,
o silêncio dos irmãos, faz crescer em ti as
imperecíveis flores da amargura.

Foste sempre
a equívoca imagem dos espelhos: um sorriso
era uma lágrima.
À tua volta estava escrito:
o amor é uma espada de fogo, às vezes mata.

Navegaste turvos oceanos cujas vagas alterosas,
nunca antes vistas,
batiam no teu assombro.
Atravessaste os ares, muito perto do céu,
mas nunca viste as altas mansões de Deus.
Eras apenas o anjo,
aquela que nunca pôde deixar as estâncias do
sono.
Entregaste, sem saber, os segredos do teu corpo,
tão predisposto à imolação.
Choraste tantas vezes,
em quartos de persianas descidas, que a morte
habitava,
sem fazer ruído.

Hoje,
não dizes nada.
Levas sobre os ombros um xaile de magoada renda.
Vestes quase sempre de negro.
Vais e vens,
ao longo dos labirintos onde em cada esquina
espreita o tigre.

Não sabes o que fazer com as mãos frias,
povoadas de angustiantes anéis.
Não bordas o livro das tuas horas,
e o dedal das avós dementes caiu sempre no
chão.

A chuva caiu sempre nos teus dias,
e caminhaste pelas ruas, à deriva, cabisbaixa,
como se pedisses perdão.
Ninguém te ouviu,
pois não havia palavras debruçadas da tua
boca.
Era sempre Inverno.

E quando ele chegou,
o filho pródigo de uma ilha,
parecia que enfim poderias cantar nos jardins da
paixão, na elevação das chamas.

Mas não.
Assassinaste sempre a ternura que ele ainda
guardava no devassado cofre da sua idade.
Suicidaste-te.


'Esta voz é quase o vento'
Assírio & Alvim, 2004


terça-feira, 13 de dezembro de 2016

"Silêncio" - Poema de Octavio Paz


Charles Courtney Curran, Far Away Thoughts, Private collection




Silêncio


Assim como do fundo da música 
brota uma nota 
que enquanto vibra cresce e se adelgaça 
até que noutra música emudece, 
brota do fundo do silêncio 
outro silêncio, aguda torre, espada, 
e sobe e cresce e nos suspende 
e enquanto sobe caem 
recordações, esperanças, 
as pequenas mentiras e as grandes, 
e queremos gritar e na garganta 
o grito se desvanece: 
desembocamos no silêncio 
onde os silêncios emudecem. 


Octavio Paz, in "Liberdade sob Palavra" 
Tradução de Luis Pignatelli 


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

"Uma pausa, não de plumas, mas elástica" - Poema de António Ramos Rosa





Uma pausa, não de plumas, mas elástica

1

Uma pausa, não de plumas, mas elástica,
que demorasse em si a paz ardente
e o ardor profundo de uma alta instância.
Que fosse o esquecimento na folhagem
e a espessa transparência da matéria.
O pulso pronunciaria a amplitude
do instante inocente. A obra acender-se-ia
na inteligência dos signos mais aéreos.

2

A inadvertência pode ser um prelúdio carnal
na volúvel leitura de quem adormeceu.
O sono dá ao sangue o ócio e as cores do enxofre.
Por uma forma ausente a matéria ramifica-se
na insolência branda de umas ruínas perfeitas.
Um aroma rebenta da axila negra de um animal de vidro.
Como um veleiro de fogo uma cabeleira ondula.
A garganta do mar atira os seus pássaros de espuma.
Uma rapariga de pedra caminha entre os arbustos de fogo.
É a abundância da origem e o seu orvalho azul.
São as armas vegetais sobre as janelas da terra.
É a frescura do vidro nas cintilantes sílabas.

3

Na justa monotonia do meio-dia
oiço o prodígio do repouso e a paixão adormecida.
O concêntrico sopro imobiliza-se. É uma lâmpada
de pedra fulgurante. Tudo é nítido mas ausente.
O mundo todo cabe no olvido e o olvido é transparência
de um denso torso que a nostalgia acende.
No silêncio sinto numa só cadência
a vociferação e o tumulto das pálpebras e dos astros.
Pelas veias o fogo da cal é branco e liso
e a mais remota substância culmina num rumor redondo.


In A Rosa Esquerda (1991) 



segunda-feira, 27 de agosto de 2012

"Sonhando" - Poema de Florbela Espanca


Charles Courtney Curran (1861–1942), The Farm at Sunset



Sonhando


É noite pura e linda. Abro a minha janela 
E olho suspirando o infinito céu, 
Fico a sonhar de leve em muita coisa bela 
Fico a pensar em ti e neste amor que é teu! 

D’olhos fechados sonho. A noite é uma elegia 
Cantando brandamente um sonho todo d’alma 
E enquanto a lua branca o linho bom desfia 
Eu sinto almas passar na noite linda e calma. 

Lá vem a tua agora... Numa carreira louca 
Tão perto que passou, tão perto à minha boca 
Nessa carreira doida, estranha e caprichosa 

Que a minh’alma cativa estremece, esvoaça 
Para seguir a tua, como a folha de rosa 
Segue a brisa que a beija... e a tua alma passa!...





Charles Courtney Curran, Administration Building of the 1893, 
Columbian Exposition in Chicago at Night



"Procuremos acender uma vela em vez de amaldiçoar a escuridão."

(Provérbio) 



domingo, 1 de janeiro de 2012

"Cedo ou tarde" - Poema de Albano Martins


Charles Courtney Curran, The Edge of the Woods, 1912



Cedo ou tarde 


Devias saber
que é sempre tarde
que se nasce, que é
sempre cedo
que se morre. E devias
saber também
que a nenhuma árvore
é lícito escolher
o ramo onde as aves
fazem ninho e as flores
procriam.


Albano Martins,
Escrito a vermelho



Albano Martins

Albano Dias Martins nasceu em 1930 na aldeia do Telhado, concelho do Fundão, distrito de Castelo Branco, província da Beira Baixa, Portugal. Licenciado em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi professor do Ensino Secundário de 1956 a 1976. Tendo ingressado, em 1980, nos quadros da Inspecção-Geral de Ensino, passou, em 1993, à situação de aposentado. Presentemente, é professor na Universidade Fernando Pessoa, do Porto. 
É autor dos seguintes livros de poesia: Secura Verde, Colecção "Germinal", Porto, 1950; Coração de Bússola, Colecção "Daimon", Évora, 1967; Em Tempo e Memória, Ed. do Autor, Viseu, 1974; Paralelo ao Vento, Ed. "O Oiro do Dia", Porto, 1979; Inconcretos Domínios, Ed. "Nova Renascença", Porto, 1980; A Margem do Azul, Ed. do Autor, Porto, 1982; Os Remos Escaldantes, Ed. "O Oiro do Dia", Porto, 1983; Sob os Limos, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Porto, 1986; Poemas do Retorno, Centro Cultural do Alto Minho, Viana do Castelo, 1987; A Voz do Chorinho ou os Apelos da Memória, Editorial Caminho, Lisboa, 1987; Vertical o Desejo, Galeria Nasoni Edições, Porto, 1988; Rodomel Rododendro, Quetzal Editores, Lisboa, 1989; Vocação do Silêncio, Poesia 1950-1985 (inclui o livro inédito As Vogais Aliterantes), Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1990; Os Patamares da Memória, Limia, Colecção "Ícone", Viana do Castelo, 1990; Entre a Cicuta e o Mosto, Átrio, Colecção "O Lugar da Pirâmide", Lisboa, 1992; Uma Colina para os Lábios, Ed. Afrontamento, Porto, 1993; Com as Flores do Salgueiro, Edições Universidade Fernando Pessoa, Porto, 1995; O Mesmo Nome, Editora "Campo das Letras", Porto, 1996; O Espaço Partilhado, Editora "Campo das Letras", Porto, 1998; A Voz do Olhar, Porto, Edições Universidade Fernando Pessoa, 1998; Escrito a Vermelho, Porto, Editora "Campo das Letras", 1999. 
Como tradutor, actividade a que vem dedicando algum do seu tempo, tem publicadas as seguintes obras: O Essencial de Alceu o Safo, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1986; Cantos, de Giacomo Leopardi, Editora Vega, Lisboa, 1986; Cântico dos Cânticos, de Salomão, Cooperativa Árvore, Porto, 1988; Dez Poetas Gregos Arcaicos, Editora D. Quixote, Colecção "O Aprendiz de Feiticeiro", Lisboa, 1991; Dez Poetas Italianos Contemporâneos, Editora D. Quixote, Colecção "O Aprendiz de Feiticeiro", Lisboa, 1992; Os Versos do Capitão, de Pablo Neruda, Editora "Campo das Letras", Porto, 1996. Tem colaboração, em prosa e verso, dispersa por numerosos jornais e revistas, do país e do estrangeiro.

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