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domingo, 26 de fevereiro de 2012

"Olha um sapo! Ih! que feio! ..."










O sapo


- Olha um sapo! Ih! que feio! ...
Vou matá-lo num instante
E traçar de meio a meio
Animal tão repugnante.

Eu não sei para que medra
Bicho tão feio e tão mau:
Vou esmagá-lo co’uma pedra
E depois cravar-lhe um pau.

- Não o mates. Porque odeias
O inofensivo animal,
E matá-lo tanto anseias?
Acaso já te fez mal?

- A mim não: mas, porventura,
Não sabes que os desta raça
Fazem muita desventura
E causam muita desgraça?

- Pobre do sapo, coitado,
Que não faz mal a ninguém!
Porque há-de ser odiado,
Se afinal só nos faz bem?

- Lança veneno à distância
E de cegar é capaz ...
- Revela ignorância
Quem to disse, meu rapaz.

- É feio não gosto dele;
Repara que boca enorme!
Não vês as rugas da pele
Como o tornam tão disforme?

- Em tudo quanto tens dito
Há somente esta verdade:
“o sapo não é bonito”
Tudo o mais é falsidade.

É feio, sim: mas que importa
Que seja o pobre animal,
Se limpa o jardim, a horta
Sem nos causar nenhum mal?

O prejuízo que evita
Sabes lá a quanto monta?
Destrói, no campo que habita,
Bichinhos vários sem conta.

Vermes, caracóis, insectos,
Alguns bastante daninhos,
De que os campos são repletos
Come-os como passarinhos.

Merece-nos, pois, respeito
E as melhores atenções.
Ser feio só é defeito,
Se são feias as acções.

É feio? Sim, na verdade,
Não tem o talho perfeito:
Mas que tem a fealdade?
É o ser feio um defeito?

Não julgues as criaturas
Somente pelas feições:
Vê se são dignas e puras,
Julga-as por suas acções. 


(Do livro de leitura da 3ª classe de 1951)






"A compaixão para com os animais é das mais nobres virtudes da natureza humana."

(Charles Darwin)









"Jamais creia que os animais sofrem menos do que os humanos. A dor é a mesma para eles e para nós. Talvez pior, pois eles não podem ajudar a si mesmos."

(Louis J. Camuti)

Louis J. Camuti  (1894-1981) foi um veterinário da cidade de Nova Iorque. Autor dos livros "All My Patients Are Under The Bed: Memoirs of a Cat Doctor" (Todos os meus pacientes estão debaixo da cama: Memórias de um Doutor Gato) (1980) e "Park Avenue Vet" (1962).


sábado, 3 de dezembro de 2011

"Da mais alta janela da minha casa" - Poema de Alberto Caeiro


Da mais alta janela da minha casa


Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade. 

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto. 

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo. 

Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão? 

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvores, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste. 

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua. 

Passo e fico, como o Universo. 



Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos”
Heterónimo de Fernando Pessoa 



Richard Clayderman - Autumn Leaves


"Não há diferenças fundamentais entre o homem e os animais nas suas faculdades mentais... os animais, como os homens, demonstram sentir prazer, dor, felicidade e sofrimento." 

(Charles Darwin)


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