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domingo, 21 de janeiro de 2018

O Inverno que vem" - Poema de Jules Laforgue


Charles Webster Hawthorne, Rainy Day, Provincetown



O Inverno que vem


Bloqueio sentimental! Despachos do Levante!...
Oh, cair da chuva! Oh! cair da noite,
Oh! o vento!...
O Dia de Todos os Santos, o Natal e o Ano Entrante,
Oh! na garoa, todos as minhas chaminés!...
De fábricas...

Não se pode mais sentar, todos os bancos, molhados;
Creia-me, tudo acabado até o ano que vem,
Todos os bancos, molhados, com os bosques embotados,
E assim as trompas sopraram ton ton, sopraram ton taine!...

Ah! nuvens vindas lá da Mancha,
Nosso último domingo, vocês mancham.

Está garoando;
As teias de aranha na floresta molhada
Vergam sob as gotas e ficam aruinadas.
Sóis plenipotenciários da lavoura
Em fontes de ouro
Dos espetáculos agrículas,
Onde estais sepultados? 
Esta tarde um sol que morre
Jaz no cume do morro
Jaz sobre o flanco
Nas giestas, sobre um manto.
Um sol branco 
Como tabuleta de boteco
Sobre uma liteira de giestas amarelas,
As giestas amarelas do outono.
E soam-lhe as trompas!
Que ele retorne...
Que a si próprio retorne!
Taïaut! Taïaut! e hallali!
Ó triste antífona, chegas ao fim!...
E fingem-se em folia!...
Ele alí jaz, como uma glândula arrancada de um pescoço,
E fremente, 
sem ninguém presente!...

Vamos, vamos e hallali!
É o Inverno conhecido que se avizinha;
Oh! as curvas das grandes estradas,
E sem o pequeno Chapeuzinho Vermelho que caminha!...
Oh! seus sulcos dos carros do outro mês,
Subindo em trilhas quixotescas
Rumo às patrulhas das nuvens em derrota
Que o vento maltrate os apriscos transatlânticos!...
Aceleremos, aceleremos, é a estação agora conhecida.

E o vento, nesta noite, fez das suas!
Ó ninhos, ó ruínas, ó jardins desgados!
Meu coração e meu sono: ó ecos de machados!...

Todos estes ramos ainda tinham folhas verdes,
Sob as plantas apenas um esterco de folhas mortas;
Folhas, folíolos, que vos leve um bom vento
Para os charcos, aos enxames,
Ou para o fogo dos couteiros,
Ou os enxergões das ambulâncias
Para os soldados longe da França.

É a estação, é a estação, a ferrugem invade as massas,
Rói a ferrugem em seus spleens quilométricos
Os fios telegráficos das grandes estradas onde nada passa.

As trompas, as trompas, as trompas – melancólicas!...
Melancólicas!...
Seguem, alterando o tom,
Alterando o tom e a música 
Ton ton, ton taine, ton ton!...
As trompas, as trompas, as trompas!...
Seguiram para o vento Norte.

Não posso deixar tal tom: que ecos!...
É a estação, é a estação, adeus vindimas!...
Com uma calma de anjo chegam as chuvas lá de cima.
Adeus vindimas e adeus a todos os cestos,
Todas os cestos Watteau feixes sob os castanheiros.
É a tosse, no dormitório da escola, que reentra,
É a tisana sem fogão,

É a tísica pulmonar contristando o quarteirão,
E toda a miséria dos grandes centros.

Milho, lanifícios, borracha, farmácia, sonhar,
Cortinas abertas nas varandas à beira-mar
Frente ao oceano dos telhados dos bairros,
Lâmpadas, estampas, chá, petits-fours,
Não sereis meus únicos amores!...
(Oh, e aliás conheces, além dos pianos,
O sóbrio e vesperal mistério hebdomadário
Das estatísticas sanitárias
Nos jornais?)

Não, não! é a estação e o planeta cómico!
Que a ventania, que a ventania
Desfia 
Os chinelos, pois o tempo se tricota!
É a estação, oh dilacerações! é a estação!
Todos os anos, todos os anos,
Tentarei em coro dar a nota.


em "Poetas franceses do século XIX". 
Tradução José Lino Grünewald



Charles Webster HawthorneRainy Day, San Antonio



"Enquanto o poço não seca, não sabemos dar valor à água."



quinta-feira, 1 de junho de 2017

"Infância" - Poema de Casimiro de Abreu


Charles Webster Hawthorne (1872 -1930), At the Seaside, 1920


Infância


Ó anjo da loura trança, 
Que esperança 
Nos traz a brisa do sul! 
– Correm brisas das montanhas... 
Vê se apanhas 
A borboleta de azul!...

Ó anjo da loura trança, 
És criança, 
A vida começa a rir. 
– Vive e folga descansada, 
Descuidada 
Das tristezas do porvir.

Ó anjo da loura trança, 
Não descansa 
A primavera inda em flor; 
Por isso aproveita a aurora 
Pois agora 
Tudo é riso e tudo amor.

Ó anjo da loura trança, 
A dor lança 
Em nossa alma agro descrer. 
– Que não encontres na vida 
Flor querida, 
Senão contínuo prazer.

Ó anjo da loura trança, 
A onda é mansa 
O céu é lindo dossel; 
E sobre o mar tão dormente, 
Docemente 
Deixa correr teu batel.

Ó anjo da loura trança, 
Que esperança 
Nos traz a brisa do sul!... 
– Correm brisas das montanhas... 
Vê se apanhas 
A borboleta de azul!...


In As Primaveras, 1859




Mary Cassatt, Children on the Beach, 1884


"Importa dar aos outros o amor de os ouvir. A criança ama quem for capaz de se partilhar com ela. De lhe dar o que é, sem cuidar de exigir nada em troca. Os nossos melhores amigos são sempre crianças."

(José Luís Nunes Martins)
 
 

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

"Presságio" - Poema de Fernando Pessoa


Charles Webster Hawthorne (1872 -1930),
The Lovers, 
Private collection



Presságio


O amor, quando se revela, 
Não se sabe revelar. 
Sabe bem olhar p’ra ela, 
Mas não lhe sabe falar. 

Quem quer dizer o que sente 
Não sabe o que há de dizer. 
Fala: parece que mente 
Cala: parece esquecer 

Ah, mas se ela adivinhasse, 
Se pudesse ouvir o olhar, 
E se um olhar lhe bastasse 
Pr’a saber que a estão a amar! 

Mas quem sente muito, cala; 
Quem quer dizer quanto sente 
Fica sem alma nem fala, 
Fica só, inteiramente! 

Mas se isto puder contar-lhe 
O que não lhe ouso contar, 
Já não terei que falar-lhe 
Porque lhe estou a falar… 



(“Presságio” também conhecido por “Amor”, do Ortónimo Fernando Pessoa, foi publicado no dia 24 de Abril de 1928.)



Galeria de Charles Webster Hawthorne
Charles W. Hawthorne, O vestido Vermelho, 1905


Charles W. Hawthorne,  A Jarra , 1910


Charles W. Hawthorne, Crimson Roses, 1905


Charles W. Hawthorne, Blue Kimono


Charles W. Hawthorne, Motherhood Triumphant


Charles W. Hawthorne, Rapariga com prato


Charles W. Hawthorne, Retrato de Annette, 1929


Charles W. Hawthorne, Before the Ball


Charles W. Hawthorne, Portrait of Mayme Noons, 1920


Charles W. Hawthorne, Girl Sewing, 1923


Charles W. Hawthorne, The dress maker, 1920


Charles W. Hawthorne, The Trousseau, 1910


Charles W. Hawthorne, Retrato da Sra. Woodruff, 1923


Charles W. Hawthorne, O Banho - Retrato de Emelyn Nickerson com bebé, 1915


Charles W. Hawthorne, O vestido Vermelho, 1915


Charles W. Hawthorne, Little Dora, 1915


Charles W. Hawthorne, Girl with Dolls, 1928


Charles W. Hawthorne, Master Patrick Shearer, 1929


Charles W. Hawthorne, At the Seaside, 1920


Charles W. Hawthorne, The Fencer, 1928



"Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro."

(Carl Jung)



Pintura de Charles W. Hawthorne, Private collection
Impressionist Figure


"Em alguns momentos, eu a dececionarei,
em outros você me frustrará,
mas, se tivermos coragem para reconhecer nossos erros,
habilidade para sonharmos juntos
e capacidade para chorarmos
e recomeçarmos tudo de novo tantas vezes quantas forem necessárias,
então nosso amor será imortal." 

(Augusto Cury)

"Outonal" - Poema de Florbela Espanca


Charles Webster Hawthorne (Pintor Americano, 1872-1930), 1912 



Outonal


Caem as folhas mortas sobre o lago;
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio… Olha, anoitece!
- Brumas longínquas do País do Vago… 

Veludos a ondear… Mistério mago…
Encantamento… A hora que não esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bênção dum afago… 

Outono dos crepúsculos doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
- Vestes a terra inteira de esplendor! 

Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que eu soluço a delirar de amor…


Charneca em flor, 1931



Charles Webster Hawthorne


Charles Webster Hawthorne (08 de janeiro de 1872 - 29 de novembro de 1930) foi um pintor e professor americano que fundou a Escola de Cape Cod of Art em 1899.



Charles Webster Hawthorne, Autorretrato



Charles Webster Hawthorne,  O farol de Highland 



Charles W. Hawthorne, Na Praia



Charles W. Hawthorne, Miss Wilson


Charles W. Hawthorne, Artista ao ar livre



Charles W. Hawthorne, A ponte em Provincetown


Charles W.  Hawthorne, 1911, A Família do pescador



Charles W.  Hawthorne, Regresso ao Mar


Charles W.  Hawthorne, Provincetown Fisherman


Charles W.  Hawthorne, Pescador e sua filha


Charles W. Hawthorne, Refinação de petróleo



Charles W. Hawthorne, The fisher Boy


Charles W. Hawthorne, O café da manhã


Charles W. Hawthorne, Prazeres da Mesa


Charles W. Hawthorne, A Família 


Charles W. Hawthorne, Três mulheres de Provincetown



Charles W. Hawthorne, La Gigia



Charles W. Hawthorne, Beber



Charles W. HawthorneThe Boat  Steerer



Charles W. Hawthorne, Retrato de uma rapariga


"Os sonhos são as manifestações não falsificadas da atividade criativa inconsciente." 


(Carl Jung)


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

"Homem Só, Meu Irmão!"... Poema de Luiz Goes


Charles Webster Hawthorne (1872 -1930), A Primeira Viagem


"Homem Só, Meu Irmão!


Tu, a quem a vida pouco deu,
que deste o nada que foi teu em gestos desmedidos... 
Tu, a quem ninguém estendeu a mão 
e mendigas o pão dos teus sentidos,
Homem só, meu irmão! 

Tu, que andas em busca da verdade 
e só encontras falsidade em cada sentimento, 
inventa, inventa amigo uma canção 
que dure para além deste momento,
Homem só, meu irmão! 

Tu, que nesta vida te perdeste 
e nunca a mitos te vendeste
dura solidão
faz dessa solidão teu chão sagrado, 
agarra bem teu leme ou teu arado,
Homem só, meu irmão!


Luiz Goes 



Luiz Goes

Cantor, poeta e compositor português, Luiz Fernando de Sousa Pires de Goes nasceu a 5 de janeiro de 1933, em Coimbra. É uma das principais referências da canção de Coimbra e um dos artistas portugueses com maior currículo internacional, apesar de nunca se ter profissionalizado. 
Luiz Goes começou a cantar muito cedo por influência do seu tio Armando Goes, nome muito considerado da canção coimbrã. Aos 14 anos já cantava em público e era considerado um menino-prodígio. Ainda na adolescência chegou a ser acompanhado por Artur Paredes, uma das maiores referências da guitarra portuguesa. Aos 19 anos gravou o seu primeiro disco, a convite de António Brojo. No liceu foi colega e amigo de José Afonso e António Portugal, tendo gravado vários álbuns em conjunto com ambos. Mas a sua maior influência sempre foi Edmundo Bettencourt.
Licenciou-se em Medicina, em Coimbra, em 1958. Nos seus anos de estudante cruzou-se com muitas figuras ilustres, entre outros Manuel Alegre, Miguel Torga, Bernardo Santareno, Teolinda Gersão e Yvette Centeno.
No final da década de 50 formou o Coimbra Quintet, com os instrumentistas António Portugal, Jorge Godinho, Manuel Pepe e Levy Batista. O disco Serenata de Coimbra (1957) é um dos álbuns mais vendidos da música portuguesa, em Portugal e no estrangeiro. Este quinteto teve uma projeção ímpar, mas uma vida breve. Com o recrutamento para a guerra colonial o grupo desfez-se e Luiz Goes foi colocado na frente da Guiné.
Depois mudou-se para Lisboa, onde exerceu a profissão de médico-estomatologista até à sua reforma, em 2003. Mas foi mesmo através da música que se notabilizou. É de resto um dos artistas portugueses mais internacionais. Entre outros espetáculos de grande relevo, destacam-se as suas atuações no Congresso da Cultura da Língua Portuguesa na Universidade de Georgetown (Estados Unidos), no aniversário das Nações Unidas (Suíça) e na homenagem a Beethoven (Áustria). Isto além de participações em programas televisivos em países como Brasil, Espanha, França, Suécia, Áustria, Estados Unidos e África do Sul.
Tem um extenso reportório, com muitas canções da sua autoria, algumas delas com mensagens subliminares de oposição ao regime salazarista. Entre outros temas, ficaram célebres "Homem Só", "Meu Irmão", "Balada do Mar", "É preciso acreditar", "Canção do Regresso", "Canção da Boneca de Trapo", "Canção para quase todos", "Canção Pagã" ou "Cantiga para quem sonha". Da sua extensa discografia, destacam-se os álbuns Coimbra do mar e da vida (1969), Canções de Amor e de Esperança (1969) e Canções para quase Todos (1983). Em 1998 foi editado o livro Luiz Goes de Ontem e de Hoje, da autoria de Carlos Carranca. E, em 2003, a Emi-Valentim de Carvalho lançou, numa caixa de quatro CDs, a sua obra completa.
Luiz Goes, que sempre defendeu que não existia um fado, mas sim uma canção de Coimbra, recebeu as mais altas distinções, entre as quais a de Grande Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique, a Medalha de Ouro da Cidade de Coimbra, a Medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Cascais e o Prémio Amália Rodrigues 2005, na categoria Fado de Coimbra.

Luiz Goes. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-08-12].


Livro: "Luiz Goes. O Neo-Modernismo na Canção 
de Coimbra ou o Advento da Escola Goesiana"

CRAVO, JorgeLUIZ GOES. O Neo-Modernismo na Canção de Coimbra ou o Advento da Escola Goesiana. Edições Minerva Coimbra, 2009. In-8.º gr. de 239 -II pp. B. Ilustrado fora do texto com um Anexo Foto-Documental de 26 fotografias. 
[Luiz Goes é, a partir da segunda metade do século XX, uma figura incontornável e acima de quaisquer suspeitas quanto à importância que tem na evolução da Canção de Coimbra].





Homem Só, Meu Irmão - Letra e música de Luiz Goes, 
do álbum "Canções do Mar e da Vida" (1969)


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