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domingo, 3 de maio de 2015

"As Mães" - de Eugénio de Andrade


Dórdio Gomes (1890-1976), «Mulheres Alentejanas ou Mondadeiras», 1932Óleo s/ tela.
 Museu de José Malhoa. Caldas da Rainha (Daqui) 



As Mães


Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto - não sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos, pela certa, são aquelas mulheres envolvidas na sombra dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem órfãs. Não as veremos apenas em Barrancos ou em Castro Laboreiro, elas estão em toda a parte onde nasça o sol: em Cória ou Catania, em Mistras ou Santa Clara del Cobre, em Varchats ou Beni Mellal, porque elas são as Mães. O olhar esperto ou sonolento, o corpo feito um espeto ou mal podendo com as carnes, elas são as Mães. A tua; a minha, se não tivera morrido tão cedo, sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento. Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E como duram! Feitas de urze ressequida, parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis, como se participassem da natureza do fogo. Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-nos com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Às vezes encostam-se à cal dos muros a ver passar os dias, roendo uma côdea ou fazendo uns carapins para o último dos netos, as entranhas abertas nas palavras que vão trocando entre si; outras vezes caminham por quelhas e quelhas de pedra solta, batem a um postigo, pedem lume, umas pedrinhas de sal, agradecem pela alma de quem lá têm, voltam ao calor animal da casa, aquecem um migalho de café, regam as sardinheiras, depois de varrerem o terreiro. Elas são as Mães, essas mulheres que Goethe pensa estarem fora do tempo e do espaço, anteriores ao Céu e ao Inferno, assim velhas, assim terrosas, os olhos perdidos e vazios, ou vivos como brasas assopradas. Solitárias ou inumeráveis, aí as tens na tua frente, graves, caladas, quase solenes na sua imobilidade, esquecidas de que foram o primeiro orvalho do homem, a primeira luz. Mas também as podes ver seguindo por lentas veredas de sombra, as pernas pouco ajudando a vontade, atrás de uma ou duas cabras, com restos de garbo na cabeça levantada, apesar das tetas mirradas. Como encontrarão descanso nos caminhos do mundo? Não há ninguém que as não tenha visto com umas contas nas mãos engelhadas rezando pelos seus defuntos, rogando pragas a uma vizinha que plantou à roda do curral mais três pés de couve do que ela, regressando da fonte amaldiçoando os anos que já não podem com o cântaro, ou debaixo de uma oliveira roubando alguma azeitona para retalhar. E cheiram a migas de alho, a ranço, a aguardente, mas também a poejos colhidos nas represas, a manjerico quando é pelo S. João. E aos domingos lavam a cara, e mudam de roupa, e vão buscar à arca um lenço de seda preta, que também põem nos enterros. E vede como, ao abrir, a arca cheira a alfazema! Algumas ainda cuidam das sécias que levam aos cemitérios ou vendem nas feiras, juntamente com um punhado de maçãs amadurecidas no aroma dos fenos. E conheço uma que passa as horas vigiando as traquinices de um garoto que tem na testa uma estrelinha de cabrito montês - e que só ela vê, só ela vê. 
Elas são as Mães, ignorantes da morte mas certas da sua ressurreição. 


Eugénio de Andrade , in 'Vertentes do Olhar' 

quarta-feira, 26 de março de 2014

"A música, o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas" - de Fernando Pessoa


Simão César Dórdio Gomes (1890 - 1976), Éguas de manada, 1929, óleo sobre tela, 106 x 126 cm
 

A música, o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas


« – A música, o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas. Mas por música não deve entender-se só aquela que se toca, se não também aquela que fica eternamente por tocar. Por luar, ainda, não se deve supor que se fala só do que vem da lua e faz as árvores grandes perfis; há outro luar, que o mesmo sol não exclui, e obscurece em pleno dia o que as coisas fingem ser. Só os sonhos são sempre o que são. É o lado de nós em que nascemos e em que somos sempre naturais e nossos. – Mas, se o mundo é ação, como é que o sonho faz parte do mundo? – É que o sonho, minha senhora, é uma ação que se tornou ideia; e que por isso conserva a força do mundo e lhe repudia a matéria, que é o estar no espaço. Não é verdade que somos livres no sonho? – Sim, mas é triste o acordar... – O bom sonhador não acorda. Eu nunca acordei. Deus mesmo duvido que não durma. Já uma vez ele mo disse.»


 Fernando Pessoa, in A Hora do Diabo



Simão César Dórdio Gomes, Dois banhistas à beira do Douro, 1928



Simão César Dórdio Gomes,  Alentejo, 1941



Simão César Dórdio Gomes, Autorretrato da Natureza Morta, 1924



Simão César Dórdio Gomes. "Fado do ciúme" - Amália Rodrigues


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

"A crítica é menos eficaz do que o exemplo" - de Agustina de Bessa Luís


Simão César Dórdio Gomes, Paisagem do Douro, 1936


Simão César Dórdio Gomes (ou Dórdio Gomes), (Arraiolos, 26 de Julho de 1890 — Porto, 12 de Julho de 1976) foi um pintor modernista português.



A Crítica é Menos Eficaz do que o Exemplo


A crítica é menos eficaz do que o exemplo. É de considerar se a grande sugestão para usar da crítica nos nossos tempos e que põe em causa todos os valores consagrados, não é o resultado duma anemia profunda do ato de vontade de toda uma sociedade. Todos temos consciência de como o exemplo se tornou interdito, como o indivíduo, na sua exceção perturbadora, é causa de mal-estar. Dir-se-ia que a fraqueza, a breve virtude, a mediocridade, de interesses e de condições, têm prioridade sobre o modelo e a utopia. A par desta dimensão rasa do despotismo do demérito, levanta-se uma rajada de violência. É de crer que a violência é hoje a linguagem bastarda da desilusão e o reverso do exemplo; representa a frustração do exemplo. 


Agustina Bessa-Luís, in 'Contemplação Carinhosa da Angústia'



Simão César Dórdio Gomes, O rio Douro, 1935, óleo sobre madeira, 50 x 60 cm 



"A sabedoria suprema é ter sonhos bastante grandes para não se perderem de vista enquanto os perseguimos."

(William Faulkner)






William Cuthbert Faulkner (New Albany (Mississippi), 25 de setembro de 1897 — Byhalia, 6 de julho de 1962) é considerado um dos maiores escritores estadunidenses do século XX.
Recebeu o Nobel de Literatura de 1949. Posteriormente, ganhou o National Book Awards em 1951, por Collected Stories e em 1955, pelo romance Uma Fábula. Foi vencedor de dois prémios Pulitzer, o primeiro em 1955 por Uma Fábula e o segundo em 1962 por Os Desgarrados.
Utilizando a técnica do fluxo de consciência, consagrada por James Joyce, Virginia Woolf, Marcel Proust e Thomas Mann, Faulkner narrou a decadência do sul dos Estados Unidos da América, interiorizando-a em seus personagens, a maioria deles vivendo situações desesperadoras no condado imaginário de Yoknapatawpha. Por muitas vezes descrever múltiplos pontos de vista (não raro, simultaneamente) e impor bruscas mudanças de tempo narrativo, a obra faulkneriana é tida como hermética e desafiadora.


"Dir-se-ia que o homem pode aguentar tudo (...),
 até a ideia de que não pode aguentar mais."

(William Faulkner)


sábado, 9 de junho de 2012

"Alentejo" - Poema de Miguel Torga


Simão César Dórdio Gomes (1890-1976), Paisagem Alentejana com Pastor, Ovelhas e Cão, Óleo sobre tela (100x70 cm), Colecção particular 




Alentejo


A luz que te ilumina,
Terra da cor dos olhos de quem olha!
A paz que se adivinha
Na tua solidão
Que nenhuma mesquinha
Condição
Pode compreender e povoar!
O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha 
Sem chegar!...


Miguel Torga,
1974, 
in "Antologia Poética"




Lisa Gerrard (Dead Can Dance) - Sanvean



"Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar.
Por que havemos de ser unicamente humanos,
limitados em chorar?"


Cecília Meireles, 
In Mar Absoluto e Outros Poemas (1945)



Lisa Gerrard


Lisa Gerrard (nascimento: 12 de Abril de 1961) é musicista, cantora e compositora australiana, que ganhou renome internacional como parte do grupo musical Dead Can Dance com o amigo irlandês Brendan Perry. Sua carreira começou em 1981 e continua até hoje, estando envolvida numa gama variada de projetos. Lisa Gerrard recebeu o prémio Globo de Ouro e uma indicação ao Óscar em 2000 pelo seu trabalho no filme Gladiator. Além de cantar, Lisa faz música instrumental na como parte de seu trabalho, geralmente utilizando o Yangqin (uma cítara chinesa chamada dulcimer tocada com dois pequenos martelos).


Lisa Gerrard


A voz de Lisa Gerrard é classificada como contralto. Pode, contudo, chegar a meio-soprano dramático em canções como The Host of Seraphim, Elegy, Space Weaver, Come This Way e One Perfect Sunrise; noutras — Sanvean, Sacrifice', Largo e Not Yet, por exemplo — Gerrard vai a contralto dramático
Em muitas de suas canções, tais como Now We Are Free, Come Tenderness, Serenity, The Valley of the Moon, Tempest, Pilgrimage of Lost Children, Coming Home e Sanvean, Lisa Gerrard usa uma idioglóssia (uma linguagem idiossincrática) que ela desenvolve desde seus doze anos de idade.
A primeira experiência de Lisa Gerrard na composição para o cinema surgiu em 1989 no filme espanhol El Niño de la Luna, dirigido por Agustín Villaronga. A trilha do filme foi composta pela banda Dead Can Dance e o filme foi estrelado por Lisa Gerrard como atriz pela primeira vez. El Niño de la Luna conta a história de um jovem órfão com poderes especiais, David, que escapa de uma instituição com ajuda de sua amiga Georgina, papel de Lisa Gerrard. 
Lisa participou em várias trilhas mas ficou em destaque como produtora de filme após gravação de The Insider em 1999, com Pieter Bourke, e Gladiator em 2000, com Hans Zimmer. Em 2005 colaborou com Ennio Morricone no filme Fateless.


Lisa Gerrard 


"A pintura transforma o espaço em tempo; a música, o tempo em espaço." 




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