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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

"Ai, pudesse eu ser pintor" - Poema de José Jorge Letria


George Segal (american, 1924-2000), Blue nude on a black bed, 1976



Ai, pudesse eu ser pintor


Ai, pudesse eu ser pintor e verter
numa folha impressa, limpa, as cores todas
que a cidade me reserva no seu bojo
de água clara e luz aquietada rente
aos muros das hortas e às paredes rosa velho
dos prédios da memória da infância.

Ai, pudesse eu transfigurar-me em ave
daquelas que salpicam em voo o cetim
azul das tardes e pintaria a golpes de asa
uma outra vocação que não a minha, talvez
a tonitruante vocação dos hereges, dos
revoltosos, dos anunciadores de tudo
o que se muda e se transforma; outro
desígnio não quereria ter a não ser este:
o de me fazer na cor comum do que vejo e sinto.




«Love me little, love me long». Há muita verdade neste lindo provérbio inglês. O que é violento é perecível. O que é calmo é duradouro. Um amor brusco e irrefletido, e com natureza de chama participaria da essência dessa primeira ilusão de que eu falei há pouco, e estaria condenado, como toda a chama, a consumir-se a si mesmo. É necessário que as coisas cresçam devagar e lentamente — para que durem muito. 


Eça de Queirós, in Correspondência

sábado, 19 de novembro de 2016

"Solidão" - Poema de Helena Kolody


Théodore Ralli (1852-1909), Eavesdropping, 1880 



Solidão


Estamos sempre sozinhos
Em nossas horas maiores.

A dor, veneno latente,
Corrói-nos a alma em segredo.

A mais gloriosa alegria
Floresce na solidão.


in A Sombra no Rio, 1951



Théodore Ralli, A Greek Beauty (Greece, c.1890)


"Em arte, a copiosa, exuberante, luxuosa e florida fantasia cansa, esquece e passa - e só há eternidade para a beleza pura e simples."



sexta-feira, 5 de junho de 2015

"Soneto a Vera" - Poema de Alberto da Costa e Silva


An He (Guangzhou, China, 1957), A beautiful day



Soneto a Vera 


Estavas sempre aqui, nesta paisagem. 
E nela permaneces, neste assombro 
do tempo que só é o que já fomos, 
um céu parado sobre o mar do instante. 

Vives subitamente em despedida, 
calma de sonhos, simples visitante 
daquilo que te cerca e do que fica 
imóvel no que é breve, pouco e humano. 

As regatas ao sol vêm da penumbra 
onde abria as janelas. E de então, 
vou ao campo de trevo, à tua espera. 

O que passa persiste no que tenho: 
a roupa no estendal, o muro, os pombos, 
tudo é eterno quando nós o vemos. 



 in 'A Roupa no Estendal, o Muro, as Pombas'




Pintura de An He


An He nasceu em 1957, em Guangzhou, China, numa família de artistas. Foi atraído para as artes desde jovem, e teve como professor seu próprio pai, um artista muito respeitado e professor de Arte em Guangzhou. Mais tarde estudou na Faculdade de Belas Artes de Guangzhou, uma das escolas superiores de artes na China. Enquanto frequentava a Academia, foi convidado a participar do "All China Artist Association", uma organização só para artistas profissionais. Então com 24 anos, ele era o membro mais jovem da associação. Desde então, tem realizado exposições em várias cidades da China e centenas de ilustrações para revistas. Ganhou muitos prémios, além de ter três de suas obras adquiridas pelo governo chinês para o acervo permanente do Museu Nacional de Belas Artes de Pequim. Em 1985, mudou-se para os Estados Unidos (Nova Iorque), e, em 1988, fixou residência em San Francisco. Especialista em pintura figurativa, é conhecido por suas pinturas românticas de mulheres, geralmente capturadas num momento de contemplação. (daqui)


An He, Reflections of Summer



"O campo, na verdade, só é agradável com família, e toda a árvore é triste se na sua sombra não brinca uma criança." 



domingo, 8 de março de 2015

"O Homem e a Mulher"... de Victor Hugo


Alfred Stevens (1823-1906), Parisian Lady, 1867



O Homem e a Mulher


O homem é a mais elevada das criaturas.
A mulher é o mais sublime dos ideais.
Deus fez para o homem um trono;
Para a mulher um altar.

O trono exalta; o altar santifica.
O homem é o cérebro; a mulher o coração, o amor.
A luz fecunda; o amor ressuscita.
O homem é o génio; a mulher o anjo.

O génio é imensurável; o anjo indefinível.
A aspiração do homem é a suprema glória;
A aspiração da mulher, a virtude extrema.
A glória traduz grandeza; a virtude traduz divindade.

O homem tem a supremacia; a mulher a preferência.
A supremacia representa força.
A preferência representa o direito.
O homem é forte pela razão; a mulher invencível pelas lágrimas.

A razão convence; a lágrima comove.
O homem é capaz de todos os heroísmos;
A mulher de todos os martírios.
O heroísmo enobrece; os martírios sublima.

O homem é o código; a mulher o evangelho.
O código corrige; o evangelho aperfeiçoa.
O homem é o templo; a mulher, um sacrário.
Ante o templo, nos descobrimos;

Ante o sacrário ajoelhamo-nos.
O homem pensa; a mulher sonha.
Pensar é ter cérebro;
Sonhar é ter na fronte uma auréola.

O homem é um oceano; a mulher um lago.
O oceano tem a pérola que embeleza;
O lago tem a poesia que deslumbra.
O homem é a águia que voa; a mulher o rouxinol que canta.

Voar é dominar o espaço; cantar é conquistar a alma.
O homem tem um fanal; a consciência;
A mulher tem uma estrela: a esperança.
O fanal guia, a esperança salva.

Enfim...
O homem está colocado onde termina a terra;
A mulher onde começa o céu...


Victor Hugo



Alfred Stevens, The Painter and His Model, 1855



 Pensamento 


"Não pode haver ligação de almas onde não exista identidade de ideias, de crenças e de costumes."

Eça de Queirós, Cartas Familiares de Paris 


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

"Nós Estamos num Estado Comparável à Grécia"... de Eça de Queirós, in 'Farpas (1872)'



(“A casa de Tormes”  foi o lugar de inspiração de Eça de Queirós para o livroA cidade e as serras.)



Nós Estamos num Estado Comparável à Grécia



"Nós estamos num estado comparável, correlativo à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa – citam-se ao par a Grécia e Portugal. Somente nós não temos como a Grécia uma história gloriosa, a honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal e o museu humano da beleza da arte."

Eça de Queirós, in 'Farpas (1872)'



A Casa de Tormes  em Stª Cruz do Douro onde  Eça de Queirós escreveu o livro a A cidade e as serras.” (Daqui)


'Vales lindíssimos, carvalheiras e soutos de castanheiros seculares, quedas de água, pomares, flores, tudo há naquele bendito monte. A quinta está situada num alto, num sítio soberbo - que abrange léguas de horizonte, e sempre interessante. (..) Logo adiante da casa, o monte desce até ao Douro, logo por trás da casa, o monte sobe até aos cimos onde há uma ermida.'


Eça de Queirós, Correspondência

Assim descreveu o mais famoso romancista português do séc. XIX a sua Quinta de Vila Nova (Tormes em "A Cidade e as Serras") hoje sede da Fundação Eça de Queirós. (Daqui) 




“Os vales fofos de verdura, os bosques quase sacros, os pomares cheirosos em flor, a frescura das águas cantantes, as ermidinhas branqueando nos altos, as rochas musgosas, o ar de uma doçura de paraíso, toda a majestade e toda a lindeza. Deixando resvalar o olhar observe os vales poderosamente cavados (...) os bandos de arvoredos, tão copados e redondos de um verde tão moço e sinta, por todo o lado, o esvoaçar leve dos pássaros.” 


terça-feira, 18 de junho de 2013

"Ser Poeta" - Poema de Florbela Espanca


Albert Lynch, Portrait d'une femme, 1895



Ser Poeta


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!


(1894-1930)



Ser Poeta de Florbela Espanca - Cantado por Luís Represas 


"A canção, expressão da melancolia, do amor, do entusiasmo, só morrerá se estes sentimentos morrerem; ela é, como o suspiro, como o grito, um dos movimentos naturais da alma."


Escritor português, 
1845-1900

segunda-feira, 17 de junho de 2013

"Ondas de Solidão" - de Eça de Queirós


Albert Bierstadt, The Shore of the Turquoise Sea, 1878



Ondas de Solidão


«Se possuísse uma canoa e um papagaio, podia considerar-me realmente como um Robinson Crusoé, desamparado na sua ilha. Há, é verdade, em roda de mim uns quatro ou cinco milhões de seres humanos. Mas, que é isso? As pessoas que nos não interessam e que se não interessam por nós, são apenas uma outra forma da paisagem, um mero arvoredo um pouco mais agitado. São, verdadeiramente como as ondas do mar, que crescem e morrem, sem que se tornem diferenciáveis uma das outras, sem que nenhuma atraia mais particularmente a nossa simpatia enquanto rola, sem que nenhuma, ao desaparecer, nos deixe uma mais especial recordação. Ora estas ondas, com o seu tumulto, não faltavam decerto em torno do rochedo de Robinson - e ele continua a ser, nos colégios e conventos, o modelo lamentável e clássico da solidão.» 

Eça de Queirós, in 'Correspondência'




Albert Bierstadt (January 7, 1830 – February 18, 1902) was a German - American painter best known for his lavish, sweeping landscapes of the American West.


Albert Bierstadt, Beach at Nassau


Albert Bierstadt, Storm in the Mountains, c.1870


Albert Bierstadt, Yosemite Valley, Yosemite Park, c.1868


Albert Bierstadt, Mount Corcoran, 1876-77


Albert Bierstadt, Staubbach Falls, Near Lauterbrunnen, Switzerland, 1865


Albert Bierstadt, Yosemite Valley, Yosemite Park, c.1868


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

"L'été au Portugal" - Poema de Jorge de Sena







L'été au Portugal


Que esperar daqui? O que esta gente
não espera porque espera sem esperar?
O que só vida e morte
informes consentidas
em todos se devora e lhes devora as vidas?
O que quais de baratas e a baratas
é o pó de raiva com que se envenenam?

Emigram-se uns para as Europas
e voltam como se eram só mais ricos.
Outros se ficam envergando as opas
de lágrimas de gozo e sarapicos.

Nas serras nuas, nos baldios campos,
nas artes e mesteres que se esvasiam,
resta um relento de lampeiros lampos
espanejando as caudas com que se ataviam.

Que Portugal se espera em Portugal?
Que gente ainda há de erguer-se desta gente?
Pagam-se impérios como o bem e o mal
- mas com que há de pagar-se quem se agacha e mente?

Chatins engravatados, pelenguentas fúfias
passam de trombas de automóvel caro.
Soldados, prostitutas, tanto rapaz sem braços
ou sem as pernas - e como cães sem faro
os pilhas poetas se versejam trúfias.

Velhos e novos, moribundos mortos
se arrastam todos para o nada nulo.
Uns cantam, outros choram, mas tão tortos
que a mesquinhez tresanda ao mais singelo pulo.

Chicote? Bomba? Creolina? A liberdade?
É tarde, e estão contentes de tristeza,
sentados em seu mijo, alimentados
dos ossos e do sangue de quem não se vende.

(Na tarde que anoitece o entardecer nos prende).



Jorge de Sena, 
1919-1978
Lisboa, Agosto de 1971, In "Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial"






"ORDINARIAMENTE todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações e são excelentes convivas. Porém são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a conceção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o ESTADISTA. É assim que há muito tempo em Portugal, são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?"


(Eça de Queiroz, 1867 in "O distrito de Évora")




sábado, 2 de fevereiro de 2013

"As Farpas" - Crónica de Eça de Queirós


Frederick Childe Hassam - Bornero Hill, Old Lyme, Connecticut



" (...) O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já se não crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Todo o viver espiritual, intelectual, parado. O tédio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce... O comércio definha, A indústria enfraquece. O salário diminui. A renda diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
Neste salve-se quem puder a burguesia proprietária de casas explora o aluguel. A agiotagem explora o juro…(…)"
 

Eça de Queiros publicou suas "As Farpas" em 1890, com o título de Uma Campanha Alegre.
 


Childe Hassam

 Childe Hassam - Boy with Flower Pots


 Childe Hassam - Lumbering


Childe Hassam - La Val de Grace, Spring Morning


 Childe Hassam - Hollyhocks,  Isles of Shoals


 Childe Hassam - The Gorge, Appledore, Isles of Shoals


 Childe Hassam - Rue Montmartre, Paris


 Childe Hassam - Mount Hood and the Valley of the Willamette


Childe Hassam - Rocky Beach, Appledore


 Childe Hassam - Isles of Shoals, Broad Cove, 1911


 Childe Hassam - An Outdoor, Portrait of Miss Weir


Childe Hassam - Reading


Childe Hassam - Northeast Headlands, Appledore


 Childe Hassam - Isles of Shoals Garden, (The Garden in Its Glory)


 Childe Hassam - Fifth Avenue at Washington Square Sun


 Childe Hassam - Mrs Hassam in the Garden

domingo, 7 de outubro de 2012

"Contos"... de Eça de Queirós


Marcel Duchamp (1917), Fonte (urinol) 



Maravilhosa invenção!

Ao fundo, e como um altar-mor, era o gabinete de trabalho de Jacinto. A sua cadeira, grave e abacial, de couro, com brasões, datava do século XIV, e em torno dela pendiam numerosos tubos acústicos, que, sobre os panejamentos de seda cor de musgo e cor de hera, pareciam serpentes adormecidas e suspensas num velho muro de quinta. Nunca recordo sem assombro a sua mesa, recoberta toda de sagazes e subtis instrumentos para cortar papel, numerar páginas, colar estampilhas, aguçar lápis, raspar emendas, imprimir datas, derreter lacre, cintar documentos, carimbar contas! Uns de níquel, outros de aço, rebrilhantes e frios, todos eram de um manejo laborioso e lento: alguns, com as molas rígidas, as pontas vivas, brilhavam e feriam: e nas largas folhas de papel Whatman em que ele escrevia, e que custavam quinhentos réis, eu por vezes surpreendi gotas de sangue do meu amigo. Mas a todos ele considerava indispensáveis para compor as suas cartas (Jacinto não compunha obras), assim como os trinta e cinco dicionários, e os manuais, e as enciclopédias, e os guias, e os directórios, atulhando uma estante isolada, esguia, em forma de torre, que silenciosamente girava sobre o seu pedestal, e que eu denominara o Farol. O que, porém, mais completamente imprimia àquele gabinete um portentoso carácter de civilização eram, sobre as suas peanhas de carvalho, os grandes aparelhos, facilitadores do pensamento — a máquina de escrever, os autocopistas, o telégrafo Morse, o fonógrafo, o telefone, o teatrofone, outros ainda, todos com metais luzidios, todos com longos fios. Constantemente sons curtos e secos retiniam no ar morno daquele santuário. Tique, tique, tique! Dlim, dlim, dlim! Craque, craque, craque! Trrre, Trrre, Trrre!... Era o meu amigo comunicando. Todos esses fios mergulhados em forças universais transmitiam forças universais. E elas nem sempre, desgraçadamente, se conservavam domadas e disciplinadas! Jacinto recolhera no fonógrafo a voz do conselheiro Pinto Porto, uma voz oracular e rotunda, no momento de exclamar com respeito, com autoridade:
— Maravilhosa invenção! Quem não admirará os progressos deste século? 

Eça de Queirós, Civilização, 1892.



Vida e Obra de Marcel Duchamp

Marcel Duchamp, 1913, Roda de Bicicleta.  Dadaismo

Marcel Duchamp foi um importante pintor, escultor e poeta francês. Nasceu em 28 de julho de 1887 na cidade francesa de Blainville-Crevon e faleceu em 2 de outubro de 1968, na cidade de Nova Iorque. É um dos grandes representantes do movimento artístico conhecido como dadaísmo.



Marcel Duchamp

Marcel Duchamp, aos 14 anos de idade, pintou suas primeiras obras com grande influência impressionista. Aos 16 anos de idade deixou a casa da família e foi morar em Paris com seu irmão. Nesta época, tentou entrar na Escola de Belas Artes, porém foi reprovado no exame. Foi então estudar artes na Academia Julian.
Entre 1906 e 1907 fez vários trabalhos de conotação humorística. Em 1907, cinco de seus trabalhos foram selecionados para o Primeiro Salão de Artistas Humoristas.
A partir de 1911 começou a pintar telas com influência cubista. É desta fase a obra Sonata. Ainda neste ano cria sua primeira obra inovadora, com influência cubista, Retrato de jogadores de xadrez.
Em 1913 criou o ready-made (manifestação artística que rompe com o tradicional e pega objetos práticos para transforma-los em obras de arte). Maior exemplo é a obra Fonte, criada em 1917, a partir de um urinol. Porém, sua primeira obra ready-made, Roda de bicicleta sobre um banquinho, foi criada em 1913.
 Em 1915, foi morar na cidade de Nova Iorque.  Em 1916, surgiu o dadaísmo e Duchamp passou a fazer parte do grupo de artistas dadaístas de Nova Iorque.
 Em 1920, viajou para Paris e entrou em contato com artistas dadaístas europeus, entre eles André Breton.


Marcel Duchamp

No começo da década de 1920, participou de vários torneios de xadrez, outra área que demonstrava grande interesse, além das artes plásticas. Em 1927 casou-se com Lydie Sarrazin-Levassor. Porém divorciou-se no ano seguinte. Em 1933 participou de seu último torneio de xadrez. Em 1955, Duchamp nacionalizou-se estadunidense.

Marcel Duchamp playing chess in 1952. 
(Kay Bell Reynal photo in the Smithsonian Institution Archives of American Art.)

Marcel Duchamp foi um dos precursores da arte conceitual e introduziu a ideia de ready made como objeto de arte. Quando tirava uma peça de seu ambiente natural - como fez com uma roda de bicicleta e um banquinho de madeira ou até com uma louça de sanitário masculino (urinol) - e dava aos objetos a envergadura de um objeto de arte, o que desejava era instigar o pensamento, provocar um raciocínio, destruir a quietude das coisas aceites e estabelecidas. Ele contribuiu para o infindável debate entre o que é e o que não é arte. 

Marcel Duchamp, 1919, L.H.O.O.Q. 
(Lápis sobre uma gravura de Mona Lisa de Leonardo da Vinci)

Quando pintou bigodes na Mona Lisa de Leonardo da Vinci, colocava nitidamente o seu desprezo pela arte clássica. Colocar a Mona Lisa  e um urinol no mesmo patamar é uma provocação. Duchamp foi um provocador. Com o seu posicionamento, Duchamp não buscava o belo nem a aprovação do público. Ele procurava o âmago das emoções humanas, as reações instintivas. Disse na época:“Transformar todas as pequenas manifestações externas de energia, em excesso ou desperdiçadas, como por exemplo, o crescimento dos cabelos ou das unhas, a queda da urina ou das fezes, os movimentos impulsivos do medo, do assombro, do riso, a queda da lágrima, os gestos da mãos, o olhar frio, o ronco ao se dormir, a ejaculação, o vómito, o desmaio, etc".


Marcel Duchamp, Bottlerack, 1914

O que o artista propunha era uma arte conceitual, na qual a ideia era mais importante que a execução da obra pelas mãos do artista. Daí a sua série ready-made (o transporte de um elemento da vida quotidiana, a priori não reconhecido como artístico, para o campo das artes), objetos industriais que ele expunha como obra de arte. Ele pretendia despertar uma nova maneira de ver o mundo e as coisas.



Marcel Duchamp, A grande imagem de vidro, 1915 – 1923



A obra de Duchamp deixou um legado importante para as experimentações artísticas subsequentes, tais como o Dadaísmo, o Surrealismo, o Expressionismo Abstrato, a Arte Conceitual, entre outros.





Marcel Duchamp. Nude Descending a Staircase, No. 2 (1912). Oil on canvas.


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

"A Arte" - de Eça de Queirós


Frederic Leighton, The painter's Honeymoon 



A Arte


«Mas Gorjão ultimamente desprezava todas essas ideias: achava-as imorais. A arte, segundo ele, devia educar pela representação das acções justas - e não pela exposição de luxos corruptores (...).
Vítor encontrou-o desenhando à luz de um candeeiro de petróleo, coberto com um abat-jour verde, que fazia cair uma luz crua sobre uma larga folha de papel, riscado de grossos traços confusos de craião (...).
A arte não era senão isto - uma força da natureza: e como tal devia ser aproveitada em proveito da civilização (...).
A arte deve ser essencialmente revolucionária. Um quadro deve ser um livro: deve ser um panfleto: deve ser um artigo de jornal. E tudo isto meu amigo, num processo de pintura novo: nada do acabado, do estudado, do amaneirado, do trabalhado da pintura de luxo, da decoração. Não, não. A pintura não é nada - a ideia é tudo. Traços largos, sombras indicadas, tons sóbrios, que dêem a impressão exata da realidade. Pif, paf - e dava grandes pinceladas no ar - a expressão! A expressão é tudo! Com três borrões de tinta pinto-te um agiota». 

 Eça de Queirós, in Tragédia da Rua das Flores, c. 1878 (ed. 1980).



Galeria de Frederick Leighton
Self portrait of Frederic Leighton (1880)


Frederic Leighton, (03 de dezembro de 1830 - 25 de Janeiro de 1896), conhecido como Sir Frederic Leighton, foi um famoso pintor e escultor Inglês que retratou obras bíblicas, temas históricos e grandes clássicos, entre outros.
Frederic Leighton nasceu em Scarborough e foi educado na University College School, de Londres. Aos 24 anos foi estudar para a Accademia di Belle Arti na Florença. Entre 1855 e 1859, em Paris, conheceu Ingres, Delacroix, Corot e Millet. Em 1860 mudou-se para Londres, associando-se aos pré-rafaelitas. Em 1864 tornou-se um associado da Royal Academy e em 1878 tornou-se seu presidente. Em 1896, Frederic Leighton foi o primeiro pintor a receber um título de nobreza  tornando-o Barão de Stretton em Shropshire, mas no dia seguinte morreu de angina de peito.
Frederic Leighton, além de ser a principal figura na arte Inglesa, na segunda metade do século XIX, foi um dos maiores ingleses do seu tempo. Ele era um homem de princípios, inteligente, com grande capacidade para o trabalho, amigo solidário com a comunidade judaica na Inglaterra, um excelente pianista e cantor. Ele era um homem elegante, um linguista, que falou pelo menos cinco línguas fluentemente. Sua generosidade de espírito foi amplamente reconhecida. Suas pinturas representaram a Grã-Bretanha na grande Exposição de Paris de 1900.
Sua casa em Holland Park, em Londres, foi transformada num museu, a Leighton House Museum.



 Frederick Leighton, Mrs James Guthrie


Frederic Leighton, Golden Hours



Frederic Leighton, Flaming june, 1895


"Flaming June", uma das obras mais famosas de Leighton, foi exibida na Royal Academy em 1895, apenas um ano antes de sua morte.



Frederick Leighton, Idyll, 1880


Frederic Leighton, Odalisque, 1862



Frederick Leighton, A Condessa Brownlow


Frederick Leighton, Perseus and Andromeda


Frederick Leighton, Jonathans token to David


Frederick Leighton, Daedalus and Icarus


 Frederick Leighton,The Fisherman and the Siren 


Frederick Leighton, Psamathe,1880

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