Mostrar mensagens com a etiqueta Edmundo de Bettencourt. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Edmundo de Bettencourt. Mostrar todas as mensagens

domingo, 30 de dezembro de 2018

"Vigília" - Poema de Edmundo Bettencourt


Joaquín Sorolla, Louis Comfort Tiffany, 1911, The Hispanic Society of America, New York



Vigília


 No panorama de frio
jazia cristalizado o voo dos gaviões.

Ao seu encontro ia fremente
o respirar da terra quente quase adormecida.

Fluía um riso irónico das dentaduras alvas da neblina
para bocas de ouvidos,
olhos de bocas.

Surgiu então coberto de silêncio
o homem que desde sempre morrera trucidado.

O seu sangue caía enquanto andava.
Das gotas pelo chão se levantaram logo as árvores de fogo
dentro em pouco a floresta incendiária
de todo o frio que o chamava.

E antes que soprasse a ventania
a borboleta colorida foi queimada.

Mas antes que o sol humidamente
repousasse num clarão de olhos fechados,
as cinzas de pirâmides se espalhavam
indo ferir o enorme olho esbugalhado
que de aquém fitava um espaço maior! 


Edmundo Bettencourt
, in 'Poemas Surdos'



quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

"Ar Livre" - Poema de Edmundo Bettencourt


Alfred Sisley, Snow on the Road Louveciennes, 1874



Ar Livre


Enquanto os elefantes pela floresta galopavam
no fumo do seu peso,
perto, lá andava ela nua a cavalgar o antílope,
com uma asa direita outra caída.
E a amazona seguia...
e deixava a boca no sumo das laranjas.
Os olhos verdes no mar.
O corpo em a nuvem das alturas
- a guardadora
da sempre nova faísca incendiária! 



Edmundo Bettencourt,
in 'Antologia Poética'
 
 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

"Poema de Amor" - de Edmundo Bettencourt


François Batet (Espanha, 1921-2015)



Poema de Amor


A noite é cheia de vales e baías. 
E do meu peito aberto um rio largo de sangue... 
Águas densas, de correntes lentas, 
serpentes mortas a arrastarem-se. 
Águas? 
Águas negras, pastosas, alcatrão rolante. 
Mas águas puras, verde-claras, atraindo 
a margem donde os crocodilos fogem mastigando. 
Águas em transparências lucilantes, para cima, 
e as estrelas do mar, um polvo e um mefistófeles 
ficam no ar sobre ilhéus e lodosos calhaus 
que se descobrem. 
Plantas brancas e extáticas... 
Lágrimas... nuvens... e a cabeça, o perfil, 
os olhos, todo o corpo da mulher amada, a prostituta 
antes de virgem, que é bela e feia, velha e nova, 
e não conhece os filhos! 

O fogo envolve essa mulher amada 
e é um guindaste erguendo-a e atirando-a, 
enquanto dispersas pelo chão brilham mandíbulas 
naturalmente à espera... 


Edmundo Bettencourt, in 'Poemas Surdos'





"Por pior que seja a noite, amanhã é outro dia.."



quarta-feira, 8 de abril de 2015

"Noite Vazia"... Poema de Edmundo Bettencourt


Vincent van Gogh (Post-Impressionism, 1853-1890), In the Bois de Boulogne, 1886



Noite Vazia


Crescimento do silêncio a devorar as nuvens. 
Voo incansável e monótono das aves brancas do cérebro. 
Florida e ondulada suspensão da mágoa. 
As ferocidades são ternuras desmaiando na estepe adivinhada. 
O amor abre goelas bocejantes nos côncavos da ausência do espaço. 
E a morte espreitando a lentidão 
irradia baçamente a sua despedida. 

Noite vazia. 

As aves brancas do cérebro 
inutilmente abatem as suas asas! 


Edmundo Bettencourt, in 'Poemas Surdos'

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

"O Segredo e o Mistério"... poema de Edmundo Bettencourt


Claude Monet, Impression, soleil levant, 1872


Impression, soleil levant, traduzido para português Impressão, nascer do sol, é a mais célebre e importante obra do impressionista Claude Monet. É um óleo sobre tela, datado de 1872 (mas provavelmente realizado em 1873), que representa o nascer da matina no porto de Havre, com uma cerrada névoa sobre o estaleiro, os barcos e as chaminés no fundo da composição. A partir desta tela nasceu o movimento impressionista. Está exposta no Museu Marmottan.




O Segredo e o Mistério



Mistérios a pouco e pouco vão morrendo 
e extenuados de vigília os anjos 
são afinal a sussurrantes sibilinas vozes 
que desvendam adivinham segredos 
atrás de sentinelas 
cuja ferocidade é uma ironia de ternura… 
Na palidez da luz 
cercando uma velha cabeça 
a quem um sono de embrião já tolda os olhos 
sorriem enigmáticos os sonhos. 



Edmundo Bettencourt, in 'Antologia Poética'



Air - Johann Sebastian Bach

terça-feira, 12 de agosto de 2014

"Leitura"... Poema de Edmundo de Bettencourt



José Navarro Llorens (pintor espanhol,1867-1923), Ameaça de naufrágio, 1894,
 óleo sobre tela (Carmen Museu Thyssen, Málaga)

Leitura


Havia luz em uns instantes surgidos
na minha vida,
que a mesma vida apagava.
E a pobre realidade
era uma cinza...
...já nada me recordava 
se, de entre ela, uma faúlha
não me queimasse os sentidos.

O fogo das queimaduras
é dor que nunca me passa!
E é esta que me ressurge
um pouco dessa luz-alma
de tantos momentos idos...

A inquieta luz, sempre de agora,
que ao mundo nada desvenda,
a mim diz certa verdade,
a chã naturalidade
nas coisas vãs da legenda.

Talvez ninguém me acredite,
e se ria,
quando grave eu me recite.

Mas recitar-me, cantar,
mesmo cansada a memória,
teria de acontecer:
é comigo,
bem viva enquanto eu viver,
a minha inútil história.”


Edmundo de Bettencourt





Poemas de Edmundo de Bettencourt


A edição rapidamente esgotada, em 1963, dos Poemas de Edmundo de Bettencourt (obra completa do autor, 1930-1962), causou polémica junto da crítica, não tanto - como deveria ter sido - pela revelação de um percurso poético original e independente, mantido em silêncio durante trinta e três anos, mas sobretudo pelas palavras corajosas com que Herberto Helder apresentava o autor. Nesse conhecido e rebatido prefácio, o jovem autor de O Amor em Visita põe em relevo o carácter subversivo e precocemente surrealista da escrita de Edmundo de Bettencourt relativamente a dois movimentos, o presencista e o neorrealista, ambos, e por diferentes modos, responsáveis pelo adiamento da modernidade e dos princípio revolucionários já contidos em Orpheu
Para Herberto Helder a libertação da herança de Presença, neste autor que integrou a direção da revista coimbrã, ainda visível em O Momento e a Legenda, manifesta-se na recusa de um certo "narrativismo presencista", em benefício de um nexo "mais de sugestão do que de narração" (cf. HELDER, Herberto - "Relance sobre a Poesia de Edmundo de Bettencourt", prefácio a Poemas de Edmundo de Bettencourt, Lisboa, Portugália, 1963, p. XX), onde "o encontro coma imagem" permite a apreensão de novas dimensões da realidade, pela capacidade de "fusão de antinomias", através de um processo pelo qual "o tema desaparece, ou fragmenta-se, ou somente se insinua, ambíguo ou pré-textual, apenas." (id. ib., p. XXI). Com pontos de contacto com o imagismo anglo-americano, o surrealismo francês ou a "lição rimbaldiana", Herberto Helder assinala, assim, nas composições de Bettencourt, o "insólito das imagens e metáforas, o clima sufocante, a obliquidade da emoção, a medida onírica, o delírio gelado e noturno" e a conquista de uma modernidade firmada em termos de criação que dota o poema de "existência própria, independentee suficiente como um corpo". Numa fase posterior, ainda segundo o mesmo crítico, Bettencourt terá evoluído para uma fase caracterizada por uma maior vigilância e objetividade, mas onde a "economia irónica" não despreza, contudo, "o exercício libertário da imaginação".

Poemas de Edmundo de Bettencourt. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-08-11].



Galeria de José Navarro Llorens
José Navarro LlorensIn the Garden



José Navarro Llorens, The bathing boy



José Navarro Llorens, Children on the Beach, 1912-1915



José Navarro LlorensOrienalist landscape



José Navarro Llorens,  A rainy day, 1899



José Navarro LlorensA Bustling Street, 1910




José Navarro Llorens, Self-Portrait


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

"Aparição"... Poema de Edmundo de Bettencourt


Absurdist painting by Michael Cheval



Aparição


A mulher que por mim passou na rua, há pouco, 
foi uma coisa diáfana, gentil, 
cedo, a pairar 
na sombra dum jardim 
com flores, em baixo, ajoelhadas, 
ao senti-la na altura, 
e mandando-lhe o aroma em lágrimas, desfeito, 
para mantê-la em uma nuvem branca... 

Mulher, coisa diáfana, vaga e bela, sem desenho, 
logo fluido animando o colo duma nuvem, nuvem, 
num ápice, trucidada pelo vento! 


Edmundo Bettencourt, in 'Rede Invisível'




Edmundo de Bettencourt


Edmundo  de Bettencourt foi um escritor português, nascido a 7 de agosto de 1899, no Funchal, e falecido em 1973, em Lisboa, notavelmente conhecido por interpretar Fado de Coimbra.
Frequentou a Faculdade de Direito de Coimbra, foi funcionário público, até ser despedido por o seu nome figurar entre os milhares designatários das listas do MUD, desenvolvendo, então, a atividade de delegado de propaganda médica. Integrou o grupo fundador de Presença, cujo título sugerira, e em cujas edições publica O Momento e a Legenda. Dissocia-se do grupo presencista em 1930, subscrevendo com Miguel Torga e Branquinho da Fonseca uma carta de dissensão, onde é acusado o risco em que a revista incorria de enquadrar o "artista em fórmulas rígidas", esquecendo o princípio de "ampla liberdade de criação" defendido nos primeiros tempos" (cf. "OModernismo em Portugal", entrevista de João de Brito Câmara a Edmundo de Bettencourt, reproduzida in A Phala, n.° 70, maio de 1999, p.114). 
A redação de Poemas Surdos, entre 1934 e 40, alguns dos quais publicados na revista lisboeta Momento, permite antedatar o surto do surrealismo em Portugal, enquanto adesão a um "sistema de pensamento, no que ele tem de fuga à chamada realidade, repúdio dos valores duma civilização e esperança de ação num domínio onde por tradição ela é quase sempre negada" (id. ib., p. 115), embora não seja possível esclarecer com especificidade qual foi o conhecimento que Bettencourt teve da lição surrealista francesa. 
Frequentou os cafés Royale Gelo, onde se reuniu a segunda geração surrealista, vindo a publicar seis inéditos no n.° 3 da revista Pirâmide, em cujas páginas, entre 59 e 60, foram dadas à luz algumas das produções do grupo do Gelo
Publicou ainda esparsamente outros poemas em Momento, Vértice, Búzio. Depois de um silêncio, que deve ser compreendido não como desistência "mas sim [como] uma peculiar forma de revolta que o poeta defende carinhosamente" (cf. MARGARIDO, Alfredo - in Pirâmide, n.° 3, dezembro de 1960), colige toda a sua produção, permitindo a edição, em 1963, dos Poemas de Edmundo de Bettencourt, prefaciados por Herberto Hélder, poeta que, pela primeira vez, faz justiça à originalidade do autor de Poemas Surdos, considerando-o "uma das pouquíssimas vozes modernas entre o milagre do Orpheu e o breve momento surrealista português" (HELDER, Herberto - "Relance sobre a Poesia de Edmundo de Bettencourt", prefácio a Poemas de Edmundode Bettencourt, Lisboa, Portugália, 1963, p. XXXII). 
Com efeito, o versilibrismo, o imagismo e certa atmosfera onírica e irreal conferem à sua poesia um lugar de destaque no segundo modernismo, estabelecendo, simultaneamente, a ponte com o vanguardismo de Orpheu e com tendências surrealistas e imagistas verificadas em gerações posteriores à Presença.

Edmundo de Bettencourt. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-08-11].




Michael Cheval


Michael Cheval é um artista contemporâneo especializada em pinturas e desenhos absurdistas. Em sua definição, "absurdo" é o inverso da realidade, o reverso da lógica. Ela não surge a partir dos sonhos dos surrealistas ou do trabalho do subconsciente. É um jogo de imaginação, onde todos os laços são cuidadosamente escolhidos para a construção de uma trama literária. Qualquer uma das pinturas de Cheval é um mapa de sua jornada em ilusão. Seu trabalho é muitas vezes metafórico e requer um olho afiado para decifrar as alusões muitas vezes ocultos. 

Nascido em 1966 em Kotelnikovo, uma pequena cidade do sul da RússiaUnião Soviética, Cheval desenvolveu paixão pela arte em sua infância. Quando sua família se mudou para a Alemanha em 1980, o ocidente e a cultura europeia tiveram um grande impacto sobre o jovem artista. Em 1986, mudou-se para o Turquemenistão e se formou na escola Ashgabad de Belas Artes. Absorvendo a filosofia oriental e do caráter da Ásia Central, começou a trabalhar como artista profissional, moldando seu estilo e direção surrealista. Sua decisão de imigrar para os EUA em 1997 iniciou uma nova fase para o artista. Ele voltou-se para a cultura ocidental que muito o inspirou em sua juventude alemã, mas agora com sua própria experiência, filosofia e visão.

Michael Cheval-official website: Surrealistic Oil Paintings 



Michael Cheval, Roll Over Beethoven, 2014



Michael Cheval, Anna II, 2014



Michael Cheval, Down to Earth


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...