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sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

"Dimensões" - Poema de Laura Riding


Edvard Munch, Anxiety, 1894, 94 × 74 cm. 



Dimensões


Meçam-me para um funeral 
Com minha cova rasa expressando 
De um jeito preciso, euclidiano, 
Meu ser tridimensional. 

Pode ser a vida tão pequena, tão magra? 
Meça-me no tempo. Mas o tempo não avança 
E é estranho e nada sabe de lei ou de mudança 
Mas só de morte, que é nada de nada. 

Meçam-me pela beleza. 
Mas beleza é o primeiro nome que a morte 
Deu à vida, seu primeiro falecer, chama 
Que tremeluz, um amaranto que se apaga 
E se apaga de novo na sombra mortiça da morte. 

Meçam-me não pela beleza, que teme lutar. 
Pois a beleza faz trégua com a morte, 
Comprando desonra e morte eterna 
Na esperança de sobreviver a vida. 

Meçam-me então pelo amor – mas não ainda, 
Pois lembro-me de vezes em que ele buscava 
Suas próprias medidas em mim, 
Mas fugiu, com medo que eu pudesse predizer 
Quão ampla e alta eu mesma era, profunda 
E de múltiplas medidas, mudando 
Minha escala sobre ele e assim provando 
Que tanto eu quanto ele éramos nada. 

Meçam-me por mim mesma 
E não pelo tempo nem amor nem espaço 
Nem pela beleza. Dêem-me só esta última graça: 
Que em minha lápide eu possa 
Ser uma régua eu mesma. 
Não gostaria que essas velhas crenças fracassassem 
E provassem que até eu era nada. 


Tradução de Rodrigo Garcia Lopes



quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

"A Fúria mais Fatal e mais Medonha" - Poema de Francisco Joaquim Bingre


Edvard Munch, "Jealousy", 1895, óleo sobre tela



A Fúria mais Fatal e mais Medonha


Das Fúrias infernais foi sempre a Inveja 
No mundo a mais fatal e a mais medonha, 
Pois faz dos bens dos outros a peçonha 
Com que a si mesma se envenena e peja. 

Com ira e com furor, raivosa, arqueja, 
Com vinganças, traições, com ódios sonha. 
Onde quer que se encoste e os olhos ponha, 
Tragar as ditas dos mortais deseja. 

Mãe dos males fatais à Sociedade, 
Vidas, honras destrói, cismas fomenta, 
Nutrindo na alma as serpes da Maldade. 

O próprio coração que come a alenta, 
Vive afogada em ondas de ansiedade, 
Da frenética raiva se alimenta.


Francisco Joaquim Bingre
(1763-1856)
in 'Sonetos'


domingo, 8 de novembro de 2015

"Viver é não Saber que se Vive" - de Florbela Espanca


Edvard Munch, Melancholy, National Gallery, Oslo




Viver é não Saber que se Vive


"Ponho-me, às vezes, a olhar para o espelho e a examinar-me, feição por feição: os olhos, a boca, o modelado da fronte, a curva das pálpebras, a linha da face... E esta amálgama grosseira e feia, grotesca e miserável, saberia fazer versos? Ah, não! Existe outra coisa... mas o quê? Afinal, para que pensar? Viver é não saber que se vive. Procurar o sentido da vida, sem mesmo saber se algum sentido tem, é tarefa de poetas e de neurasténicos. Só uma visão de conjunto pode aproximar-se da verdade. Examinar em detalhe é criar novos detalhes. Por debaixo da cor está o desenho firme e só se encontra o que se não procura. Porque me não esqueço eu de viver... para viver?" 

(20-04-1930)



domingo, 6 de setembro de 2015

"A Tempo" - Poema de Vitorino Nemésio


August Strindberg, (Swedish, 1849-1912), The Birch Tree (Autumn), 1902.



A Tempo


A tempo entrei no tempo, 
Sem tempo dele sairei: 
Homem moderno, 
Antigo serei. 
Evito o inferno 
Contra tempo, eterno 
À paz que visei. 
Com mais tempo 
Terei tempo: 
No fim dos tempos serei 
Como quem se salva a tempo. 
E, entretanto, durei. 

in 'O Verbo e a Morte



August Strindberg,The Town, 1903 


Johan August  Strindberg (Estocolmo, 22 de janeiro de 1849 — Estocolmo, 14 de maio de 1912) foi um dramaturgo, romancista, ensaísta, contista e pintor sueco.
É autor, entre outros, de O Pelicano. Figura ao lado de Henrik IbsenSøren Kierkegaard e Hans Christian Andersen como os maiores escritores escandinavos. É um dos pais do teatro moderno. Seus trabalhos são classificados como pertencentes aos movimentos literários naturalista e expressionista.



Retrato de August Strindberg, 1892, por Edvard Munch,

terça-feira, 10 de abril de 2012

"Letreiro" - Poema de António Sardinha


Edvard Munch - "O Grito" (The Scream,1893)



Letreiro


Tudo o que sou o sou por obra e graça 
da comoção rural que está comigo. 
Foi a virtude lírica da Raça 
a herança que eu herdei do sangue antigo.

Foi esta voz que em minhas veias passa 
e atrás da qual, maravilhado eu sigo. 
Como um licor de encanto numa taça, 
assim se quer esse condão comigo.

Olhai-me: – Eu vim de honrados lavradores. 
De avós e netos, sempre os meus Maiores 
fitaram o horizonte que hoje eu fito.

«O que estaria além da curva estreita?» 
– E da pergunta, a cada instante feita. 
nasceu em mim a ânsia prò Infinito.


António Sardinha, A Epopeia da Planície 



António Sardinha


António Maria de Sousa Sardinha (Monforte, 9 de Setembro de 1887 — Elvas, 10 de Janeiro de 1925) foi um político e poeta português. 
Destacou-se como ensaísta e argumentador, produzindo uma obra que se afirmou como a principal referência doutrinária do Integralismo Lusitano. A sua defesa de uma monarquia tradicional, orgânica, antiparlamentar serviu de inspiração a uma influente corrente do pensamento político português da primeira metade do século XX. 
António Sardinha foi um adversário da Monarquia da Carta (1834-1910) chegando, no tempo de estudante na Universidade de Coimbra, a defender a implantação de uma República Portuguesa. Depois de 5 de Outubro de 1910, profundamente desiludido, acabou por se converter ao ideário realista da monarquia orgânica. 
A lusitana antiga liberdade do verso de Luís de Camões era uma referência dos integralistas, tendo no municipalismo e no sindicalismo duas palavras-chave de um ideário político que não dispensava o Rei, entendido como o Procurador do Povo e o melhor garante e defensor das liberdades republicanas. 
António Sardinha era anti-iberista. Em vez da fusão dos Estados de Portugal e de Espanha, propôs uma aliança entre todos os povos hispânicos, a lançar por intermédio de uma aliança entre os dois Estados da Península - Espanha e Portugal, ambos reconduzidos à monarquia. A Aliança Peninsular entre as duas Monarquias seria, na sua perspectiva, o ponto de partida para a constituição de uma ampla Comunidade Hispânica (dos povos de língua portuguesa e espanhola), a base mais firme onde assentaria a sobrevivência da civilização ocidental. António Sardinha morreu jovem, com apenas 37 anos. 

Obras poéticas: Tronco Reverdecido (1910), Epopeia da Planície (1915), Quando as Nascentes Despertam (1821), Na Corte da Saudade (1922), Chuva da Tarde (1923), Era uma Vez um Menino (1926), O Roubo da Europa (1931), Pequena Casa Lusitana (1937). Ensaio: O Valor da Raça (1915), Ao Princípio Era o Verbo (1924), Ao Ritmo da Ampulheta (1925), entre outras.

Edvard Munch em 1921 


Edvard Munch (Løten, 12 de Dezembro de 1863 — Ekely, 23 de Janeiro de 1944) foi um pintor norueguês, um dos precursores do expressionismo alemão. Edvard Munch frequentou a Escola de Artes e Ofícios de Oslo vindo a ser influenciado por Courbet e Manet. No lugar das ideias, o pensamento de Henrik Ibsen e Bjornson marcou o seu percurso inicial. A arte era considerada como uma arma destinada a lutar contra a sociedade. Os temas sociais estão assim presentes em O Dia Seguinte e Puberdade de 1886. Com A Menina doente (Das Kränke Mädchen - 1885) inicia uma temática que surgiria como uma linha de força em todo o seu caminho artístico. Fez inúmeras variações sobre este último trabalho, assim como sobre outras obras, e os seus sentimentos sobre a doença e a morte, que tinham marcado a sua infância (a mãe morreu quando ele tinha 5 anos, a irmã mais velha faleceu aos 15 anos, a irmã mais nova sofria de doença mental e uma outra irmã morreu meses depois de casar; o próprio Edvard estava constantemente doente), assumem um significado mais vasto, transformados em imagens que deixavam transparecer a fragilidade e a transitoriedade da vida. Edvard Munch em Paris, descobre a obra de Van Gogh e Gauguin, e indubitavelmente o seu estilo sofre grandes mudanças. Em 1892 o convite para expor em Berlim torna-se num momento crucial da sua carreira e da história da arte alemã. Inicia um projecto que intitula O Friso da Vida. Edvard Munch representou a dança em 1950. Aos trinta anos ele pinta O Grito, considerada a sua obra máxima, e uma das mais importantes da história do expressionismo. O quadro retrata a angústia e o desespero e foi inspirado nas decepções do artista tanto no amor quanto com seus amigos. O Grito é uma das peças da série intitulada O Friso da Vida. Os temas da série recorrem durante toda a obra de Munch, em pinturas como A Menina Doente (1885), Amor e Dor (1893-94), Cinzas (1894) e A Ponte. Rostos sem feições e figuras distorcidas fazem parte de seus quadros. Em 1896, em Paris, interessa-se pela gravura, fazendo inovações nesta técnica. Os trabalhos deste período revelam uma segurança notável. Em 1914 inicia a execução do projecto para a decoração da Universidade de Oslo, usando uma linguagem simples, com motivos da tradição popular. Munch retratava as mulheres ora como sofredoras frágeis e inocentes (Puberdade e Amor e Dor), ora como causa de grande anseio, ciúme e desespero (Separação, Ciúmes e Cinzas). As últimas obras pretendem ser um resumo das preocupações da sua existência: Entre o Relógio e a Cama, Auto-Retrato de 1940. Toda a obra está impregnada pelas suas obsessões: a morte, a solidão, a melancolia, o terror das forças da natureza.


Edvard Munch, Death in the Sickroom (1895)


Edvard Munch, Ashes (1894)


Edvard Munch, The Sick Child (1907)


Edvard Munch, The Dance of Life (1899–1900)


Edvard Munch, Weeping Nude, 1913-1914


Edvard Munch, O dia seguinte, 1894-95


Edvard Munch, Lady from the sea


Edvard Munch, The Storm, 1893


Edvard Munch, Red Virginia Creeper, 1898-1900


Edvard Munch, Red Creeper, 1900


Edvard Munch, Clair de lune, 1893


Edvard Munch, Evening on Karl Johan, 1892


Keane - Somewhere Only We Know

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

"Noite de Saudade" - Poema de Florbela Espanca


Noite de Saudade


A Noite vem poisando devagar
Sobre a Terra, que inunda de amargura...
E nem sequer a bênção do luar
A quis tornar divinamente pura...

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura...
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!

Por que és assim tão escura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma Saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei donde me vem...
Talvez de ti, ó Noite!... Ou de ninguém!...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!





The Corrs - Dreams


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