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quarta-feira, 3 de maio de 2017

"Pequenina" - Poema de Antero de Quental


Edwin Henry Landseer (1802–1873), Saved, 1856
(A Landseer Newfoundland dog, the breed Byron eulogized)



Pequenina


Eu bem sei que te chamam pequenina 
E ténue como o véu solto na dança, 
Que és no juízo apenas a criança, 
Pouco mais, nos vestidos, que a menina... 

Que és o regato de água mansa e fina, 
A folhinha do til que se balança, 
O peito que em correndo logo cansa, 
A fronte que ao sofrer logo se inclina... 

Mas, filha, lá nos montes onde andei, 
Tanto me enchi de angústia e de receio 
Ouvindo do infinito os fundos ecos, 

Que não quero imperar nem já ser rei 
Senão tendo meus reinos em teu seio 
E súbditos, criança, em teus bonecos! 


Antero de Quental, in "Sonetos"

quarta-feira, 19 de abril de 2017

"Retrato do artista em cão jovem" - Poema de António José Forte


Edwin Henry Landseer (English, 1802–1873), Portrait of a Terrier (Jocko with a Hedgehog),1828



Retrato do artista em cão jovem


Com o focinho entre dois olhos muito grandes 
por trás de lágrimas maiores 
este é de todos o teu melhor retrato 
o de cão jovem a que só falta falar 
o de cão através da cidade 
com uma dor adolescente 
de esquina para esquina cada vez maior 
latindo docemente a cada lua 
voltando o focinho a cada esperança 
ainda sem dentes para as piores surpresas 
mas avançando a passo firme 
ao encontro dos alimentos 

aqui estás tal qual 
és bem tu o cão jovem que ninguém esperava 
o cão de circo para os domingos da família 
o cão vadio dos outros dias da semana 
o cão de sempre 
cada vez que há um cão jovem 
neste local da terra 


in '40 Noites de Insónia de Fogo de Dentes numa Girándola Implacável e Outros Poemas'


quinta-feira, 6 de abril de 2017

"Um Rafeiro fiel de um Pastor triste" - Poema de Abade de Jazente


Edwin Henry Landseer, Old Shepherd's Chief Mourner, 1837Victoria and Albert Museum, London.



Um Rafeiro fiel de um Pastor triste


Tó, Mondego, vem cá; pois tu somente 
Alivias um pouco o meu cuidado; 
Que em parte se consola um desgraçado, 
Quando tem quem lhe escute o mal que sente. 

Tu firme; tu leal; tu finalmente 
Me tens na minha ausência acompanhado: 
Raro impulso de amor! Porque ao seu lado 
Ninguém quer suportar um descontente. 

Ora deixa, que em prémio da piedade, 
Com que o teu zelo ao meu tormento assiste, 
Farei teu nome emblema da amizade. 

E os versos meus que um tempo alegre ouviste 
Cantarão, para exemplo da lealdade, 
Um Rafeiro fiel de um Pastor triste. 


Abade de Jazente, in 'Antologia Poética'


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