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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

"Desde a Aurora" - Poema de Eugénio de Andrade


Elizabeth Adela Forbes, The Leaf, 1897-1898, watercolour on paper



Desde a Aurora


Como um sol de polpa escura 
para levar à boca, 
eis as mãos: 
procuram-te desde o chão, 

entre os veios do sono 
e da memória procuram-te: 
à vertigem do ar 
abrem as portas: 

vai entrar o vento ou o violento 
aroma de uma candeia, 
e subitamente a ferida 
recomeça a sangrar: 

é tempo de colher: a noite 
iluminou-se bago a bago: vais surgir 
para beber de um trago 
como um grito contra o muro. 

Sou eu, desde a aurora, 
eu — a terra — que te procuro. 


Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio



4 Non Blondes - What's Up

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

"Até Amanhã" - Poema de Eugénio de Andrade


Elizabeth Adela Forbes,On a Fine Day, 1903, oil on canvas, Guildhall Art Gallery



Até Amanhã


Sei agora como nasceu a alegria, 
como nasce o vento entre barcos de papel, 
como nasce a água ou o amor 
quando a juventude não é uma lágrima. 

É primeiro só um rumor de espuma 
à roda do corpo que desperta, 
sílaba espessa, beijo acumulado, 
amanhecer de pássaros no sangue. 

É subitamente um grito, 
um grito apertado nos dentes, 
galope de cavalos num horizonte 
onde o mar é diurno e sem palavras. 

Falei de tudo quanto amei. 
De coisas que te dou 
para que tu as ames comigo: 
a juventude, o vento e as areias. 


Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"



Bruno Mars - Just The Way You Are

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

"As Amoras" - Poema de Eugénio de Andrade


Elizabeth Forbes, Blackberry Gathering, c. 1912, Walker Art Gallery (Daqui)



As Amoras


O meu país sabe às amoras bravas 
no verão. 
Ninguém ignora que não é grande, 
nem inteligente, nem elegante o meu país, 
mas tem esta voz doce 
de quem acorda cedo para cantar nas silvas. 
Raramente falei do meu país, talvez 
nem goste dele, mas quando um amigo 
me traz amoras bravas 
os seus muros parecem-me brancos, 
reparo que também no meu país o céu é azul.


("O Outro Nome da Terra")



Raphaelle Peale, Blackberries, c. 1813 (Daqui)



Citação 


"Sofremos muito com o pouco que nos falta e gozamos pouco o muito que temos."

(William Shakespeare) 

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