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segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

"Ser criança" - Poema de Tatiana Belinky


Emile Claus, The Little Sister, 1881 



Ser criança

 
Ser criança é dureza-
Todo mundo manda em mim-
Se pergunto o motivo,
Me respondem “porque sim”.

Isso é falta de respeito,
“Porque sim” não é resposta,
Atitude autoritária
Coisa que ninguém gosta!

Adulto deve explicar
Pra criança compreender
Esses “podes” e “não podes”,
Pra aceitar sem se ofender!

Criança exige carinho,
E sim! Consideração!
Criança é gente, é pessoa,
Não bicho de estimação!
Emile Claus, Children Eating Turnips, 1884, Private collection


"As crianças acham tudo em nada, os homens não acham nada em tudo."

(Giacomo Leopardi)



 Giacomo Leopardi (daqui) 


Escritor e filósofo italiano, Giacomo Leopardi nasceu a 29 de junho de 1798 em Recanati, nos então Estados da Igreja. O pai, um conde italiano excêntrico, sinistro e pálido, era tido com último homem a usar uma espada em Itália. Determinou que à criança só serviriam trajes negros, mostrando que a disciplina se deveria sobrepor aos enfeites de uma mãe, a quem entregou por sua vez o governo da casa.

Entregou o filho aos seis anos de idade aos ensinamentos de precetores que lhe ensinaram a mestria dos clássicos gregos e latinos. O pai, proprietário de uma biblioteca particular composta por cerca de vinte mil volumes, desafiava então o jovem Giacomo a fazer traduções, julgando ser este o melhor meio de o introduzir à erudição. Assim, aos dezasseis anos, já revelava autoridade suficiente para escrever um ensaio em que denunciava os erros dos autores clássicos. O seu primeiro livro, Saggio Sugli Errore Popolari Degli Antichi, embora escrito em 1815, permaneceu na posse do autor, e só veio a ser publicado nove anos após a sua morte.

Sabe-se que durante esta época Giacomo Leopardi foi vítima de um problema cerebrospinal e da cegueira progressiva de um olho. As suas deficiências físicas, provocadas ou por doença degenerativa, acidente, ou mazelas de duelo, fizeram com que se recatasse da companhia feminina.
Se os poemas que começou por escrever eram inflamados de patriotismo saudosista, queixumes com uma mão no peito e outra na testa, como All' Italia', publicado em 1819, a sua estadia em Roma por volta de 1823 aproximou-o dos círculos germânicos. 

Mudando-se para Bolonha em 1825, passou a trabalhar como professor particular, ao mesmo tempo que ia escrevendo obras que, embora continuando a manter a forma clássica, adotavam o conteúdo romântico alemão. Assim, Versi (1826) e Operette Morale (1827) refletem bem a transição no cunho do seu autor. Em 1830 partiu de Recanti para Florença mas, três anos depois optou definitivamente por Nápoles, onde escreveu Ginestra (1836).

Tido como o representante do Romantismo em Itália, Leopardi faleceu em Nápoles, vítima de um edema pulmonar, a 14 de junho de 1837. (Daqui)

sábado, 27 de janeiro de 2018

"Quase um madrigal" - Poema de Salvatore Quasimodo


Emile Claus,'The Village Pond, Upton Grey', c.1914



Quase um madrigal


O girassol se verga para o oeste
e já se afunda o dia no seu olho
em ruína e o ar de verão se adensa
e já encurva a folhagem e a fumaça
dos canteiros de obras. Afasta-se com o seco
fluir das nuvens e estrilar de raios
este último truque do céu. Outra vez,
como há anos, amiga, contemplamos
o cambiar das árvores espremidas
nos Navigli. Mas sempre é nosso o dia
e sempre o mesmo sol que se despede
com o fio de seu raio afetuoso.

Não tenho mais lembranças, nem as desejo;
toda memória se remonta à morte,
a vida não se acaba. Cada dia
é nosso. Um se fechará para sempre
e tu comigo, quando já for tarde.
Aqui no cais de pedra do canal, 
como crianças, balançando os pés,
olhamos a água, os primeiros galhos
cujo verde no fundo se escurece.
E o homem que em silencio se aproxima
não esconde uma faca em suas mãos
mas uma flor de gerânio.


Poesias
Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti


sexta-feira, 30 de setembro de 2016

"Casa Abandonada" - Poema de Francisco Bugalho





Casa Abandonada


Minha saudade não larga 
Certa casa abandonada. 
E sinto, na boca, amarga, 
Essa lágrima chorada 
Quando a deixei... 

Caía, de leve, a tarde... 
E, olhando para trás, vi 
Aquela porta fechada. 

Nesse momento, senti 
Pesar-me a fatalidade 
De toda a Vida passada. 

Arde 
Ainda, nos meus olhos, 
A luz do sol que brilhava 
Na janela. 
Era uma luz amarela; 
Uma luz de fim da tarde 
Que ainda trago nos olhos... 

Ficava ali, 
Por detrás da porta verde, 
Tudo o que a vida nos perde, 
Enquanto nos vai gastando... 

E triste e só me parti; 
Quem sabe que outros Destinos, 
Dolorosos ou divinos, 
Procurando... 


in "Margens"


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

"As mãos dadas" - Poema de Jorge de Sena


Emile Claus, A Meeting on the Bridge



As mãos dadas


Um dia me falaste,
e as árvores morriam galho a galho seco.
Havia flores, recordo.
Havia ruas, aí também recordo.
E escadas
vazias.

Não me falaste, não.
Fui eu quem perguntou,
beijando-te tremente, quantos anos tinhas,
e o teu nome.

Não tinhas nome; ou tinhas, mas não teu.
E a tua idade, as tuas mãos nas minhas.






Emile ClausOctober Morning on the River Leie



"O amor é a sabedoria dos loucos e a loucura dos sábios." 




segunda-feira, 8 de agosto de 2016

"Notícias do Paraíso" - Poema de Zbigniew Herbert


Emile Claus (1849-1924), The Picknick, 1887



Notícias do Paraíso


No paraíso a semana de trabalho é de trinta horas
os salários são elevados e os preços descem regularmente
o trabalho manual não é cansativo (devido à reduzida gravidade)
derrubar árvores não é mais pesado do que datilografar
o sistema social é estável e as leis são sábias
na verdade no paraíso vive-se melhor do que em qualquer outro lado

A princípio era para ter sido diferente
círculos luminosos coros e graus de abstração
mas não foram capazes de separar completamente
o espírito da carne de tal modo que quem chega
traz sempre uma gota de gordura uma fibra de músculo
foi necessário enfrentar as consequências
misturar um grão de absoluto com um grão de argila
mais um desvio da doutrina o último desvio
só o apostolo João o entreviu: ressuscitaremos na carne

São poucos os que acreditam em Deus
isso é só para aqueles cem por cento pneuma
os outros ouvem os comunicados sobre milagres e dilúvios
um dia Deus revelar-se-á a todos
quando irá isso acontecer ninguém sabe

Como agora todos os sábados ao meio-dia
as sirenes tocam docemente
e das fábricas saem os proletários celestes
envergonhados debaixo dos braços carregam as suas asas como violinos



(1924 – 1998)
Tradução de Jorge de Sousa Braga a partir da versão inglesa de Czesław Miłosz 



Emile ClausBringing in the Nets, 1893



"Quando o meu amigo está infeliz, vou ao seu encontro; quando está feliz, espero por ele."




quarta-feira, 11 de maio de 2016

"Maneira de amar" - Conto de Carlos Drummond de Andrade


Emile Claus, The Old Gardener, 1885



Maneira de amar 


O jardineiro conversava com as flores, e elas se habituaram ao diálogo. Passava manhãs contando coisas a uma cravina ou escutando o que lhe confiava um gerânio. O girassol não ia muito com sua cara, ou porque não fosse homem bonito, ou porque os girassóis são orgulhosos de natureza. 
Em vão o jardineiro tentava captar-lhe as graças, pois o girassol chegava a voltar-se contra a luz para não ver o rosto que lhe sorria. Era uma situação bastante embaraçosa, que as outras flores não comentavam. Nunca, entretanto, o jardineiro deixou de regar o pé de girassol e de renovar-lhe a terra, na ocasião devida. 
O dono do jardim achou que seu empregado perdia muito tempo parado diante dos canteiros, aparentemente não fazendo coisa alguma. E mandou-o embora, depois de assinar a carteira de trabalho. 
Depois que o jardineiro saiu, as flores ficaram tristes e censuravam-se porque não tinham induzido o girassol a mudar de atitude. A mais triste de todas era o girassol, que não se conformava com a ausência do homem. “Você o tratava mal, agora está arrependido?” “Não”, respondeu “estou triste porque agora não posso tratá-lo mal. É a minha maneira de amar, ele sabia disso, e gostava”. 



domingo, 5 de fevereiro de 2012

"O amor é uma companhia" - Poema de Alberto Caeiro


Emile Claus, In the Garden


-Y-

O amor é uma companhia


O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.


Alberto Caeiro, in O Pastor Amoroso
(Heterónimo de Fernando Pessoa)


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