Mostrar mensagens com a etiqueta Emile Vernon. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Emile Vernon. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 22 de março de 2012

"É Primavera agora, meu Amor!" - Poema de Florbela Espanca


Émile Vernon (1872-1919)



É Primavera agora, meu Amor!


É Primavera agora, meu Amor! 
O campo despe a veste de estamenha; 
Não há árvore nenhuma que não tenha 
O coração aberto, todo em flor! 

Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor 
Da vida... não há bem que nos não venha 
Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha! 
Não há bem que não possa ser melhor! 

Também despi meu triste burel pardo, 
E agora cheiro a rosmaninho e a nardo 
E ando agora tonta, à tua espera... 

Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos... 
Parecem um rosal! Vem desprendê-los! 
Meu Amor, meu Amor, é Primavera!... 


In Reliquiae, 1934 



Pinturas de Emile Vernon






Émile Vernon, The three Graces


Sonhei um sonho 

Sonhei um sonho 
e lembrei-me do sonho 
e esqueci-me do sonho 
e sonhei que procurava 
em sonho aquele sonho 
e pergunto se a vida 
não é um sonho que procura um sonho. 

1959

In Poesia Completa



Apologize - OneRepublic


quinta-feira, 15 de março de 2012

"Gato" - Poema de Alexandre O'Neill


Pintura de Emile Vernon



Gato 


Que fazes por aqui, ó gato? 
Que ambiguidade vens explorar? 
Senhor de ti, avanças, cauto, 
meio agastado e sempre a disfarçar 
o que afinal não tens e eu te empresto, 
ó gato, pesadelo lento e lesto, 
fofo no pêlo, frio no olhar! 

De que obscura força és a morada? 
Qual o crime de que foste testemunha? 
Que deus te deu a repentina unha 
que rubrica esta mão, aquela cara? 
Gato, cúmplice de um medo 
ainda sem palavras, sem enredos, 
quem somos nós, teus donos ou teus servos? 


Alexandre O'Neill




Pinturas de Emile Vernon










Emile Vernon (Blois, França, 1872 – 1920) foi um pintor de retratos e cenas do género. 
Viveu em Paris e Londres e ainda estudante na Escola de Belas Artes, em Tours, ganhou seu primeiro prémio de desenho (1888). Mudou-se para Paris e desenvolveu sua arte com os então famosos artistas – Bouguereau e Auguste Trupheme. Em 1898, participou da Exposição de Belas Artes e Artes Decorativas em Paris e, durante o mesmo ano, exibiu-se pela primeira vez no Salão dos Artistas Franceses. Participou deste Salão até 1913. Vernon também recebeu numerosas encomendas para murais decorativos, assim como para o teatro de Chatellerault (em 1899) e o de Nevers. Em 1904, expôs na "Royal Academy" de Londres. Faleceu em 1920 com a idade de 48 anos. Particularmente populares são seus retratos de meninas adolescentes e crianças que estão em grande demanda nos E.U.A, Canadá e Japão.


Pintura de Emile Vernon 


"O declínio da literatura indica o declínio de uma nação."

(Johann Wolfgang von Goethe)


domingo, 5 de fevereiro de 2012

"Talvez quem vê bem não sirva para sentir" - Poema de Alberto Caeiro


Émile Vernon (British, 1872–1919), A Sweet Glance


-VII-

Talvez quem vê bem não sirva para sentir 


Talvez quem vê bem não sirva para sentir
E não agrade por estar muito antes das maneiras.
É preciso ter modos para todas as cousas,
E cada cousa tem o seu modo, e o amor também.
Quem tem o modo de ver os campos pelas ervas
Não deve ter a cegueira que faz fazer sentir.
Amei, e não fui amado, o que só vi no fim,
Porque não se é amado como se nasce mas como acontece.
Ela continua tão bonita de cabelo e boca como dantes,
E eu continuo como era dantes, sozinho no campo.
Como se tivesse estado de cabeça baixa,
Penso isto, e fico de cabeça alta
E o dourado do sol seca as lágrimas pequenas que não posso deixar de ter.
Como o campo é grande e o amor pequeno!
Olho, e esqueço, como o mundo enterra e as árvores se despem.
Eu não sei falar porque estou a sentir.
Estou a escutar a minha voz como se fosse de outra pessoa,
E a minha voz fala dela como se ela é que falasse.
Tem o cabelo de um louro amarelo de trigo ao sol claro,
E a boca quando fala diz cousas que não há nas palavras.
Sorri, e os dentes são limpos como pedras do rio.


Alberto Caeiro, in O Pastor Amoroso
(Heterónimo de Fernando Pessoa)



Coldplay - Charlie Brown


"Perante nós mesmo todos fingimos ser mais ingénuos do que somos: é deste modo que descansamos dos nossos semelhantes."

(Friedrich Nietzsche)


"Todos os dias agora acordo com alegria e pena" - Poema de Alberto Caeiro


Émile Vernon, Portrait of a Woman


-IY-


Todos os dias agora acordo com alegria e pena


Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei-de fazer das minhas sensações,
Não sei o que hei-de ser comigo.
Quero que ela me diga qualquer coisa para eu acordar de novo.
Quem ama é diferente de quem é.
É a mesma pessoa sem ninguém.


Alberto Caeiro, in O Pastor Amoroso 
(Heterónimo de Fernando Pessoa)


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...