quadrogiz

"Educai as crianças e não será preciso punir os homens." (Pitágoras - filósofo e matemático grego)

quinta-feira, 31 de julho de 2025

"É um prelúdio de alegrias" - Poema de Marly de Oliveira

 


José Campas (Pintor e professor português, 1888-1971), À Hora do Banho (Ericeira)


É um prelúdio de alegrias


É um prelúdio de alegrias e esperanças em que o poeta
percorre a geografia, a história e a atmosfera lusitana.
Em Portugal, à sombra de mim mesma,
pela primeira vez fui livre
e sem cuidado,
amando o meu estar ali
de forma tão intensa
que mal me reconheci.

E, contudo, não era a liberdade
que a distância da pátria
(ou da família)
concedia:
mais densa e mais profunda, era
uma sensação tão nova
que ia ao antes de partirem as caravelas,
ao antes do antes em que se imaginavam
as grandes aventuras
e suas descobertas.
Lembrança de Camões, Pessoa, Eça.
À beira-mar ou na montanha,
era sempre um bem-estar,
era sempre um reencontro
com o que nunca vira
e reconhecia, no entanto,
como se alguma vez
por lá andara. Era na certa
o sangue português.


Marly de Oliveira, 
in "Viagem a Portugal", 1986.


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quarta-feira, 30 de julho de 2025

"O Boi" - Poema de Olavo Bilac

 


António da Silva Porto
 (Pintor português, 1850-1893), A Salmeja, 1884, óleo sobre tela.
Museu de José Malhoa



O Boi


Quando ainda no céu não se percebe a aurora,
E ainda está molhando as árvores o orvalho,
Sai pelo campo afora
O boi, para o trabalho.

Com que calma obedece!
Caminha sem parar:
E o sol, quando aparece,
Já o encontra, robusto e manso, a trabalhar.

Forte e meigo animal! Que bondade serena
Tem na doce expressão da face resignada!
Nem se revolta, quando o lavrador, sem pena,
Para o instigar, lhe crava a ponta da aguilhada.

Cai-lhe de rijo o sol sobre o largo cachaço;
Zumbem moscas sobre ele, e picam-no sem dó;
Porém, indiferente às dores e ao cansaço,
Caminha o grande boi, numa nuvem de pó.

Lá vai pausadamente o grande boi marchando...
E, por ele puxado,
Larga e profundamente o solo retalhando,
Vai o possante arado.

Desce a noite. O luar fulgura sobre os campos.
Cessa a vida rural.
Há estrelas no céu. Na terra há pirilampos.
E o boi, para dormir, regressa ao seu curral... 


Olavo Bilac, em Poesias infantis.
RJ: Francisco Alves, 1929.




Tomás da Anunciação (Pintor português, 1818–1879), O Vitelo, 1871.
Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado



"Até que alguém ame um animal, uma parte da sua alma permanece adormecida."

Anatole France

(Nobel de Literatura, 1921)



Retrato de Tomás José da Anunciação, 1860's,
gravura de Joaquim Pedro de Sousa,
no Museu do Chiado

Tomás José da Anunciação, pintor português, nascido em 1818 e falecido em 1879, estudou pintura em Portugal com Norberto José Ribeiro, António Manuel da Fonseca e Benjamim Comte, e em França com Palizzi e Yvon. Destacou-se sobretudo no âmbito da pintura de animais, apesar de ter pintado também paisagens e feito cópias de quadros antigos.
A sua obra, revelando minuciosamente os detalhes mais ínfimos, manifesta influências tanto do romantismo como do naturalismo realista. Participou em exposições como as 3.ª e 4.ª Exposições Trienais da Academia Real de Belas Artes, em 1852 e 1856, na 1.ª Exposição da Sociedade Promotora de Belas-Artes, na Exposição Universal de Paris (1867) e na Exposição de Madrid (1871).
Foi diretor da Real Galeria de Pintura do Palácio Nacional da Ajuda, professor de Pintura da Paisagem e de Desenho do Antigo na Real Academia de Belas-Artes e seu diretor interino.
O seu quadro mais conhecido é "O Vitelo" (1871), que se encontra no Museu Nacional de Arte Contemporânea, mas também se encontram outras obras deste pintor noutros museus como a Casa-Museu dos Patudos de Alpiarça, o Museu Grão-Vasco de Viseu e o Solar do Monteiro-Mor do Juncal, na Extremadura. (daqui)

 

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terça-feira, 29 de julho de 2025

"Rosa" | "Aquela nuvem" | "Faz de Conta" - Poemas de Eugénio de Andrade


 
Harold Harvey (British painter, 1874-1941), Summer, 1917.
Oil on canvas, 92 × 76 cm. Private Collection.
 

Rosa
 
É uma rosa amarela.
Uma rosa de verão.
Sempre uma rosa em botão
estava posta à janela.
Quem mora naquela casa
certamente que sabia
quanto essa rosa em botão,
seja branca ou amarela,
perfuma todo o verão. 


Eugénio de Andrade
, in "Aquela nuvem e outras".
Ilustração de Júlio Resende
Edições ASA, 1986
 
 
 
Harold Harvey, Sea Pinks, 1913, Private Collection.
 
 
Aquela nuvem


– É tão bom ser nuvem, 
ter um corpo leve, 
e passar, passar.

– Leva-me contigo. 
Quero ver Granada. 
Quero ver o mar.

– Granada é longe, 
o mar é distante, 
não podes voar.

– Para que te serve 
ser nuvem, se não 
me podes levar?

– Serve para te ver. 
E passar, passar. 


Eugénio de Andrade, in "Aquela nuvem e outras".
Ilustração de Júlio Resende
Edições ASA, 1986
 

 
Harold Harvey, Summer Hours, Private Collection.  
 
 
Faz de Conta


– Faz de conta que sou abelha. 
– Eu serei a flor mais bela.

– Faz de conta que sou cardo. 
– Eu serei somente orvalho.

– Faz de conta que sou potro. 
– Eu serei sombra em agosto.

– Faz de conta que sou choupo. 
– Eu serei pássaro louco,

pássaro voando e voando 
sobre ti vezes sem conta.

– Faz de conta, faz de conta.


Eugénio de Andrade, in "Aquela nuvem e outras".
Ilustração de Júlio Resende
Edições ASA, 1986



"Aquela nuvem e outras" de Eugénio de Andrade
Ilustração de Júlio Resende
Edições ASA, 1986
 
 
SINOPSE
 
Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o 1º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada.


Um dos dois pequenos livros infantojuvenis escritos por Eugénio de Andrade, a leitura de Aquela nuvem e outras é indicada para o 1.º ano de escolaridade. Um pequeno livro de poesia para os mais pequenos, pleno de beleza e de ensinamentos.
Primeira edição, inserida na coleção Asa Juvenil, coordenada por Ilse Losa. Ilustrações de Júlio Resende.
 

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segunda-feira, 28 de julho de 2025

"Em cada coisa, um encanto" - Poema de Berenice Gehlen Adams

 

 
Rafał Olbiński (Polish illustrator, painter, and educator, living in the United States, b. 1943),
Convincing Impossibility, 2012.
 


Em cada coisa, um encanto... 


O mundo é cheio de coisas.
É coisa que não acaba mais, ou será que acaba?

Tem de tudo um pouco...
Tem coisas que estão dentro:
Peixe dentro da água,
Tartaruga dentro do casco,
Semente dentro da fruta...

Tem coisas que estão fora:
Coelho fora da toca,
Menino fora da casa,
Chuva fora da nuvem...

Tem coisas que estão em cima:
Vaso em cima da mesa,
Telhado em cima da casa,
Boneca em cima da cama...

Tem coisas que estão embaixo:
Chinelo embaixo da cama,
Tapete embaixo da mesa,
Minhoca embaixo da terra...

Tem coisas que são grandes:
O edifício, o parque, a cidade,
O elefante, o hipopótamo, a montanha...

Tem coisas que são pequenas:
O fósforo, a borracha, o prego.
A formiga, a agulha, o grão de areia...

Tem coisas que são novas,
Tem coisas que são velhas...
Tem coisas que são secas,
Tem coisas que são molhadas...

O mundo é cheio de coisas,
De coisas diferentes,
E dentro de cada coisa
Existe um segredo,
Existe um encanto,
Que a gente vai descobrindo
Brincando, cantando e estudando...


Berenice Gehlen Adams, 
"De quase tudo um pouco - Poemas infantis".
(Professora, escritora, artista plástica, ilustradora, editora de revista,
educadora e ativista ambiental brasileira, n. 1961)
 

 
Rafał Olbiński, Compelling Sense of Dislocation, 2003.


"A inteligência da criança observa amando e não com indiferença - isso é o que faz ver o invisível."

Maria Montessori, Pensamentos sobre Pedagogia


 
Maria Montessori in a portrait by Alexander Akopov


Maria Montessori

 
Pedagoga e médica italiana, Maria Montessori nasceu em 1870, em Chiaravalle, perto de Ancona.
Filha única de um militar italiano, Maria Montessori recebeu um educação muito severa durante a infância e quando tinha cinco anos foi viver para Roma, onde iniciou os seus estudos. Dada a sua vocação para matemáticas, Maria Montessori entrou com dezasseis anos para a escola técnica com a intenção de seguir engenharia. Contudo, mudou rapidamente de ideias e decidiu que queria ser médica, uma opção inédita que a família não aceitou. Para além de ter de enfrentar a oposição dos seus pais, Montessori teve ainda que lutar contra os preconceitos da época que não admitiam que uma mulher pudesse seguir esta carreira. No entanto, apesar das diversas contrariedades, Maria acabou por entrar para a escola médica e em 1896, com 26 anos, cometeu a proeza de ter sido a primeira mulher italiana a licenciar-se em Medicina.

Terminado o curso, começou por trabalhar na área da Psiquiatria e muito concretamente junto de crianças com problemas de atraso de desenvolvimento, recusando-se a aceitar que estas crianças não pudessem aprender. Posteriormente iniciou a sua carreira de docente, tendo passado por várias instituições e ocupado diversos cargos. Entre outros, foi regente da cadeira de higiene no Colégio das Mulheres de Roma e professora de Antropologia na Universidade de Roma, cargo que ocupou durante 4 anos, desde 1904 até 1908.
 
Maria Montessori não concordava com o ensino da época, muito baseado na memorização e na disciplina, aspetos que cortavam a criatividade das crianças. Montessori defendia que os métodos que se utilizavam não eram adequados para a aprendizagem e que as escolas eram monótonas e pouco apelativas. Deste modo, partindo das ideias de autores como Itard e Froebel, mas sobretudo de Edouard Seguin, um médico francês que tinha criado e desenvolvido um sistema de educação para crianças deficientes, Montessori desenvolveu um método pedagógico junto de crianças mentalmente diminuídas e generalizou a todas as crianças saudáveis.

Este método baseava-se em princípios como a auto-atividade, a espontaneidade e criatividade, e ajudava o desenvolvimento mental da criança, fomentando as condições necessárias para que as crianças pudessem ter total liberdade de expressão. Montessori sustentava que a criança, ao contrário do adulto, encontra-se continuamente em crescimento e mutação e que por esse motivo era fundamental que o educador conhecesse os períodos sensíveis do desenvolvimento da criança para que a pudesse ajudar. Por outro lado, defendia ainda que as crianças deveriam trabalhar individualmente de acordo com o seu próprio ritmo e utilizando os métodos de acordo com as suas necessidades. 
 
Os métodos empregues por Maria Montessori tiveram um enorme sucesso e rapidamente começaram a aparecer por toda a Itália escolas que os adotavam. A primeira "Casa dei Bambini" ("Casa de Crianças") foi inaugurada em 1907, em Roma, no bairro de San Lorenzo.
Em 1934, Maria Montessori saiu da Itália para fugir do fascismo e após o fim da Segunda Guerra Mundial, depois de ter vivido em Espanha e na Índia, foi viver para a Holanda, onde prosseguiu os seus trabalhos até morrer em 1952.

Obras principais de Montessori:

1904, Sui caratteri antropometrici in relazione alle gerarchie intellettuali dei fanciulli nelle scuole
1904, Influenza delle condizioni di famiglia sul livello intelletuale degli scolari
1907, La Casa dei bambini dell'Istituto dei beni stabili
1909, Il metodo della pedagogia scientifica
(O método Montessori)
1910, Antropologia pedagogica
1911, La Moralé sessuale dell'educazione tra madre e figlio
1916, L'autoeducazione nelle scuole elementari
1935, Manual della pedagogia scientifica
(daqui)

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domingo, 27 de julho de 2025

"Comendo uma cereja" - Poema de Manuel Resende

 


Adolf Humborg (Austrian painter, 1847–1921), Kirschen für die Kinder
(Cerejas para as crianças)
, c. 1921.


Comendo uma cereja


Como uma cereja e,
Comendo a cereja, o meu corpo
Pede as cerejas todas do mundo,
Mas não posso comer as cerejas todas do mundo,
Pois faltam-me as cerejas que comeram
Sócrates, Hipasos de Metaponto
E os velhos camponeses da Gália,
Ou até os escravos de Roma.
Assim, como uma cereja
E deixo o gosto de a comer
Ficar em mim pelo gosto
De todas as cerejas que possa haver.
Uma cereja como todas as cerejas,
Uma cereja por todas as cerejas.


Manuel Resende, in 'Poesia reunida'



Manuel Resende, Poesia reunida,
Posfácio de Osvaldo M. Silvestre,
Edições Cotovia, Lda., Abril de 2018.


SINOPSE

 
Manuel Resende (Jornalista, poeta e tradutor português, 1948 - 2020) dedicou grande parte da sua vida à poesia, quer como autor, quer como tradutor. Não desesperou de que a poesia, escrita, dita ou vivida, possa um dia ritmar o viver, num mundo em que o livre desenvolvimento de cada um seja condição do livre desenvolvimento de todos.
Aqui se reúnem os seus poemas publicados, bem como alguns inéditos, '70 anos após o seu nascimento, 50 anos após o Maio de 68'.
Inclui os livros «Natureza morta com desodorizante» (Gota d'Água/INCM, 1983), «Em qualquer lugar» (&Etc, 1998), «O mundo clamoroso, ainda» (Angelus Novus, 2004) e «Poemas de Mika Ahtisaari».
 

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sábado, 26 de julho de 2025

"Sabedoria Infantil" - Poema de Carlos Vogt

 

 
Victor Gabriel Gilbert
(French social realist painter, 1847 - 1935),
'In the Park with Grandmother'



Sabedoria Infantil 

 
Para falar a verdade,
esta cheia de meandros, meios, caminhos, pântanos, voltas e volteios,
a verdade, enfim, que conhecemos clara
como se vista através de um biombo disfarçando intimidades.

Para falar a verdade
nua, crua, transparente e limpa
nada mais próprio que um sonho de menina.


Carlos Vogt, in Metalurgia,
Companhia das Letras, 1991.



Victor Gabriel Gilbert, 'Time for Lunch'


Infância 

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se «Agora». 


Guilherme de Almeida,
in "Os Melhores Poemas de Guilherme de Almeida",
São Paulo, 1993
 
 

"Os Melhores Poemas de Guilherme de Almeida"
Global Editora, 3ª Edição.
 

RESUMO 

Guilherme de Almeida
(Campinas, SP, 1890 – São Paulo, SP, 1969) viveu uma longa fase da história da poesia brasileira, que se estende do período crepuscular que antecedeu o modernismo ao surgimento e consolidação de movimentos como o concretismo ou a poesia praxis, chocantes à sua sensibilidade educada nos velhos clássicos. Foi mais de meio século de atividade, em que o poeta exibiu um raro virtuosismo e domínio da língua, compondo poemas de sabor camoniano (Camoniana, 1956), recriando a atmosfera de velhos romances populares portugueses (Pequeno Romanceiro, 1957), parodiando a poesia grega clássica (A Frauta que eu Perdi, 1924), cultivando o verso parnasiano, simbolista, modernista (Meu, Raça, Encantamento, todos de 1925), mas sem nunca abandonar a nota romântica, predominante ao longo de toda a sua vasta obra. 
Os seus primeiros livros, anteriores à Semana de Arte Moderna – de Nós (1917) a Era uma Vez... (1922) –, revelam uma poesia de meios-tons, em que o agudo sentimento da beleza se harmoniza com um certo artificialismo, muito ao gosto da sociedade de então. Tanto assim que os seus livros andavam nas mãos de todas as moças. A adesão ao modernismo evidencia um desejo de se ajustar ao gosto do tempo, mas não representa nenhuma mudança significativa em sua obra. Dispensa "a rima e a métrica, mas a alma romântica continua", observa Carlos Vogt no prefácio Melhores Poemas Guilherme de Almeida. O poeta se manteve fiel às suas tendências pessoais, o que lhe foi muito benéfico. Os seus livros desfrutavam de uma popularidade a que nenhum modernista chegava perto. Essa popularidade se manteve até a última fase de sua obra, caracterizada por uma linguagem mais enxuta, menos rica de emoção, mas na qual ainda se sente, um tanto enfraquecida, a voz do velho romântico. (daqui)
 

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sexta-feira, 25 de julho de 2025

"Coisas de luz antigas" - Poema de Ana Luísa Amaral




Vittorio Matteo Corcos (Italian painter, 1859–1933), "When Love is Young", 1883.
Oil on canvas, Appleton Museum of Art.
 
 

Coisas de luz antigas


Aquele namorado que tinha
um nome bom: há quanto tempo foi?
A vida resvalante como gelo
e aquele namorado de nome bom
e férias, ficou perdido em luz,
mais de vinte anos.

Deu-me uma vez a mão
um beijo resvalante à hora de deitar
e na pensão. Mas tinha um nome bom,
falava de cinema e calçava de azul
e um bigode curtinho,
que escorregou aceso como gelo
no centro da pensão.

Rasguei as cartas dele
há quinze anos, em dia de gavetas
e de luz, e nem fotografia me ficou
de desarrumação. Mas tinha um nome bom,
falava de cinema e calçava de azul
e resvalou-me quente como gelo
à hora de deitar:

um namorado sem falar
de amor

(que a timidez maior
e o quarto dos meus pais
nessa pensão
no mesmo corredor)


Ana Luísa Amaral,
in Poesia Reunida: 1990-2005,
Quasi Edições, 2005.
 
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quinta-feira, 24 de julho de 2025

"Os Amantes" - Poema de Affonso Romano de Sant'Anna


René-Xavier Prinet (French painter and illustrator, 1861–1946),
The Kreutzer Sonata, 1901, Private collection.
 
 
 Os Amantes


Os amantes, em geral,
passam noites inteiras
inquietos e ansiosos
— também eu.

Os amantes, em geral,
choram sobre as cartas,
dão telefonemas aflitos
— como eu.

Os amantes, em geral,
são afoitos, egoístas
e mal pensam a sorte alheia
— como eu.

Os amantes, em geral,
passam horas figurando
o corpo amado,
curvas, gestos, preferências
— como eu.

Os amantes, em geral,
são patetas, maus estetas,
fazem versos ruins
e se chamam poetas
— como eu.


Affonso Romano de Sant'Anna,
"A Catedral de Colônia e outros poemas"
Rio de Janeiro: Rocco, 1985.

 
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quarta-feira, 23 de julho de 2025

"Nictofagia" - Poema de Natália Correia




Harald Slott-Møller (Danish painter and ceramist, 1864–1937),
 An evening by the beach, 1925.


Nictofagia


Se eu pudesse beber-te, ó noite,
Até encontrar o teu gosto,
Ou mordendo a ponta do açoite
Da tua treva no meu rosto,

Achasse a planície de lume
De que és uma aresta de estrelas
E sonhando sem peso e volume
Fosse um sonho de chão a tece-las

E na praia de um trilo sem flauta,
Instrumento das harpas do fundo
Duma água escorrida da pauta
Da manhã mais antiga do mundo,

Me estendesses, ó noite florida
Das sementes que trazes no punho,
Uma adolescência impelida
Pelo arco das brisas de junho!


Natália Correia
, in Passaporte, 1958 

 


"Passaporte" (Poemas) de Natália Correia, 1.ª Edição,
Editora Gráfica Portuguesa, Lda. Lisboa, 1958.
 

SINOPSE 

"Passaporte" é um dos primeiros livros de Natália Correia (1923–1993) ligado à "tendência surrealista da poesia portuguesa" que contém os poemas: Passaporte, Boletim Meteorológico, Discurso Directo, Biografia Encomendada pela Insónia, Êxodo, O Poema, Metamorfoses necessárias para a Reconquista do Mundo, A Demiurgia do Riso, Ricochete, Homenagem a Titus Lucretius Carus, Poema destinado a haver Domingo, Nictofagia, Projecto de Bodas, Elegia dos Amantes Lúcidos, Ultrabiográfico, Mar Uterino.
Em "Passaporte", Natália Correia explora temas como a identidade, a viagem e a busca por um lugar no mundo, utilizando uma linguagem que transita entre o surrealismo e o realismo, com um toque de irreverência e paixão. A obra reflete a personalidade da autora, que, segundo críticos da Universidade do Porto, era alguém que "chega adiantada no tempo" e que não se encaixa em normas ou ideologias. 


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terça-feira, 22 de julho de 2025

"A função do amor é fabricar desconhecimento" - Poema de E. E. Cummings


 
Camille Martin (Peintre, relieur, illustrateur et affichiste français, 1861–1898),
Forêt de Kichompré, 1896, Musée de l'École de Nancy.



A função do amor é fabricar desconhecimento

 
a função do amor é fabricar desconhecimento

(o conhecido não tem desejo; mas todo o amor é desejar)
embora se viva às avessas, o idêntico sufoque o uno
a verdade se confunda com o facto, os peixes se gabem de pescar

e os homens sejam apanhados pelos vermes (o amor pode não se importar
se o tempo troteia, a luz declina, os limites vergam
nem se maravilhar se um pensamento pesa como uma estrela
— o medo tem morte menor; e viverá menos quando a morte acabar)

que afortunados são os amantes (cujos seres se submetem
ao que esteja para ser descoberto)
cujo ignorante cada respirar se atreve a esconder
mais do que a mais fabulosa sabedoria teme ver

(que riem e choram) que sonham, criam e matam
enquanto o todo se move; e cada parte permanece quieta:

pode não ser sempre assim; e eu digo
que se os teus lábios, que amei, tocarem
os de outro, e os teus ternos fortes dedos aprisionarem
o seu coração, como o meu não há muito tempo;
se no rosto de outro o teu doce cabelo repousar
naquele silêncio que conheço, ou naquelas
grandiosas contorcidas palavras que, dizendo demasiado,
permanecem desamparadamente diante do espírito ausente;

se assim for, eu digo se assim for —
tu do meu coração, manda-me um recado;
para que possa ir até ele, e tomar as suas mãos,
dizendo: Aceita toda a felicidade de mim.
E então voltarei o rosto, e ouvirei um pássaro
cantar terrivelmente longe nas terras perdidas. 


E. E. Cummings, in "livrodepoemas"
Tradução de Cecília Rego Pinheiro
Edição Assírio & Alvim, Lisboa, 1999
 

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segunda-feira, 21 de julho de 2025

"Dar nome aos gatos é assunto complicado" - Poema de T. S. Eliot

 

Horatio Henry Couldery (English animal painter and illustrator, 1832 - 1918), 
Cats by a fishbowl


Dar nome aos gatos 



Dar nome aos gatos é assunto complicado,
Não é apenas um jogo que divirta adolescentes;
Podem pensar, à primeira vista, que sou doido desvairado
Quando eu digo, um gato deve ter três nomes diferentes.

Primeiro, temos o nome que a família usa diariamente,
Como Pedro, Augusto, Alonso ou Zé Maria,
Como Vitor ou Jonas, Jorge ou Gui Clemente –
Todos nomes sensíveis para o dia-a-dia.

Há nomes mais requintados se pensam que podem soar melhor,
Alguns para os cavalheiros, outros para titia:
Como Platão, Demetrius, Electra ou Eleonor –
Mas todos eles são sensíveis nomes de todo dia.

Mas eu digo, um gato precisa ter um nome que é particular,
Um nome que lhe é peculiar, e que muito o dignifica,

De outro modo, como poderia manter sua cauda perpendicular,
Ou espreguiçar os bigodes, orgulhar-se de sua estica?
Dos nomes deste tipo, posso oferecer um quórum,
Como Munkustrap, Quaxo, ou Coricopato,
Como Bombalurina, ou mesmo Jellylorum –

Nomes que nunca pertencem a mais de um gato.
Mas, acima e para além, ainda existe um nome a suprir,
E este é o nome que você jamais cogitaria;

O nome que nenhuma investigação humana pode descobrir –
Mas o gato e somente ele sabe, e nunca o confessaria.

Se um gato for surpreendido com um olhar de meditação,
A razão, eu lhe digo, é sempre a mesma que o consome:
Sua mente está engajada em uma rápida contemplação
De lembrar, de lembrar, de lembrar qual é o seu nome:
Seu inefável afável
Inefavefável

Oculto, inescrutável e singular Nome.


T. S. Eliot
Tradução de Rodrigo Suzuki Cintra



T. S. Eliot em 1934


T. S. Eliot

Thomas Stearns Eliot (1888-1965), poeta, crítico e dramaturgo inglês, nasceu em St. Louis, no Missouri. 

Frequentou a Universidade de Harvard (1906-10), prosseguindo os seus estudos na Sorbonne, onde estudou durante um ano. Regressou a Harvard para estudar filosofia por um período de três anos. Teve como professores George Santayana, Josiah Royce e Bertrand Russel. Uma bolsa de estudo levou-o posteriormente à Universidade de Oxford, onde preparou o seu doutoramento sobre a filosofia idealista de F. A. Bradley e aprofundou os seus conhecimentos de Platão e Aristóteles. A tese de Eliot foi publicada em 1936. Persuadido por Ezra Pound, fixou-se definitivamente em Inglaterra em 1915, naturalizando-se em 1927.

Nesse ano converteu-se ao catolicismo; da sua conversão ao movimento católico no seio da Igreja inglesa dão testemunho os seus ensaios reunidos no volume For Lancelot Andrews (1928). De 1917 a 1919 Eliot foi assistente editorial da revista The Egoist. Entretanto, em 1917, foi publicado o seu primeiro livro de poesia, Prufrock and Other Observations, para o qual foi decisivo o apoio de Ezra Pound. O poema The Love Song of J. Alfred Prufrock foi publicado inicialmente na revista americana Poetry em 1915.

Em 1917 Eliot escreveu o ensaio Tradition and the Individual Talent, a que se seguiram um segundo volume de poesia (Poems, 1919), que incluía o poema Gerontion, e uma reedição de Prufrock intitulada Ara vos prec (1920). Depois de lecionar em diversas escolas inglesas, Eliot trabalhou durante oito anos no Lloyds Bank, antes de se tornar diretor da editora Faber (1925).

Em 1922, no primeiro número da revista Criterion (que Eliot editou entre 1923 e 1939), foi publicado The Waste Land, o poema mais influente deste século, dedicado a Ezra Pound e posteriormente publicado na Hogarth Press por Leonard e Virginia Woolf. O tema de The Waste Land é a decadência e fragmentação da cultura ocidental, concebida imaginativamente por analogia com o fim de um ciclo de fertilidade natural.

O poema divide-se em 5 partes, que não obedecem a uma sequência lógica, e estende-se por 433 versos. A justaposição de símbolos, imagens, ritmos, citações e sequências temporais, contribuem para a dimensão épica do poema e reforçam a sua coerência artística. Considerado um poema controverso desde o momento da sua publicação, The Waste Land marcou o início de uma nova fase na poesia deste século. Eliot só voltou a publicar poesia em 1830, com The Hollow Men; no mesmo ano publicou Ash Wednesday, o registo poético da conversão do escritor ao catolicismo. As peças The Rock (1934) e Murder in the Cathedral (1935) refletem igualmente a adesão de Eliot à doutrina católica.

O mesmo acontece nos seus dramas posteriores: The Family Reunion (1939), The Cocktail Party (1950), The Confidential Clerk (1954) e The Elder Statesman (1958). Entretanto, entre 1935-42, Eliot produziu nova obra-prima, Four Quartets, publicada num único volume em 1943. Nos poemas que compõem aquela obra, Eliot aperfeiçoou uma linguagem poética própria, adequada às experiências espirituais que esses poemas traduzem.

A reputação de Eliot como figura cimeira do Modernismo europeu é indissociável de uma reflexão constante sobre a tradição literária inglesa, sobre a qual escreveu longamente. Os seus ensaios críticos revelam esta preocupação constante com a poesia e a tradição: The Sacred Wood (1920), Homage to Dryden (1924), The Use of Poetry and the Use of Criticism (1933), Elizabethan Essays (1934), Milton (1947), Poetry and Drama (1951), The Three Voices of Poetry (1953), On Poetry and Poets (1957). Entre os seus trabalhos de crítica social contam-se obras polémicas como After Strange Gods (1936), The Idea of a Christian Society (1939) e Notes Towards a Definition of Culture (1948).

O seu estilo desafiador está igualmente presente na reflexão sobre os escritores clássicos (Modern Education and the Classics, 1934) e em termos gerais na sua abordagem da literatura. Até ao final da sua vida, Eliot não deixou de se pronunciar de forma crítica sobre a expressão poética enquanto manifestação da consciência moderna. A consistência do seu pensamento e a coerência da sua formulação valeram-lhe um estatuto privilegiado na literatura anglo-americana. Em 1948 foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura. (daqui)



Horatio Henry Couldery, The Unexpected Guest, 1874. 


"Se você é digno de seu afeto, um gato será seu amigo, mas nunca seu escravo."

(Théophile Gautier)


quadrogiz at segunda-feira, julho 21, 2025 Sem comentários:
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domingo, 20 de julho de 2025

"O Sono" - Poema de Orlando Neves


 
Alphonse Eugène Félix Lecadre (Peintre français, 1842-1875), Le Sommeil, 1872.
Musée d'Arts de Nantes


O Sono 
 

É um braço magro de mulher, uns olhos espectrais
e brilhantes, uma cabeça de esfinge, uma lâmpada
que fumega. Talvez por os não vermos, vejamos rios
que flamejam, jardins sepultos, um antepassado

desconhecido e cinzento que se derrama no quarto,
um portão esvoaçante, uma pequena fenda por onde
se vai até às nuvens noturnas. Tudo o que
lá possa estar é tudo: a vassoura esquecida,

o rosto primordial da mãe, uma torre de cadáveres
ou um modesto banco de madeira onde deixaram
um vaso verídico de gerânios. Talvez um deus

vítreo, rútilo ou, pintada de azul, uma virgem ocre
no cume de colina grega. Uma estranha música soa
nas paredes, antes do exílio para onde nos leva o sono.


Orlando Neves,
in "Decomposição - A Casa", 1992


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sábado, 19 de julho de 2025

"Mãe" - Poema de Alfredo Brochado



Frederick Childe Hassam (American Impressionist painter, 1859–1935),
Summer Evening, 1886, Florence Griswold Museum.



Mãe

I

Dantes, quando a deixava,
As férias já no fim,
Ela vinha à janela
Despedir-se de mim.

Depois, quando na estrada,
Olhava para trás,
Deitava-me ainda a bênção
Para que eu fosse em paz.

Dali não se movia,
À vidraça encostada,
Até que eu me perdia
Já na curva da estrada.

Hoje, se olho, calo-me
E baixo os olhos meus!
Já não vem à janela
Para dizer-me adeus!

II

Chove, e a chuva é fria.
Noite! Nos montes distantes
O Inverno principia.
Um Inverno como dantes.

Ao redor do lume aceso
Todos ficamos a olhar...
Todos não, não somos todos,
Porque há vazio um lugar.

Esse lugar era o dela,
Que ninguém mais preencheu.
Mesmo com vida, na terra,
Era uma estrela no céu.


Alfredo Brochado, in 'Bosque Sagrado'



Alfredo Brochado, Bosque Sagrado - Poemas, 1949
Portugália Editora
 

"Cada homem é uma humanidade, uma história universal."

Jules Michelet, in Histoire de France, 
éd. Chamerot, 1861, vol. 4.
 
 
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sexta-feira, 18 de julho de 2025

"O nome da gente" - Poema de Pedro Bandeira

 


Clodoaldo Martins (Artista plástico brasileiro, n. 1985), 'Hora da leitura', 70x70cm.



O nome da gente


Por que é que eu me chamo isso
E não me chamo aquilo?
Por que é que o jacaré
Não se chama crocodilo?

Eu não gosto
do meu nome,
não fui eu
quem escolheu.
Eu não sei porque se metem
com um nome que é só meu!

O nenê
que vai nascer
vai chamar
como o padrinho,
vai chamar
como o vovô,
mas ninguém vai perguntar
o que pensa
o coitadinho.

Foi meu pai quem decidiu
que o meu nome fosse aquele.
Isso só seria justo
se eu escolhesse
o nome dele.

Quando eu tiver um filho,
não vou pôr nome nenhum.
Quando ele for bem grande,
ele que escolha um! 


Pedro Bandeira
, em "Cavalgando o arco-íris",
São Paulo, Moderna: 1984.
 


'Cavalgando o arco-íris' de Pedro Bandeira
Ilustrações Michio - Série Risos e Rimas
 
 
 SINOPSE

Amizade, medo do escuro, namoro, escola, a chegada do irmãozinho, a perda do animal de estimação, são alguns dos temas que Pedro Bandeira transformou em poesia. Cavalgando o arco-íris é um livro divertido, que, com muita ternura e simplicidade, fala sobre o quotidiano das crianças, suas experiências, alegrias e expectativas. Na verdade, Cavalgando o arco-íris é um livro para todas as idades. O poema "Nana, mamãe" era uma antiga canção de ninar que a mãe do autor cantava para ele dormir e que continua embalando várias gerações. O livro é um convite à poesia, feito por quem entende de crianças. 

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quinta-feira, 17 de julho de 2025

"Ou isto ou aquilo" - Poema de Cecília Meireles

 

Laurits Andersen Ring (Danish painter, 1854–1933), In the Month of June, 1899.
National Museum of Art, Architecture and Design
 
 
 Ou isto ou aquilo


Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.


Cecília Meireles, 
no livro 'Ou Isto ou Aquilo', 1964. 


'Ou Isto ou Aquilo' de Cecília Meireles. 
Ilustrações de Odilon Morae. Global Editora, 2012.
Faixa etária: 3 a 6 anos.


  SINOPSE

Publicado pela primeira vez em 1964, o livro é um clássico da literatura infantil brasileira. E desde seu lançamento, vem conquistando gerações de leitores. 
A autora convida as crianças a se aproximarem da poesia, brinca com as palavras, explora a sonoridade, o ritmo, as rimas e a musicalidade. Cecília Meireles resgata o universo infantil permeado por perguntas imprevisíveis, monólogos, comparações incomuns, fantasia e imaginação. Ela cria um universo encantador, a partir de recursos que o género e a língua lhe proporcionam.
 

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quarta-feira, 16 de julho de 2025

"O Cão e os Pássaros" - Poema de Zalina Rolim



Henriëtte Ronner-Knip (Dutch-Belgian artist, 1821–1909),
Cat Spying on Birds near a Sleeping Dog, 1875.
 

O Cão e os Pássaros


FEROZ é um velho cão de guarda. A gente,
Que o vê de longe, teme-lhe os olhares,
E examina a grossura da corrente
Férrea, que o liga ao muro dos seus lares.

Ninguém lhe amima o dorso largo e forte;
Ninguém procura o seu olhar profundo;
Do seu caminho fogem, de tal sorte
Que ele se vê sozinho neste mundo.

O próprio dono evita-lhe os afagos,
Olha-o receoso, e se aproxima a custo.
Do velho cão nos grandes olhos vagos,
Paira a tristeza de um castigo injusto.

Não compreende o terror por ele aceso;
Quer mostrar-se bondoso, e a cauda agita,
Mas o rumor dos ferros, que o têm preso,
Mais pavor nos corações excita.

E ele, sentindo assomos de revolta,
Tenta quebrar os elos da cadeia...
Mas, pouco a pouco, a placidez lhe volta,
E o louco instinto, devagar, sopeia.

Inclina o corpo e estende-se por terra,
Preso ao terror, que a própria força inspira;
E, silencioso, húmidos olhos cerra,
Sem mais vislumbre de despeito ou ira.

Velando à porta do casebre, sonha...
O campo é todo verde; o céu fulgura,
E erra no espaço, trêfega e risonha,
A azado vento a derramar frescura.

Nova agonia o coração lhe aperta,
Nostálgico, aspirando o fim de tudo...
Nisto, um ligeiro frémito o desperta,
E ele abre os olhos, cauteloso e mudo.

São passaritos. Ei-los! Não têm medo
Vêm partilhar com ele o magro almoço.
E, compassivo, espera imóvel, quedo,
Que eles se vão, para roer um osso.

E o velho cão de pavoroso aspeto,
Que nunca teve a graça de uns carinhos,
Sentindo o peito a transbordar de afeto,
Trémulo escuta a voz dos passarinhos.


Zalina Rolim
, em "Livro das Crianças", 1897 


Henriëtte Ronner-Knip, "Das kleine Fuhrwerk" (The Little Wagon), c. 1909.
 

"O menino que sofre e se indigne diante dos maus tratos infligidos aos animais, 
será bom e generoso com os homens." 
 
(Benjamin Franklin)



Henriëtte Ronner-Knip, "Kurze Rast" (Cart Dog at Rest), c. 1909
 

"Podemos julgar o coração de um homem pela forma como ele trata os animais."
 
(Immanuel Kant)

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