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"Educai as crianças e não será preciso punir os homens." (Pitágoras - filósofo e matemático grego)

sábado, 31 de janeiro de 2026

"Uma lágrima no mar" - Poema de Mário Avelar



Winslow Homer (American landscape painter and illustrator, 1836–1910),
The Fog Warning, 1885; Museum of Fine Arts, Boston, U.S.


Uma lágrima no mar

 
Falou-me da nostalgia
que nos roubaram quando
levaram deus e no seu
lugar apenas restou
uma ténue luz, um vulto
ou… uma sombra, talvez.
Desde então, dizia, resta-nos
perseguir essa quimera,
julgá-la dentro de nós.
Conhece-te a ti mesmo
está bem… Mas instantes há
em que nos falta um nexo,
e então é deus que nos
falta. Orgulhosamente
sós, pois bem. Nem sequer
um beijo da nostalgia. 


Mário Avelar
,
in "Coreografando Melodias no Rumor das Imagens", 2018. 
 

 
Winslow Homer, Moonlight, Wood Island Light, 1894;
Metropolitan Museum of Art, New York City.


"O coração do homem é muito parecido com o mar, ele tem suas tempestades,
suas marés e suas profundezas; ele tem suas pérolas também."


Vincent van Gogh
(Trecho de uma carta para seu irmão mais novo, Theo van Gogh, em 1882.)
 
 
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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

"O livro dos mortos" - Poema de Regina Guimarães

 

Bertha Wegmann (Danish portrait painter of Swiss ancestry, 1847–1926),
Woman sewing in an interior, 1891.

O livro dos mortos


Entra sim mas não repares
no estado em que a casa está.
Não repares no que vês por mim
já não vale a pena
o estado, a casa é pequena,
e os olhos sempre cruéis.
Se entrares fica então sabendo
que o corpo só de si fala
se de pés e mãos atadas
e se paisagem correndo
tapar todas as entradas.
Não passes além da porta
e escolhe um ponto de vista
que te dê razão de sobra
para não seguires em frente
- quem irá adivinhar que não mandas, 
obedeces,
que escutas e não te ouvem?
Não entres, nem que quisesses
não poderias galgar o estorvo
que significa chegar
sem ser convidado.
Existe um pacto do corpo
com o espaço e com o tempo
no primeiro o corpo para
no segundo julga andar.
Em vez de quereres entrar
onde nem porta nem fecho
repara no que há lá dentro
e não esqueças que a nudez
vestida como castigo
e usada no pensamento
por desgosto delirante
viria a ser castigada.
Ou seja: se não entrares
darás a subentender
que só de livre vontade
que só por vontade tua
ficas no olho da rua.
Quem sai da mira dos deuses
passa a ser presa dos homens.
Ou alvo em movimento. 


Regina Guimarães,
in "Antes de mais e depois de tudo."
 

 
"Antes de mais e depois de tudo" de Regina Guimarães
Editora Exclamação, 2020


SINOPSE

Regina Guimarães
(Porto, 1957) é autora de uma obra poética colossal, iniciada em 1974, e que se estende por várias dezenas de livros.
Esta é a primeira antologia com textos escolhidos a partir de vários dos seus livros.
É uma seleção breve e pensada para oferecer, tanto quanto possível, uma visão panorâmica da extensa e singularíssima obra de Regina Guimarães. 

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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

"Partida" e "Regresso" - Poemas de José Agostinho Baptista



Max Pechstein (German expressionist painter and printmaker and a member
of the Die Brücke group, 1881–1955), Meadow at Moritzburg, 1910.


Partida


Partirei.
E ao partir, ninguém saberá quem fui,
quantas horas passei, à beira das lápides,
sem pensar em nada.
Cairá o sol sobre o meu peito.
Cairá a escuridão.

Nas planícies do pai,
há um filho que escreve o livro dos órfãos.
O vento move as espigas.
No centeio e no trigo ouve-se um lamento.
Agora sim, direi adeus. 


José Agostinho Baptista, in "Quatro Luas"
Assírio & Alvim, 2006.
 

 
Max Pechstein
, The Red House, 1911, Israel Museum, Jerusalem.


Regresso


Há muito que parti.
Abandonei as searas onde nunca vi os
desígnios de deus.
Abandonei a fé.
Caminhei sem destino,
procurei a árvores secreta dos irmãos,
e, com saudade e desvario, abandonei as casas.

Escondi-me.
Escondi o último verso numa noite sem fim.
E hoje escrevo para ti que às vezes me escreves,
do outro lado das terras.
Conhecerei um dia as falésias onde o garajau
paira,
quando chegar, pelas madrugada,
às portas do teu sonho?

De pé, sobre o promontório,
olhas para longe, para os meus barcos que
naufragaram.


José Agostinho Baptista, in "Quatro Luas"
Assírio & Alvim, 2006.
 
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

"Os amigos que morrem" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão


 
Claude Monet (French painter and founder of impressionist painting, 1840–1926),
"Vue de Vétheuil", 1880, Alte Nationalgalerie.

Os amigos que morrem 


Os amigos que morrem são arbóreos,
plantados e memoráveis como freixos.
Um freixo, que vejo entre árvores
como a aura, o tronco novo
sulcado de rasgões, a raiz curta
comparável à memória viva enterrada.
Têm uma única forma até à morte, próximos do Sol,
que torna as outras árvores mais ténues que os isolados freixos.


Fiama Hasse Pais Brandão



Claude Monet, "The Church at Varengeville, Grey Weather", 1882, Speed Art Museum.

 
"Ele ainda era demasiado jovem para saber que a memória do coração elimina as coisas más e amplia as coisas boas, e que graças a esse artifício conseguimos suportar o peso do passado."


Gabriel García Márquez
, em O Amor nos tempos de cólera, 1985.



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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

"Oração de todas as horas" e "A cada verso nasço" - Poemas de Sebastião da Gama



Auguste Herbin (French painter of modern art, 1882–1960),
After the Rain at La Roche-Guyon, 1906.



Oração de todas as horas 

 
Agora,
que eu já não sei andar nas trevas,
não me roubes a Tua Mão, Senhor,
por piedade!
Voltar às trevas não sei,
e sem a Tua Mão não poderei
dar um só passo em tanta Claridade.

Pelas Tuas feridas minhas, pelas tristezas
de Tua Mãe, Jesus.
não me deixes, no meio desta Luz,
de pernas presas...

Não me deixes ficar
com o Caminho todo iluminado
e eu parado e tão cansado
como se fosse a andar...
 

Sebastião da Gama (1924-1952)




Auguste Herbin, Maison au bord du Fleuve, 1906.
 

A cada verso nasço


A cada verso nasço…
É cada verso o meu primeiro grito
à Vida…

Depois,
se caminho apalpando e aos tombos, e se, aflito,
não atino e me perco até de mim
– é que os raios do Sol cegaram, despiedados,
meus olhos mal abertos, costumados
à escuridão do ventre de onde vim.


Sebastião da Gama 

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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

"Noite" - Poema de Manuel da Fonseca



Claude-Joseph Vernet (French painter, 1714–1789), "The Shipwreck", 1772,
National Gallery of Art, Washington, D.C.


Noite


Milhões de barcos perdidos no mar!
Perdidos na noite!
As velas rasgadas de todos os ventos
Os lemes sem tino
vogando ao acaso
roçando no fundo
subindo a vaga
tocando as rochas!
E quantos e quantos naufragando...

Quem vem acender faróis na costa do mar bravo?!
Quem?!


Manuel da Fonseca, in Obra Poética. 
Lisboa, Editorial Caminho, 1984.
 


Claude-Joseph Vernet, "A Shipwreck in Stormy Seas", 1773, National Gallery, London.


"Os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e tempestades."

Epicuro de Samos

(Filósofo grego do período helenístico, 341 a.C., Samos — 271 ou 270 a.C., Atenas)

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domingo, 25 de janeiro de 2026

"Jogo" e "Pouco é um Homem" - Poemas de Armindo José Rodrigues



William Bruce Ellis Ranken (British artist and Edwardian aesthete, 1881–1941),
The Young Polo Player, 1920, Blackburn Museum and Art Gallery.


Jogo

 
Estão as cartas dadas.
O jogo está feito.
Não é por respeito
que me dão pedradas.

Peço à igualdade
que haverá um dia,
mesmo que tardia,
que me sempre agrade.

Riquezas não espero.
De glórias motejo.
Nem outro desejo
menor considero.

Se invejas provoco
por dons naturais
não preciso mais.
Chega-me o meu pouco.

Não sendo agressão,
pois me nem abala,
a mim que me rala
outra opinião?

Todo o meu anseio
se cifra em querer
a sorte vencer,
sem sentir receio.

Se o posso ou o nego
não posso sabê-lo,
senão a sofrê-lo
com desassossego. 


 Armindo José Rodrigues,
in, "Ocasional a Vida"
 

 
William Bruce Ellis Ranken, Pipe Practice, 1918.
Dundee Art Galleries and Museums


Pouco é um Homem 

 
Pouco é um homem e, no entanto, nele
cabe tudo o que existe e fica ainda
espaço bastante para poder negá-lo. 


Armindo José Rodrigues,
in 'Beleza Prometida (XC)'
 
 

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sábado, 24 de janeiro de 2026

"Correspondência ao mar" - Poema de Vitorino Nemésio


 
Max Römer (Pintor de origem alemã que viveu na ilha da Madeira, 1878-1960),
Baía do Funchal, Madeira, 1955.



Correspondência ao mar


Quando penso no mar
A linha do horizonte é um fio de asas
E o corpo das águas é luar;

De puro esforço, as velas são memória
E o porto e as casas
Uma ruga de areia transitória.

Sinto a terra na força dos meus pulsos:
O mais é mar, que o remo indica,
E o bombeado do céu cheio de astros avulsos.

Eu, ali, uma coisa imaginada
Que o eterno pica,
Vou na onda, de tempo carregada,

E desenrolo:
Sou movimento e terra delineada,
Impulso e sal de polo a polo.

Quando penso no mar, o mar regressa
A certa forma que só teve em mim —
Que onde ele acaba, o coração começa.

Começa pelo aro das estrelas
A compasso retido em mente pura
E avivado nos vidros das janelas.

Começa pelo peito das baías
Ao rosar-se e crescer na madrugada
Que lhe passa ao de leve as orlas frias.

E, de assim começar, é abstrato e imenso:
Frio como a evidência ponderada,
Quente como uma lágrima num lenço.

Coração começado pelos peixes,
És o golfo de todo o esquecimento
Na mínima lembrança que me deixes,

E a Rosa dos Ventos baralhada:
Meu coração, lágrima inchada,
Mais de metade pensamento.


Vitorino Nemésio
, "O Bicho Harmonioso", 1938
in "Poesia (1916-1940)"
 

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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

"Delfos, Opus 12" - Poema de Pedro Tamen



John Collier (English painter and writer, 1850–1934), Priestess of Delphi, 1891,
Art Gallery of South Australia.

[In the painting, "Priestess of Delphi" by The Honorable John Collier, a priestess – the Pythia – is depicted in a trance state, seated over a fissure in the rock through which vapors rise from the underground stream. In her left hand is a sprig of laurel – in Greek mythology, Apollo’s sacred tree – and in the other hand a bowl meant to hold some of the water from the stream containing the gases.
The Pythia was the name of the high priestess of the Temple of Apollo at Delphi who also served as the oracle, also known as the Oracle of Delphi].


"Delfos, Opus 12"
 
 Poema
11 


«Penetra de alma pura no templo do deus puro.
Mergulha os membros nas águas de Castália.
Ó peregrino, só uma gota basta ao homem de boa mente.
E a água do oceano não apaga
a mancha do malvado.»
O que é pureza e é saúde,
o que em tudo respira equilibrado,
ele que detesta a sujidade
limpa a limpeza do coração já limpo.
E as Erínias enfim serão vencidas.


Pedro Tamen
, in "Delfos, Opus 12", 1987;
in "Tábua das Matérias: poesia 1956/1991",

 
 
"Tábua das Matérias" de Pedro Tamen
Sintra: Tertúlia, 1991,
1.ª ed.
 
"Tábua das Matérias" da autoria de Pedro Tamen, inclui Poema para Todos os Dias, 1956; O Sangue, a Água, o Vinho, 1958; Primeiro Livro de Lapinova, 1960; Poemas a Isto, 1962; Daniel na Cova dos Leões, 1970; Escrito de Memória, 1973; Os Quarenta e Dois Sonetos, 1973; Agora, Estar, 1975; O Aparelho Circulatório, 1978; Horácio e Coriáceo, 1981; Dentro de Momentos, 1984; Delfos, Opus 12, 1987; Inéditos e Esparsos, 1965-1991. 
As duas primeiras coletâneas coligidas têm como fio condutor um tom celebratório subtilmente tecido com símbolos eucarísticos, em composições integradas, segundo Fernando J. B. Martinho (cf. MARTINHO, Fernando J. B. - Tendências Dominantes da Poesia Portuguesa da Década de 50, Lisboa, 1996, pp. 411-416), numa unidade fundada numa estrutura compositiva triádica. 
Os volumes iniciais anunciam ainda alguns dos traços que distinguem a poética de Pedro Tamen, nomeadamente o obscurecimento da escrita pela aproximação a um certo nonsense, de cunho quase lúdico, obtido pela rutura com a estrutura logicista da frase e que o coloca na senda das aquisições surrealistas, e acresce a recriação de uma fala endereçada a um tu, destinatário da ilocução religiosa, nas primeiras obras, ou amorosa, em obras como o Primeiro Livro de Lapinova. 
Deste modo, na escrita de Pedro Tamen a vivacidade verbal é "fruto de um dinamismo sintático e vocabular que transgride constantemente a linearidade do discurso. [...] o poema é um organismo vivo, extremamente intenso, em que algo se passa que não podemos determinar bem mas que, na sua imediatidade, constitui uma fulguração que nos abre perspetivas na imensidade cósmica e humana." (cf. "A poesia incoativa de Pedro Tamen", in ROSA, António Ramos, A Parede Azul, Estudos sobre Poesia e Artes Plásticas, Lisboa, 1991, pp. 101-102). (daqui)
 
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

"Carta a um Adolescente" - Poema de Lindolf Bell

 

 
Paul Cézanne (French Post-Impressionist painter, 1839–1906),
Boy in a Red Waistcoat (The Boy in the Red Vest), 1888–1890,
National Gallery of Art, Washington D.C.


Carta a um Adolescente


Fizeste alusão ao trigo morto na tempestade,
ao teu pai,
ao teu irmão,
à rosa desfeita,
e consentiste tudo quando murmurei:
"a dor maior
é sermos isentos de querer.
Sem prefixos
seremos mais livres.
Deixa os deuses.
São ambíguos".

Oh! Grande metáfora,
morte de tão pesada duração
bruma,
esplêndida revolta
de teu coração sem volta,
amálgama amada,
emergência.

Lembro bem de teus olhos simples,
simples olhos fundos.
Das olheiras escuras
como limbo de peras.

Mas como explicar o ar de saque,
se em cada coração existe um dique
sempre prestes a transbordar,
se colhemos o doce crime um do outro?

Existência híbrida de infância e madurez!
Deslumbramentos, 
quanta avidez fibra por fibra
e que desvairada confluência. 


Lindolf Bell,
em "Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973".
São Paulo: Quíron, 1974. 
 
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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

"Caminhos Brancos" - Poema de Branquinho da Fonseca



Karl Nordström (Swedish painter, 1855–1923), Winter Night, 1915.


Caminhos Brancos 


Chamaram-me e não sei que voz
era aquela que lá ao longe ouvia,
e não sei onde foi, nem em que dia,
nem se era só por mim ou se por todos nós.

Nasceu a lua e a voz chamou-me
ainda outra vez. Ergui-me e caminhei.
Ouvira bem: agora era o meu nome.
– O resto ainda não sei.

Há quantos sóis, há quantas luas foi?
Outros ouviram e vim eu sozinho.
Hoje o mesmo cansaço a todos dói
mas não dou por inútil o caminho.


Branquinho da Fonseca,
in "Obras Completas: Vol. 1".
Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2010, p. 198.


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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

"Escrito na Ponte de Westminster, a 3 de Setembro de 1802" - Poema de William Wordsworth

 

 
André Derain (French artist, painter, sculptor and co-founder, with Henri Matisse,
of Fauvism, 1880–1954), Big Ben, 1906 – Musée d'Art moderne de Troyes.


Escrito na Ponte de Westminster,
a 3 de Setembro de 1802


Não tem a terra nada mais belo para mostrar
Pobre de espírito seria aquele que pudesse ignorar
esta visão tão comovente na sua majestade
Como um traje veste agora esta cidade

a beleza da manhã. Silenciosas e nuas
torres cúpulas navios teatros catedrais a prumo
erguem-se no céu e estendem-se pelas ruas
brilhantes e reluzentes no ar sem fumo

Nunca o sol se ergueu com tanta alma
por sobre vales rochedos e colinas
nunca vi nunca senti uma tão profunda calma

O rio desliza consoante o seu desejo
Meu Deus o casario parece que dorme
Dorme também aquele coração enorme 


William Wordsworth
 
Tradução de Jorge de Sousa Braga 

*** 

Composed upon Westminster Bridge,
 September 3, 1802

 
Earth hath not anything to show more fair:
Dull would he be of soul who could pass by
A sight so touching in its majesty:
This City now doth, like a garment, wear
The beauty of the morning; silent, bare,
Ships, towers, domes, theatres and temples lie
Open unto the fields, and to the sky;
All bright and glittering in the smokeless air.
Never did sun more beautifully steep
In his first splendor, valley, rock, or hill;
Ne'er saw I, never felt, a calm so deep!
The river glideth at his own sweet will:
Dear God! The very houses seem asleep;
And all that mighty heart is lying still!


William Wordsworth
 
 

André Derain, The Palace of Westminster, 1906–1907,
The Metropolitan Museum of Art.


André Derain, Charing Cross Bridge, London, 1906,
National Gallery of Art, Washington, D.C.



André Derain, Londres, Westminster, 1906, Musée de l'Annonciade à Saint-Tropez.


"Você não encontra nenhum homem, de forma alguma intelectual, que esteja disposto a deixar Londres.
Não, senhor, quando um homem está cansado de Londres, ele está cansado da vida;
porque há em Londres tudo que a vida pode oferecer."


Samuel Johnson (1709–1784), citado em "The Life of Samuel Johnson"
de James Boswell (1740–1795), 1791 (página 160) - 516 páginas.

 

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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

"A arte e a sociedade" - Texto de Natália Correia



Jackson Pollock (American painter, 1912-1956), Blue Poles: Number 11, 1952.
Enamel and aluminium paint with glass on canvas, 212.9 x 488.9 cm.
Movement: Abstract expressionism. National Gallery of Australia, Canberra.


A arte e a sociedade

A arte e a sociedade são inseparáveis. A sociedade produz a arte e o produto aperfeiçoa a sociedade. Esta finalidade pode não estar imediatamente patente na espécie artística, mas é ela que a determina. Até mesmo as formas de arte declaradamente negativas ou indiferentes obedecem por caminhos ínvios a esta lei.


Natália Correia, Entrevista (1961) 
 
 

Jackson Pollock, Mural, 1943. Oil and casein on canvas.
University of Iowa Museum of Art, Iowa City.


"Eu não pinto a natureza, eu sou a natureza".

Jackson Pollock, 
Citado em Ars‎ - Página 13, de Departamento de Artes Plásticas, Universidade de São Paulo.
Publicado por Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, 2003.
 
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domingo, 18 de janeiro de 2026

"O Inverno" - Poema de Eugénio de Andrade


 
Giulio Beda
(Italian-German painter, 1879-1954), "Wieninger Street in Winter", 1908.


O Inverno


Velho, velho, velho
Chegou o Inverno.

Vem de sobretudo,
Vem de cachecol,
O chão onde passa
Parece um lençol.

Esqueceu as luvas
Perto do fogão:
Quando as procurou,
Roubara-as um cão.

Com medo do frio
Encosta-se a nós:
Dai-lhe café quente
Senão perde a voz.

Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.


Eugénio de Andrade,
in "Aquela nuvem e outras", 1986.
 
 

Giulio Beda, "Winterlicher Weg", 1907.


Neve ou não neve
onde há amigos
a vida é leve

 Alice Ruiz, Haikais

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sábado, 17 de janeiro de 2026

"Janeiro" - Poema de W. S. Merwin



Auguste Herbin (French painter of modern art, 1882–1960),
The Roofs of Paris in the Snow, 1902.



Janeiro


E assim depois de semanas de chuva
à noite as estrelas de inverno
tão mais distantes no céu
que não tivemos olhos para ver
seguem forjando na longínqua luz
os elementos pesados
que quando as estrelas se vão
voam pelo ar como pó muitas vezes
mais fino que um fio de cabelo
e se reconhecem
na escuridão viajando
em grande velocidade e tornando-se
nossos corpos no nosso tempo
olhando juntos para cima após
a chuva na noite fria


W. S. Merwin

Trad. de Nelson Santander


***

January 
(original)

So after weeks of rain
at night the winter stars
that much farther in heaven
without our having seen them
in far light are still forming
the heavy elements
that when the stars are gone
fly up as dust finer
by many times than a hair
and recognize each other
in the dark traveling
at great speed and becoming
our bodies in our time
looking up after rain
in the cold night together


W. S. Merwin,
in "The Pupil: Poems", 2001.



Auguste Herbin, Snow at Haut Isle, 1906.


"Na natureza não existem prémios, nem sequer punições. Existem consequências!"


James McNeill Whistler (Pintor norte-americano, 1834–1903),
Citado em Collins Quotation Finder‎ - Página 472. Publicado por HarperCollins, 2001 - 829 páginas.
 

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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

"Lamento da mãe orfã" - Poema de Cecília Meireles

 

 
Otto Freundlich
(German painter and sculptor of Jewish origin, 1878–1943),
The Mother, 1921, Berlinische Galerie.



Lamento da mãe orfã


Foge por dentro da noite
reaprende a ter pés e a caminhar,
descruza os dedos, dilata a narina à brisa dos ciprestes,
corre entre a luz e os mármores,
vem ver-me,
entra invisível nesta casa, e a tua boca
de novo à arquitetura das palavras
habitua,
e teus olhos à dimensão e aos costumes dos vivos!

Vem para perto, nem que já estejas desmanchando
em fermentos do chão, desfigurado e decomposto!
Não te envergonhes do teu cheiro subterrâneo,
dos vermes que não podes sacudir de tuas pálpebras,
da humidade que penteia teus finos, frios cabelos
cariciosos.

Vem como estás, metade gente, metade universo,
com dedos e raízes, ossos e vento, e as tuas veias
a caminho do oceano, inchadas, sentindo a inquietação das marés.

Não venhas para ficar, mas para levar-me, como outrora também te trouxe,
porque hoje és dono do caminho,
és meu guia, meu guarda, meu pai, meu filho, meu amor!

Conduze-me aonde quiseres, ao que conheces, – em teu braço
recebe-me, e caminhemos, forasteiros de mãos dadas,
arrastando pedaços de nossa vida em nossa morte,
aprendendo a linguagem desses lugares, procurando os senhores
e as suas leis,
mirando a paisagem que começa do outro lado de nossos cadáveres,
estudando outra vez nosso princípio, em nosso fim.


Cecília Meireles,
in "Mar absoluto", 1945
.


 
Otto Freundlich, "Kopf (Selbstbildnis)", Head (Self -Portrait), 1923.


Otto Freundlich (Słupsk, Pomerânia, 10 de julho de 1878—Majdanek, 9 de março de 1943) foi um pintor e escultor alemão. 
Estudou odontologia, antes de decidir converter-se em artista. Em 1909 viajou a Paris, onde conheceu  Picasso. Adscrito por um tempo ao cubismo, mudou para a arte abstrata em 1919, sendo membro dos grupos Cercle Carré e Abstraction-Création, assim como do agrupamento artístico de signo político Novembergruppe. 
De origem judaica, foi qualificado pelos nazistas como "artista degenerado", sendo eleita a sua obra O Homem Novo (Der Neue Mensch) para a capa do catálogo da exposição Arte degenerada - celebrada em Munique em 1937 -  antes de ser destruída. 
Morreu no campo de concentração de Majdanek, na Polónia. (daqui)
 

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

"A quarta porta" - Poema de Manuel António Pina


 
Jimmy Ernst (American painter born in Germany, 1920–1984), Oracle, 1971.

 

A quarta porta


É a solidão
o que o coração procura,
como poderei não
saber o que não sei?

Estou cada vez mais longe de qualquer coisa,
regressarei alguma vez
a tudo o que há de vir?
O que está atrás de ti

é a tua imagem
que o Futuro persegue.
Este é um lado de tudo
e o outro é o mesmo e o outro.


Manuel António Pina,
in 'Aquele que quer morrer', 1978.


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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

"Intertextualidades" - Poema de Ana Luísa Amaral

 

 
Edmund C. Tarbell
(American Impressionist painter, 1862–1938),
Girl Reading, 1909, Museum of Fine Arts Boston.
 
 

Intertextualidades


Microscópica quase,
uma migalha entre as folhas de um livro
que ando a ler.

Emprestaram-me o livro,
mas a migalha não.
No mistério mais essencial,
ela surgiu-me recatadamente,
a meio de dois parágrafos solenes.
Embaraçou-me o pensamento,
quebrou-me o fio (já ténue) da leitura.
Sedutora, intrigante.

Fez-me pensar nos níveis que há de ler:
o assunto do livro
e a migalha-assunto do leitor

(era pão a matéria consumida no meio
de dois parágrafos e os olhos
consumidos: virar a folha, duas linhas lidas,
a intriga do tempo quando foi
e levantou-se a preparar o pão
voltando a outras linhas).

Fiquei com a migalha,
desconhecida oferta do leitor,
mas por jogo ou consumo
deixei-lhe uma migalha minha,
não marca de água, mas de pão também:
um tema posterior a decifrar mais tarde
em posterior leitura
alheia.


Ana Luísa Amaral, 
in "Minha Senhora de Quê", 1990.


quadrogiz at quarta-feira, janeiro 14, 2026 Sem comentários:
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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

"Vozes do Mar" - Poema de Florbela Espanca


Firmino Monteiro (Pintor brasileiro, 1855 - 1888), Paisagem, 1885, Museu Afro Brasil.
 
 
Vozes do Mar


Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d'oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?

Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?

Tens cantos d'epopeias? Tens anseios
D'amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!

Donde vem essa voz, ó mar amigo?
... Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade


Florbela Espanca
, Poesia Completa,
Publicações Dom Quixote, 2000. 

quadrogiz at terça-feira, janeiro 13, 2026 Sem comentários:
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

"O Rio" - Poema de Olavo Bilac

 

 
André Derain (French artist, painter, sculptor and co-founder, with Henri Matisse,
of Fauvism, 1880–1954), The River, 1912.


O Rio 



Da mata no seio umbroso,
No verde seio da serra,
Nasce o rio generoso,
Que é a providência da terra.

Nasce humilde; e, pequenino,
Foge ao sol abrasador;
É um fio d'água, tão fino,
Que desliza sem rumor.

Entre as pedras se insinua,
Ganha corpo, abre caminho,
Já canta, já tumultua,
Num alegre borburinho.

Agora ao sol, que o prateia,
Todo se entrega, a sorrir;
Avança, as rochas ladeia,
Some-se, torna a surgir.

Recebe outras águas, desce
As encostas de uma em uma,
Engrossa as vagas, e cresce,
Galga os penedos, e espuma.

Agora, indómito e ousado,
Transpõe furnas e grotões,
Vence abismos, despenhado
Em saltos e cachoeirões.

E corre, galopa, cheio
De força; de vaga em vaga,
Chega ao vale, alarga o seio,
Cava a terra, o campo alaga...

Expande-se, abre-se, ingente,
Por cem léguas, a cantar,
Até que cai finalmente,
No seio vasto do mar...

Mas na triunfal majestade
Dessa marcha vitoriosa,
Quanto amor, quanta bondade
Na sua alma generosa!

A cada passo que dava
O nobre rio, feliz
Mais uma árvore criava,
Dando vida a uma raiz.

Quantas dádivas e quantas
Esmolas pelos caminhos!
Matava a sede das plantas
E a sede dos passarinhos...

Fonte de força e fartura,
Foi bem, foi saúde e pão:
Dava às cidades frescura,
Fecundidade ao sertão...

E um nobre exemplo sadio
Nas suas águas se encerra;
Devemos ser como o rio,
Que é a providência da terra:

Bendito aquele que é forte,
E desconhece o rancor,
E, em vez de servir a morte,
Ama a vida, e serve o Amor!


Olavo Bilac
, em Poesias Infantis
 

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