Christian Tagliavini, Dame di Cartone, Fifties I, 2008
Estátua
Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, - frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.
Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.
E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correcto
Desse entreaberto lábio gelado...
Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.
(Camilo Pessanha)
Biografia de Camilo Pessanha (2)
Tirou o curso de direito em
Coimbra. Procurador Régio em
Mirandela (1892), advogado em
Óbidos, em 1894, transfere-se para
Macau, onde, durante três anos, foi professor de Filosofia Elementar no
Liceu de Macau, deixando de leccionar por ter sido nomeado, em 1900, conservador do registo predial em Macau e depois juiz de comarca. Entre 1894 e 1915 voltou a
Portugal algumas vezes, para tratamento de saúde, tendo, numa delas, sido apresentado a
Fernando Pessoa que era, como
Mário de Sá-Carneiro, apreciador da sua poesia.
Publicou poemas em várias revistas e jornais, mas seu único livro
Clepsidra (1920), foi publicado sem a sua participação (pois encontrava-se em Macau) por
Ana de Castro Osório, a partir de autógrafos e recortes de jornais. Graças a essa iniciativa, os versos de Pessanha salvaram-se do esquecimento. Posteriormente, o filho de Ana de Castro Osório, João de Castro Osório, ampliou a
Clepsidra original, acrescentando-lhe poemas que foram encontrados. Essas edições foram publicadas em 1945, 1954 e 1969.
Além das características simbolistas que sua obra assume, já bem conhecidas, Camilo Pessanha antecipa alguns princípios de tendências modernistas.
Camilo Pessanha buscou em
Charles Baudelaire, proto-simbolista francês, o termo
“Clepsidra”, que elegeu como título do seu único livro de poemas, praticando uma poética da sugestão como proposta por
Mallarmé, evitando nomear um objeto direta e imediatamente.
Por outro lado, segundo o pesquisador da
Universidade do Porto Luís Adriano Carlos, o seu chamado
"metaforismo" entraria no mesmo rol estético do
imagismo, do
inteseccionismo e do
surrealismo, buscando as relações
analógicas entre
significante e
significado por intermédio da clivagem dinâmica dos dois planos. Junto de sua fragmentação sintática, que segundo a pesquisadora da
Universidade do Minho Maria do Carmo Pinheiro Mendes substitui um mundo ordenado segundo leis universalmente reconhecidas por um mundo fundado sobre a ambiguidade, a transitoriedade e a fragmentação, podemos encontrar na obra de Camilo Pessanha, de acordo com os dois autores citados, duas características que costumam ser mais relacionadas à
poesia moderna que ao
Simbolismo mais convencional.
Apesar da pequena dimensão da sua obra, é considerado
um dos poetas mais importantes da língua portuguesa. Camilo Pessanha morreu no dia 1 de Março de 1926 em
Macau, devido ao uso excessivo de
Ópio.
Obra do designer gráfico e fotógrafo
Christian Tagliavini (2)
Dame di Cartone, Fifties II
Dame di Cartone, Fifties III
Dame di Cartone, Cubism I - Cardboard Ladies.
Dame di Cartone, Cubism II
Dame di Cartone, Cubism III
Dame di Cartone, 17th Century I
Dame di Cartone, 17th Century II
Dame di Cartone, 17th Century III