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terça-feira, 11 de junho de 2019

"Primavera" - Poema de Augusto dos Anjos


Patrick William Adam, In the Garden, the Knoll, North Berwick, 1915



Primavera

A meu irmão Odilon dos Anjos


Primavera gentil dos meus amores,
- Arca cerúlea de ilusões etéreas,
Chova-te o Céu cintilações sidéreas
E a terra chova no teu seio flores!

Esplende, Primavera, os teus fulgores,
Na auréola azul dos dias teus risonhos,
Tu que sorveste o fel das minhas dores
E me trouxeste o néctar dos teus sonhos!

Cedo virá, porém, o triste outono,
Os dias voltarão a ser tristonhos
E tu hás de dormir o eterno sono,

Num sepulcro de rosas e de flores,
Arca sagrada de cerúleos sonhos,
Primavera gentil dos meus amores!


Augusto dos Anjos


Patrick William Adam, Tulips, Forgetmenots, 1928



Repuxo Iluminado

 
Em líquidos caules,
irisadas flores d'água
cintilam ao sol.


Helena Kolody
(Haicai) 
 
 

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

"Solitário" - Poema de Augusto dos Anjos





Solitário


Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta…
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
-Velho caixão a carregar destroços-

Levando apenas na tumbal carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!




domingo, 2 de outubro de 2016

"Versos Íntimos" - Poema de Augusto dos Anjos


William-Adolphe Bouguereau (1825-1905), Égalité devant la mort, 1848



Versos Íntimos


Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te a lama que te espera!
O Homem que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo, acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro.
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa ainda pena a tua chaga
Apedreja essa mão vil que te afaga.
Escarra nessa boca de que beija!




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