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domingo, 6 de agosto de 2017

"Bicicleta" - Poema de Herberto Helder


Lyonel Feininger (1871-1956), A Corrida de Bicicleta



Bicicleta


Lá vai a bicicleta do poeta em direção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais –
lá vai o poeta em direção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.

O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e desaparece
uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.

De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.

O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.

Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
O poeta dá à pata como os outros animais.

Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.




segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

"Bolinhas de sabão" - Poema de Valéria Tarelho


Luigi Amato (italian painter, 1889-1961), Blowing Bubbles



Bolinhas de sabão


Bolinhas de sabão
sobem sobem
até que explodem
desaparecem no ar

Mais um sopro
e lá vão elas
- tão belas e circulares -
soltas tontas pelos ares

Cintilantes e molhadas
as bolhas são recheadas
de gostosas gargalhadas
e doces sonhos de criança

Todas elas redondinhas
grandes e pequenininhas
pairam brilham bailam
se movimentam
na dança
no embalo do vento

Sobem sobem
se desmancham
- uma a uma
então estoura -
e vão-se embora por fim

Nem assim
o encantamento
evapora





Danny MacAskill's Imaginate


quarta-feira, 2 de julho de 2014

"A minha bicicleta" - Poema de Fernando Miguel Bernardes


Luiz Cavalli, Sky Bike, 2011, 30x30cm


A minha bicicleta


A minha bicicleta
só tem dois pedais
mas se monto nela
não tem dois, tem mais!

A minha bicicleta
tem um guiador
quando monto nela...
...sou aviador!

No jardim onde ando
não vejo um canteiro...
sou aviador,
vejo o mundo inteiro

Voo mesmo a sério!...

Por cima das árvores
(não toco no chão!)
voo mesmo a sério
vou de avião...

A minha bicicleta
também tem selim
mas eu nem me sento,
gosto mais assim:

Pedalo em pé
dá mais rapidez
a minha bicicleta
é o que tu vês:

É um avião,
pois eu não te digo?!

Da próxima vez...

Da próxima vez
Levo-te comigo?


Fernando Miguel Bernardes





Fernando Miguel Bernardes nasceu em Gândara dos Olivais, Leiria. Frequentou as Universidades de Coimbra e Clássica de Lisboa.
Como engenheiro geógrafo, e bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, fez uma pós-graduação em Cálculo Científico. 
Docente do ensino superior, foi também técnico superior de Sistemas Informáticos, e director de departamento na Função Pública, na área da Cultura. 
Co-fundador da Organização dos Trabalhadores Científicos, é sócio activo de instituições científicas e culturais como a Sociedade de Geografia de Lisboa, com incidência na secção de Física Matemática e Cartografia, ou a Associação Portuguesa de Escritores, de cuja Direcção é membro efectivo. 
Integra e coordena habitualmente júris de prémios literários de âmbito nacional e internacional. Antes do 25 de Abril, assumindo na prática posições coerentes com a sua ideologia, foi várias vezes preso, julgado e condenado, tendo cumprido as sucessivas penas em cadeias políticas de Coimbra, Porto, Lisboa e Caxias. Mais tarde, foi-lhe reconhecido, pela Assembleia da República, o "mérito excepcional da contribuição dada à defesa da Liberdade e da Democracia". 
Como seguimento da publicação dos seus livros para a infância e juventude, vem visitando escolas do Ensino Básico por todo o País, para, com as crianças, os pais e os professores, ler e comentar e dramatizar alguns dos seus textos, previamente explorados nas respectivas turmas.



As Bicicletas na arte de Luiz Cavalli



"Se um homem marcha com um passo diferente do dos seus companheiros, é porque ouve outro tambor."

Estados Unidos
1817 // 1862
Escritor/Autor/Ensaísta/Poeta/Naturalista



Danny MacAskill - "Way Back Home"



"Cada pôr do sol que vejo me inspira o desejo de partir para um oeste tão distante e belo quanto aquele onde o sol sumiu."



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