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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

"Este é o Prólogo" - Poema de Federico Garcia Lorca





Este é o Prólogo


Deixaria neste livro 
toda a minha alma
este livro que viu 
as paisagens comigo 
e viveu horas santas. 

Que pena dos livros 
que nos enchem as mãos 
de rosas e de estrelas 
e lentamente passam! 

Que tristeza tão funda 
é olhar os retábulos 
de dores e de penas 
que um coração levanta! 

Ver passar os espectros 
de vida que se apagam, 
ver o homem desnudo 
em Pégaso sem asas, 

ver a vida e a morte, 
a síntese do mundo, 
que em espaços profundos 
se olham e se abraçam. 

Um livro de poesias 
é o outono morto: 
os versos são as folhas 
negras em terras brancas, 

e a voz que os lê 
é o sopro do vento 
que lhes incute nos peitos 
- entranháveis distâncias. 

O poeta é uma árvore 
com frutos de tristeza 
e com folhas murchas 
de chorar o que ama. 

O poeta é o médium 
da Natureza 
que explica sua grandeza 
por meio de palavras. 

O poeta compreende 
todo o incompreensível 
e as coisas que se odeiam, 
ele, amigas as chamas. 

Sabe que as veredas 
são todas impossíveis, 
e por isso de noite 
vai por elas com calma. 

Nos livros de versos, 
entre rosas de sangue, 
vão passando as tristes 
e eternas caravanas 

que fizeram ao poeta 
quando chora nas tardes, 
rodeado e cingido 
por seus próprios fantasmas. 

Poesia é amargura, 
mel celeste que emana 
de um favo invisível 
que as almas fabricam. 

Poesia é o impossível 
feito possível. Harpa 
que tem em vez de cordas 
corações e chamas. 

Poesia é a vida 
que cruzamos com ânsia, 
esperando o que leva 
sem rumo a nossa barca. 

Livros doces de versos 
sãos os astros que passam 
pelo silêncio mudo 
para o reino do Nada, 
escrevendo no céu 
suas estrofes de prata. 

Oh! que penas tão fundas 
e nunca remediadas, 
as vozes dolorosas 
que os poetas cantam! 

Deixaria neste livro 
toda a minha alma... 


(tradução: William Agel de Melo)






"Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas." 


(Federico Garcia Lorca)


quinta-feira, 4 de agosto de 2011

"Tentei fugir da mancha mais escura" - Poema de David Mourão Ferreira


Carl Schweninger der Ältere (1818-1887) Hochgebirgslandschaft 



Tentei fugir da mancha mais escura 


Tentei fugir da mancha mais escura 
que existe no teu corpo, e desisti. 
Era pior que a morte o que antevi: 
era a dor de ficar sem sepultura. 

Bebi entre os teus flancos a loucura 
de não poder viver longe de ti: 
és a sombra da casa onde nasci, 
és a noite que à noite me procura. 

Só por dentro de ti há corredores 
e em quartos interiores o cheiro a fruta 
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores. 
Só por dentro de ti a noite escuta 
o que  me sai, sem voz, do coração. 


David Mourão Ferreira,
Infinito Pessoal,
Obra Poética, 4.ª Edição, Editorial Presença 



Camané - "Tentei Fugir da Mancha Mais Escura"
Poema de David Mourão-Ferreira

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