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segunda-feira, 25 de março de 2019

"Da Violência" - Poema de Casimiro de Brito



Da Violência


 A violência que trazemos no sangue
ninguém a sabe e todos (casas
desmoronadas) a exaltam e todos
a descombinamos
gota a gota
em nossos movimentos de cinza
transitória  –  esta violência
residual
tem do corpo a secura a configuração
cavada no sono na fogueira sem cor
de cidades levantadas sobre a doença sobre
a simulação
de fogo suspenso
no arame dos ossos –



Casimiro de Brito,
in "Negação da Morte", 1974

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

"O Poema" - de Casimiro de Brito


Giovanni Domenico Tiepolo (1727–1804), The Procession of the Trojan Horse in Troy, c. 1760, 
 inspired by Virgil's Aeneid, National Gallery
 


O Poema


Poemas, sim, mas de fogo
devorador. Redondos como punhos
diante do perigo. Barcos decididos
na tempestade. Cruéis. Mas de uma
crueldade pura: a do nascimento,
a do sono, a da morte.

Poemas, sim, mas rebeldes.
Inteiros como se de água, e,
como ela, abertos à geometria
de todos os corpos. Inteiros
apesar do barro e da ternura
do seu perfil de astros.

Poemas, sim, mas de sangue.
Que esses poemas brotem do
oculto. Que libertem o seu pus
na praça pública. Altos, vibrantes
como um sismo, um exorcismo
ou a morte de um filho.




Pierre-Narcisse Guérin (1774–1833), Eneias descreve a queda de Troia a Dido, rainha de Cartago, 1815.  
Museu do Louvre



"Inconstante e sempre mutável é a mulher."

Virgílio
(Públio Virgílio Maro, 70 a.C. 19 a.C.), in Eneida

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

"Vida Sempre" - Poema de Casimiro de Brito


Vincent van Gogh, Velho Triste (No Portão da Eternidade), 1890



Vida Sempre


Entre a vida e a morte há apenas 
o simples fenómeno 
de uma subtil transformação. A morte 
não é morte da vida. 
A morte não é inação, inutilidade. 
A morte é apenas a face obscura, 
mínima, em gestação 
de uma viagem que não cessa de ser. Aventura 
prolongada 
desde o porão do tempo. Projetando-se 
nas naves inconcebíveis do futuro. 

A morte não é morte da vida: apenas 
novas formas de vida. Nova 
utilidade. Outro papel a desempenhar 
no palco velocíssimo do mundo. Novo ser-se (comércio 
do pó) e não se pertencer. 
Nova claridade, respiração, naufrágio 
na máquina incomparável do universo. 


Casimiro de Brito, in "Solidão Imperfeita"



segunda-feira, 16 de novembro de 2015

"Tal a Vida" - Poema de Casimiro de Brito






Tal a Vida


Em declive trepamos pela nuvem 
dos dias — em declive circundamos 
obscuros cristais 
transportados no sangue— e somos e 
levantamos 
as cores primitivas da fonte a luz 
que resvala corpo a corpo 
a semente sazonada de quem roubou 
o fogo — em declive canto 
a ternura diluída a luz reflectida 
neste muro onde vejo 
a secreção da fala onde ouço 
um caminho de metáforas: tal 
a vida — 



Casimiro de Brito, in "Negação da Morte" 

terça-feira, 9 de junho de 2015

"A Alegria dos Pés na Terra Molhada" - poema de Casimiro de Brito


Berthe Morisot (1841–1895), Eugene Manet and His Daughter in the Garden, 1883 




A Alegria dos Pés na Terra Molhada


Quando as palavras se deixam possuir
como se fossem raízes e ossos leves que trepam
à montanha
ouço a infância, o som do berlinde, a flauta
do anjo anunciador da chuva
e a formiga da mãe a enxotar-me
para a escola onde aprendi
a ler no quadro da janela
as metamorfoses do céu. A poesia escreve-se
copiando os mestres, imitando mal
as fontes naturais: as patas
da água
descendo pela serra; a melopeia silenciosa
do azeite; a boca do vento 
nas telhas da velha casa 
do monte; a chama interior
dos cavalos
e dos cães da família: de manhã
pela mão do avô
eu partia de visita às árvores
e aos pássaros — esta é uma cerejeira, aquela,
a dona nogueira, olha
um picanço! a que parece muito cansada
é a figueira, Vamos comer um? O avô
pegava nele como se fosse um animalzinho
acabado de nascer, um pássaro com pétalas e já morto
na boca sedenta e logo
saciada. Um figo é uma
dádiva do sol e da terra e da nossa
humilde fome, e tudo são figos, ah não comas,
não comas nunca nada
sem fome. Ouço — 
aprendi nesses dias a ouvir
o melhor da infância: água
na língua
quando a morte é gémea e se
aproxima.








O QUE O VENTO NÃO LEVOU


"No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar: um estribilho antigo, um carinho no momento preciso, o folhear de um livro, o cheiro que tinha um dia o próprio vento..."


In "A cor do Invisível", 1989, p. 153

segunda-feira, 8 de junho de 2015

"Peço a Paz e o Silêncio" - Poema de Casimiro de Brito





Peço a paz e o silêncio


Peço a paz 
e o silêncio

A paz dos frutos
e a música
de suas sementes
abertas ao vento.

Peço a paz
e meus pulsos traçam na chuva
um rosto e um pão.

Peço a paz
silenciosamente
a paz, a madrugada em cada ovo aberto
aos passos leves da morte.

A paz peço,
a paz apenas
o repouso da luta no barro das mãos
uma língua sensível ao sabor do vinho
a paz clara,
a paz quotidiana
dos actos que nos cobrem
de lama e sol.

Peço a paz
e o silêncio.


Casimiro de Brito, in "Jardins de Guerra", 1966





"É bom ter livros de citações. Gravadas na memória, elas inspiram-nos bons pensamentos." 


(Winston Spencer Churchill)


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

"Do Poema" - de Casimiro de Brito


Boris KustodievThe Merchant's Wife, (1918)



Do Poema


O problema não é 
meter o mundo no poema; alimentá-lo 
de luz, planetas, vegetação. Nem 
tão-pouco 
enriquecê-lo, ornamentá-lo 
com palavras delicadas, abertas 
ao amor e à morte, ao sol, ao vício, 
aos corpos nus dos amantes.

O problema é torná-lo habitável, indispensável 
a quem seja mais pobre, a quem esteja 
mais só 
do que as palavras 
acompanhadas 
no poema.


Casimiro de Brito, Canto Adolescente, 1961



Boris Kustodiev, Looking at the Volga, 1922


«O homem moderno vive longe da natureza, pela necessidade da profissão: uma arte que lhe reduz a natureza, que lha torna portátil, que lha introduz na sala de jantar, na alcova, interpretada, escolhida, - faz ao homem o maior serviço - pô-lo em comunicação permanente com a natureza. - E a natureza é tudo: calma, consola, eleva, repousa e vivifica».

Eça de Queirós, A Tragédia da Rua das Flores, c. 1878 (ed. 1980).


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

"Os outros" - Poema de Casimiro de Brito


Waiting for Freud, 2006, by Christian Tagliavini



Os outros


Os outros que vivem comigo
Estão cheios de carências e têm medo
Do dia que vai nascer

Os outros que vivem comigo
Compram e vendem coisas ideias sentimentos
Como quem muda de pele todos os dias

Só eu estou tranquilo e não digo nada
Porque não estou numa festa num campo de batalha
E não preciso de sorrir a ninguém de morder
Ninguém de fazer sinais
Que me prendam aos outros

Os outros que vivem comigo
Correm de um lado para o outro agitam-se
E não encontram o caminho
Mas eu não corro para lado nenhum
Ouço a carne viva das águas o cerne
Que vem do fundo o caminho que nunca
Me abandona

Talvez eu seja ignorante
Talvez a minha mente seja como a mente
De um louco
Talvez eu seja apenas um espelho
Que nada recusa nem aprisiona
Mas os outros que vivem comigo
Estão cheios de carências e vão morrer
Porque não sabem que transportam em si
O vaso e a semente.


Casimiro de Brito



Casimiro de Brito


Casimiro Cavaco Correia de Brito é um poeta, romancista, contista e ensaísta português. 
Nasceu no  Algarve, em 1938, onde estudou (depois em Londres) e viveu até 1968. Depois de uns anos na Alemanha passou a viver em Lisboa. Teve várias profissões mas actualmente dedica-se exclusivamente à literatura. 
Começou a publicar em 1957 (Poemas da Solidão Imperfeita) e, desde então, publicou mais de 40 títulos. Dirigiu várias revistas literárias, entre elas "Cadernos do Meio-Dia" (com António Ramos Rosa), os Cadernos "Outubro/ Fevereiro/ Novembro" (com Gastão Cruz) e "Loreto 13" (órgão da Associação Portuguesa de Escritores). Actualmente é responsável pela colaboração portuguesa na revista internacional “Serta”. 
Esteve ligado ao movimento "Poesia 61", um dos mais importantes da poesia portuguesa do século XX. Ganhou vários prémios literários, entre eles o Prémio Internacional Versilia, de Viareggio, para a "Melhor obra completa de poesia", pela sua Ode & Ceia (1985), obra em que reuniu os seus primeiros dez livros de poesia. 
Colabora nas mais prestigiadas revistas de poesia e tem obras suas incluídas em mais de 150 antologias, publicadas em vários países. 
Participou em inúmeros recitais, festivais de poesia, congressos de escritores, conferências, um pouco por todo o mundo. 
Director dos festivais internacionais de poesia de Lisboa, Porto Santo (Madeira) e Faro. Foi vice-presidente da  Associação Portuguesa de Escritores,  presidente da Association Européenne pour la Promotion de la Poésie, de Lovaina e é presidente doa Assembleia Geral do  P.E.N. Clube Português. Obras suas foram gravadas para a Library of the Congress, de Washington. 
Foi agraciado pela Academia Brasileira de Filologia, do Rio de Janeiro, com a medalha Oskar Nobiling por serviços distintos no campo da literatura — entre outras distinções. É conselheiro da Associação Mundial de Haiku, de Tóquio. É “editor-in-chief” da Antologia mundial “Diversity” do PEN Internacional, sediada na Macedónia. 
A Académie Mondiale de Poésie (da Fundação Martin Luther King), galardoou-o em 2002 com o primeiro Prémio Internacional de Poesia Leopold Sédar Senghor, pela sua carreira literária. Ganhou o Prémio Europeu de Poesia Sibila Aleramo-Mario Luzi, com a sua antologia Libro delle Cadute, publicada em Itália em 2004. 
Tem traduzido poesia de várias línguas, sobretudo do japonês e foi traduzido para albanês, galego, espanhol, catalão, italiano, francês, corso, inglês, alemão, flamengo, holandês, sueco, polaco, esloveno, servocroata, grego, romeno, búlgaro, húngaro, russo, árabe, hebreu, chinês e japonês. 
Em 2006, foi nomeado Embaixador Mundial da Paz, no âmbito da Embaixada Mundial da Paz, sediada em Genebra. 
Em 2008 foi-lhe atribuído o prémio POETEKA no Festival Internacional do mesmo nome, na Albânia, na qualidade de “Melhor poeta do Festival. Ainda em 2008 foi agraciado pela Presidência da República Portuguesa com a Ordem do Infante Dom Henrique.


Waiting for Freud, Debbie, by Christian Tagliavini, 2006 


Waiting for Freud, Kläe, by Christian Tagliavini, 2006



Obra de Christian Tagliavini

Christian Tagliavininascido em 1971, educado na Itália e na Suíça, onde atualmente vive e trabalha é um designer gráfico e fotógrafo. Sua fotografia explora assuntos e conceitos muitas vezes raros ou incomuns. Tagliavini visa criar não apenas retratos mas colisões emocionantes de circunstâncias. Da mesma forma, ele considera cada retrato como uma história em aberto que deve fazer exigências sobre o seu telespectador. Seu trabalho tem sido exibido em toda a Europa.



Video portrait of photographer Christian Tagliavini


Cromofobia, Birthday, 2007


Cromofobia, Mother's day, 2007


Cromofobia, Back home, 2007 


Cromofobia, Mrs Maggie, 2007


Cromofobia, Dad, 2007



O estilo renascentista em fotografias de Christian Tagliavini,  intituladas "1503".
(O número 1503 faz referência ao ano de nascimento de Agnolo di Cosimo.)
"1503, Lucrezia", 2010


"1503, Artemisia", 2010


"1503, Bartolomeo"


1503, Lady Clotilde


1503, Portrait of a man


1503, Portrait of a lady in green


1503, Portrait of a young man with plumed hat


1503, Portrait of young woman


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