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domingo, 5 de janeiro de 2020

"O Relógio" - Poema de Vinicius de Moraes


Morgan Weistling, Pocket Watch Girl with Grandfather



O Relógio


Passa, tempo, tic-tac
Tic-tac, passa, hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te embora
Passa, tempo
Bem depressa
Não atrasa
Não demora
Que já estou
Muito cansado
Já perdi
Toda a alegria
De fazer
Meu ti-tac
Dia e noite
Noite e dia
Tic-tac
Tic-tac
   Tic-tac...

Rio de Janeiro, 1970 

Vinicius de Moraes 




Morgan Weistling, In Her World



Livros


"Não viajo sem livros, nem na paz, nem na guerra… pois não se pode dizer o quanto eu me repouso e demoro nessa consideração de que eles estão ao meu lado para me darem prazer quando preciso e em reconhecer quanta ajuda eles me trazem à vida. É a melhor provisão que tenho encontrado para esta viagem humana e sinto uma pena extrema das pessoas inteligentes que deles se privam."


Michel de Montaigne, in ‘Dos Três Comércios’



A portrait of Michel de Montaigne (1533–1592).
 Photo: Stefano Bianchetti/Corbis via Getty Images. 


Cortesão e ensaísta francês, Michel Eyquem de Montaigne nasceu a 28 de fevereiro de 1533, no Château de Montaigne, pertença da sua família por aquisição, perto de Bordéus. O pai era um advogado de ideias progressistas e que havia combatido em Itália, e a mãe uma judia espanhola convertida ao protestantismo. Em conformidade com as conceções que o pai mantinha acerca da educação, foi enviado enquanto recém-nascido para casa de gente humilde, para que se pudesse recordar para toda a vida dessa qualidade.

Estudou no Colégio de Guyenne de Bordéus, fazendo estudos superiores de Direito também em Bordéus e em Toulouse, tornando-se depois conselheiro na Court des Aides de Périgueaux. Em 1557 foi nomeado conselheiro do Parlamento de Bordéus, e em 1561 seria cortesão junto de Carlos IX. A morte de um amigo, Etienne de la Boëtie, com apenas trinta e dois anos de idade, causou-lhe tamanho desgosto que se viu forçado a afastar da corte, em 1563.

Casando em 1565, viu morrerem-lhe quatro filhos quase à nascença, restando-lhe apenas uma filha. Retirou-se com a sua família para o castelo senhorial da família em 1570, ano da morte da sua mãe, apenas dois anos depois da do próprio pai. Aí completou os primeiros dois volumes dos seus Essais (Ensaios), que publicou em 1580. O termo 'Ensaios' seria cunhado pelo autor para designar o estilo literário a que se dedicou, ao anotar pensamentos, memórias, opiniões e incidentes da sua vida quotidiana.

 Com a deflagração da Guerra Civil de França, recusou-se a tomar medidas para a defesa da sua propriedade, dando licença aos seus soldados e escancarando as portas do seu castelo. Montaigne pensava que nada encorajava tanto o uso das armas com a sua presença.

Sofrendo de pedra nos rins, aproveitou a ocasião para viajar em busca de águas termais, percorrendo a Lorena, a Alsácia e a Baviera, e chegando a Itália através de Veneza. Encontrava-se há algum tempo em Roma quando recebeu a notícia de que havia sido nomeado governador de Bordéus, em 1581.

Montaigne desempenhava o seu segundo mandato como governador, um surto de peste bubónica irrompeu em Bordéus, numa altura em que se encontrava fora da cidade. Pouco se importando com a população, ou com o facto de lhe poderem chamar de cobarde, recusou-se a entrar na cidade, deixando aos seus subalternos a tarefa de a dirigir nesses momentos de crise.

Em 1588 foi feito prisioneiro pelos membros da Liga Protestante, mas libertado da Bastilha ao fim de algumas horas. Católico moderado, manteve-se fiel a Henrique III durante algum tempo, até se aperceber da inevitabilidade da vitória do primo, o futuro Henrique IV.

Retirando-se nesse mesmo ano para o Castelo de Montaigne, publicaria uma edição aumentada dos seus Ensaios (Essais). Aí faleceu, vítima de uma infeção na garganta, a 13 de setembro de 1592. (Daqui)


terça-feira, 15 de outubro de 2019

"Amantia Verba" - Poema de Azevedo Cruz





AMANTIA VERBA

                      Ao Pereira Nunes
"Esta é a ditosa Pátria minha amada”
(Camões

Campos formosa, intrépida amazona
Do viridente plaino Goitacás!
Predileta do Luar como Verona,
Terra feita de luz e madrigais!

Na planura sem fim do teu regaço
Quem poderá dizer que o sol se esconde?
Para subir aqui — sobra-lhe espaço!
Para descer aqui — não tem por onde!

Oh Paraíba, oh mágica torrente
Soberana dos prados e vergéis!
Por onde passas, como um rei do oriente,
Os teus vassalos vêm beijar-te os pés!

De Otelo tens a cólera, alteroso,
E o quebranto das pérfidas sereias:
Ora revel, nas formidáveis cheias,
Ora em tranquilo e plácido repouso!

Pelo teu dorso quérulo e undiflavo
Vogam lamentos como nunca ouvi...
Ecos talvez das lágrimas do Schiavo,
Ou dos tristes amores de Peri!

Quanta vez fui contar-te as minhas mágoas
(Tu, rio, és meu irmão, tu também penas!)
Embalavam-me as tuas cantilenas,
O doce arfar monótono das águas!

Os meus passeios preferidos lembro :
Beirando o rio, a Lapa, a Igreja, o Asilo,
Toda aquela paisagem, tudo aquilo,
Nas luminosas tardes de Dezembro!

O sol, tamanho gasto e desperdício
De tons e tintas, pródigo, fazia,
Que todo o Paraíba parecia
Iluminado a fogo de artifício!

Nos tempos do Liceu horas inteiras,
Ao pôr do sol, passava-as no mirante:
Monologavam pelo azul distante
Os perfis solitários das palmeiras!

E vinha-me a ilusão que era o rei mouro
O último rei que governou Granada:
Sobre a cidade a púrpura abrasada
E as torres altas, minaretes de ouro!

Em caprichosa curva em face, a franca,
A límpida caudal do Paraíba;
E ao largo, alvissareiro, rio arriba,
O traço alegre de uma vela branca!

Parecias-me muito mais estreito
Visto dali, talvez pela distância,
Companheiro fiel da minha infância,
Rio que rolas dentro do meu peito!

Faixa de opala que a cidade enlaça
Pela cintura, — cíngulo de neve!
Vendo-te, — vê-se bem que a vida é breve!
Corre, vai, rio amigo, tudo passa!

Torres de usinas fumegando a um lado,
Para o poente o Itaoca e em cima e ao fundo,
Diáfano sempre, — um céu imaculado,
Céu de safira sem rival no mundo!

Noite! A esfera armilar da lua cheia
Do sudário das águas surge ao lume,
E tudo ao luar o estranho aspecto assume
Dos castelos da Espanha sobre a areia!

A extrema-unção do luar como que invade
A alma das coisas, sobre tudo esvoeja:
Faz-se toda de mármore a cidade,
Vê-se uma catedral em cada Igreja!

Junho, mês dos noctívagos, corria...
Julieta à varanda debruçada
Vinha escutar a flauta enamorada,
Nas horas mortas, pela noite fria...

Tudo no olvido cai, tudo fenece,
Banco das Cismas, tudo cai no olvido!
Teu nome hoje é vazio de sentido,
A nova geração não te conhece!

Eras outrora o nosso confidente,
O Parnaso da Roda, a nossa Ermida!
Banco das Cismas, quanto sonho ardente
Desfeito em fumo no correr da vida!

Como o rei Harfagar, meu derradeiro
Sono, em teu seio, mude-se em vigília!
Abrigo e lar dos que não têm família!
Meu amado torrão hospitaleiro!

Campos formosa, intrépida amazona
Do viridente plaino Goitacás!
Predileta do Luar como Verona,
Terra feita de luz e madrigais!

Nada iguala os teus dons, os teus primores,
Vai de delícias, o teu céu azul!
Minha terra natal, ninho de amores,
Urna de encantos, pérola do sul!

1901
(Profissão de Fé, págs. XV-XXVII.)


“Amantia Verba” (Declaração de Amor) é um poema dedicado a Campos dos Goytacazes.
Versos desse poema foram utilizados pelo professor e musicista Newton Périssé Duarte ao criar a melodia do “Hino a Campos”. Seu livro póstumo, “Sonho”, reúne outros textos de alta qualidade, tendo sido editado pela Academia Campista de Letras, em 1943.


Garcia Bento, Saveiros, 1925


António Garcia Bento, (1897, Campos dos Goytacazes, RJ - 1929, Rio de Janeiro, RJ). De origem pobre, foi funcionário da Estrada de Ferro Central do Brasil e desenhista contratado pela firma Haust e Cia. Estudou pintura ao ar livre com Levino Fânzeres, na Colmeia dos Pintores do Brasil, curso livre, sempre aos domingos, na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, na cidade do Rio de Janeiro. No Salão Nacional de Belas Artes, conquistou menção honrosa em 1918, pequena medalha de prata em 1921 e prémio de viagem ao exterior em 1925. Acompanhado da mulher e dos filhos, viajou por dois anos pela Europa, visitando, entre outros países, Portugal, Espanha e Holanda. Os quadros que realizou na Europa, entre os melhores que produziu em sua curta carreira, foram expostos em São Paulo e no Rio de Janeiro em 1928, com sucesso de venda e de crítica. Em 1952, numa grande retrospectiva, o Museu Nacional de Belas Artes expôs mais de sessenta obras de sua autoria. O catálogo da mostra estampa um texto crítico de Gustavo Corção, que foi amigo do artista. No mesmo museu, integrou a mostra 150 Anos de Pintura de Marinha na História da Arte Brasileira (1982). Destacou-se sobretudo como marinhista. (Daqui)



Garcia Bento, Luar
 

"Um fim de mar colore os horizontes."
 
 

domingo, 13 de outubro de 2019

"Ode à Diferença" - Poema de Ana Luísa Amaral


Eri Iwasaki, A light from afar, the beginning of the world, 2014



Ode à Diferença



Felizmente.
Somos todos diferentes. Temos todos
o nosso espaço próprio de coisinhas
próprias, como narizes e manias,
bocas, sonhos, olhos que vêem céus
em daltonismos próprios. Felizmente.
Se não o mundo era uma bola enorme
de sabão e nós todos lá dentro
a borbulhar, todos iguais em sopro:
pequenas explosões de crateras iguais.
Assim e felizmente somos todos
diferentes. Se não a terapia
em grupo era um sucesso e o que é certo
é sermos mais felizes a explorar
solitários o nosso próprio espaço
de manias, de traumas, de unhas dos pés
invaloradas pela nossa cultura
(que lá no Oriente o pé é o caso sério,
motivo sensual e explorativo).
Começa por aí: o mundo di-
vidido por atávicos ritmos
– e outras coisas somenos como guerras
ou fomes (Note Bem: a criatura
é céptica e tem um gosto péssimo,
mas veja-se outros textos que redimem
em sério o que aqui diz. Cf. por ex.
o que quiser, mas deixe a criatura
regalar-se por se pensar – coitada –
incómoda e sonora). Prova evidente
de que somos diferentes, felizmente.
Começa por aí: no mundo divi-
dido – e continua em raças e
raízes. Nós somos portugueses,
tão felizes, com tanta história atrás
e tantos feitos, tantas coisinhas próprias
de delícia: o mar que nos gerou,
e o resto tudo, são bolas pequeninas
de sabão a atestar da diferença
do nosso irmão do lado, esse infeliz
cheio de recalques de tradições e línguas,
paella e calamares. Tem boca como
nós: não canta o fado. Tem pernas como
nós: não dança o vira. Contenta-se
– coitado – com flamencos chorados
e falanges doridas. Somos todos
diferentes, felizmente (Note Bem:
[se a sua paciência ainda não
fugiu despavorida – é sem dê,
mas ela insiste em respeitar
o ritmo –]: isto que a criatura
repete e reafirma, quando em quando,
não deve ser tomado em ligeireza
como sinal senil [aliterou!],
mas como tentativa suicida
de oferecer unidade ao que o não tem,
moralizar o texto a pouco e pouco,
dar-lhe uma ideia igual, ser um mote
formal a contrabalançar a tal
prova evidente. Que de diferenças
estamos todos cheios e isto
pretendia-se uma ode e não foi).
Felizmente


Ana Luísa Amaral


Eri Iwasaki


"O mundo é isso. Um montão de gente, um mar de fogueirinhas. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras."

Eduardo Galeano,
em "Amares"


domingo, 22 de setembro de 2019

"O Pássaro Azul" - Poema de Charles Bukowski


O Pássaro Azul


há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?


Charles Bukowski,
emTextos autobiográficos, de Charles Bukowski”
[tradução de Pedro Gonzaga; edição de John Martin].
Porto Alegre: L&PM Editores, 2009.
(Daqui)


 
Marc Chagall, L'oiseau bleu (The Blue Bird), 1952



Bluebird


there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see
you.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he’s
in there.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,

I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody’s asleep.
I say, I know that you’re there,
so don’t be
sad.

then I put him back,
but he’s singing a little
in there, I haven’t quite let him
die

and we sleep together like
that
with our
secret pact

and it’s nice enough to
make a man
weep, but I don’t
weep, do
you?
 in “The Last Night of the Earth Poems”
Santa Rosa CA: Black Sparrow, 1992.
(Daqui)


Animação baseada no poema "O pássaro azul" de Charles Bukowski. 
“Bluebird” inspirou a designer Monica Umba, estudante de Cambrigde School of Art a fazer uma releitura
 do poema em forma de animação gráfica.


"Eu não sei porque comecei a escrever poesia. É uma questão de sobrevivência. O pássaro sabe porque voa? Não. Então também não sei [porque escrevo]."


 Deborah Brennand, em "Letras verdes", 2002.



domingo, 1 de setembro de 2019

"Últimos cinco poemas para Cris" - Poemas de Julio Cortázar


 
Últimos cinco poemas para Cris

1.

Agora escrevo pássaros.
Não os vejo chegar, não os invoquei,
mas de repente estão ali, são
um bando de palavras
pousando
uma
a
uma
nos fios da página,
chilreando, picotando, uma chuva de asas
e eu sem pão para lhes dar, unicamente
deixando-os vir. Talvez
isso seja uma árvore
ou talvez
o amor.

2.

A noite passada sonhei que eras
a sacerdotisa de Sekhmet, a deusa com cabeça de leão.
Ela nua em pórfiro,
tu nua na tua pele lisa.
Que presente estendias à deusa selvagem
que olhava através dos teus olhos
um horizonte eterno e implacável?
A taça das tuas mãos continha
a libação secreta, lágrimas
ou o teu sangue menstrual, ou a tua saliva.
Em todo o caso, não era sémen
e o meu sonho sabia
que a oferta seria recusada
com um lento rugido de desprezo
tal como tu esperavas desde sempre.
Depois, talvez, já não sei,
as garras nos teus seios, preenchendo-te.

3.

Nunca saberei porque a tua língua entrou na minha boca
quando nos despedimos no teu hotel
depois de uma visita amigável à cidade
e de um ajuste preciso de distâncias.
Acreditei por um momento que apontavas
uma data futura,
que abrias uma terra de ninguém, um interregno
de onde alcançar o teu minucioso musgo.
Cercado por amigas me beijaste,
eu a excepção, o monstro,
e tu a transgressora balbuciante.
Vá-se lá saber quem tu beijavas,
de quem te despedias.
Fui o vigário feliz de um só instante,
o que às vezes encontra na saliva
um breve gosto a madressilva
sob os céus austrais.

4.

Quisera eu ser Tirésias esta noite
e numa lenta espera de cabeça para baixo
receber-te e gemer sob os teus flagelos
e as tuas tíbias medusas,
sabendo que é a hora
da metamorfose recorrente,
e que ao descer o redemoinho de espuma
abrir-te-ias chorando,
sendo docemente empalada.
Para voltares depois
ao teu imperioso reino de falanges,
ao cerco de tua pele, aos teus húmidos tentáculos,
até juntos nos arrastarmos e abraçados alcançarmos
as areias do sonho.
Mas eu não sou Tirésias,
apenas um unicórnio
que procura a água nas tuas mãos
e encontra entre os lábios
uma mão cheia de sal.

5.

Não te vou aborrecer com mais poemas.
Digamos que te disse
nuvens, tesouras, pássaros, lápis,
e que alguma vez
tu sorriste.


Julio Cortázar
Tradução de Jorge Sousa Braga


 
A jornalista, tradutora e poeta Cristina Peri Rossi e o escritor Julio Cortázar (Daqui)


"Vem dormir comigo: não faremos amor, ele nos fará."

(Julio Cortázar)

sábado, 24 de agosto de 2019

"Aurora" - Poema de Adolfo Casais Monteiro


Ivan Shishkin (Russian, 1832-1898), Rain in an Oak Forest, 1891
 

Aurora


A poesia não é voz - é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

voo sem pássaro dentro.

in 'Voo Sem Pássaro Dentro'


Ivan Shishkin, Walking through the forest, 1869


"O jardim é uma natureza organizada pelo homem e para o homem."

(Roberto Burle Marx)


Ivan Shishkin, Walk in the Forest, 1870


"Um jardim faz-se de luz e sons - as plantas são coadjuvantes."

(Roberto Burle Marx)


Ivan Shishkin, Wood in the evening, 1868-1869


"Onde havia peixes, há mercúrio. Onde havia florestas, há cinzas."

(Roberto Burle Marx)


Ivan Shishkin, Woodland, 1889


"Gostaria que os que viessem depois de mim pudessem, pelo menos, ver alguma coisa que ainda lembrasse o país fabuloso que é o Brasil do ponto de vista botânico, dono da flora mais rica do Globo."
(Roberto Burle Marx)

Roberto Burle Marx (São Paulo, 4 de agosto de 1909 – Rio de Janeiro, 4 de junho de 1994) foi um paisagista, arquiteto, desenhista, pintor, gravador, litógrafo, escultor, tapeceiro, ceramista, designer de jóias e decorador.

Durante a infância viveu no Rio de Janeiro. Foi com a família para a Alemanha, em 1928. Em Berlim, estudou canto e integrou-se na vida cultural da cidade, frequentando teatros, óperas, museus e galerias de arte. Entrou em contato com as obras de Vincent van Gogh (1853-1890), Pablo Picasso (1881-1973) e Paul Klee (1879-1940). Em 1929, frequentou o ateliê de pintura de Degner Klemn. Nos jardins e museus botânicos de Dahlen, em Berlim, entusiasmou-se ao encontrar exemplares da flora brasileira.

De volta ao Brasil, fez curso de pintura e arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes (Enba), Rio de Janeiro, entre 1930 e 1934, onde foi aluno de Leo Putz (1869-1940), Augusto Bracet (1881-1960) e Celso Antônio (1896-1984). Em 1932, realizou seu primeiro projeto de jardim para a residência da família Schwartz, no Rio de Janeiro, a convite do arquiteto Lucio Costa (1902-1998), que realizou o projeto de arquitetura com Gregori Warchavchik (1896-1972).

Entre 1934 e 1937, ocupou o cargo de diretor de parques e jardins do Recife, Pernambuco, onde passou a residir. Nesse período, foi com frequência ao Rio de Janeiro e teve aulas com Candido Portinari (1903-1962) e com o escritor Mário de Andrade (1893-1945), no Instituto de Arte da Universidade do Distrito Federal. Em 1937, retornou ao Rio de Janeiro e trabalhou como assistente de Candido Portinari.

O final da década de 1930 arca a integração de sua obra paisagística à arquitetura moderna, época em que o artista experimenta formas orgânicas e sinuosas na elaboração de seus projetos. Sua paixão por plantas remonta à juventude, quando se interessa por botânica e jardinagem, mas é em 1949 que Roberto Burle Marx organiza uma grande coleção, quando adquire um sítio de 800.000 m², em Campo Grande, Rio de Janeiro.

Em companhia de botânicos, realiza inúmeras viagens por diversas regiões do país, para coletar e catalogar exemplares de plantas, reproduzindo em sua obra a diversidade fitogeográfica brasileira.

Principais Obras
: Jardins do Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, Paisagismo do Eixo Monumental em Brasília, Parque Ibirapuera, em São Paulo. (Daqui)

Ivan Shishkin: A collection of 352 paintings (HD) 




Ivan Ivanovitch Shishkin (Ielabuga, 25 de janeiro de 1832 – São Petersburgo, 20 de março de 1898) foi um pintor paisagista russo associado ao movimento dos Itinerantes e marido da pintora Olga lagoda-shishkina

Shishkin nasceu em Ielabuga, no atual Tartaristão, e graduou-se em Cazã. Estudou na Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou por quatro anos e na Academia Imperial de Artes entre 1856 e 1860, quando graduou-se, recebendo uma pensão imperial para que continuasse seus estudos na Europa. Cinco anos mais tarde, Shishkin tornou-se membro da Academia Imperial de São Petersburgo e foi professor de pintura entre 1873 e 1898. Simultaneamente, Shishkin liderou o programa educacional de pintura paisagística. 

Shishkin viveu, por alguns anos, na Suíça e Alemanha, graças à pensão recebida pela academia. Ao retornar para a capital russa, ele tornaria-se membro do Círculo dos Itinerantes e da Sociedade dos Aquarelistas da Rússia. Participou de mostras em Moscou (1882), Nijni Novgorod (1896), Paris (1867 e 1878) e Viena (1873). O método de Shishkin foi baseado em estudos analíticos da natureza. Ele tornou-se famoso por suas paisagens de florestas, além de ter sido um desenhista além de seu tempo.

Os trabalhos de Shishkin foram principalmente inspirados nas paisagens de sua dacha nos subúrbios do sul de São Petersburgo. Seus trabalhos são de notável detalhamento poético das estações do ano, florestas, natureza selvagem, fauna e flora.

Shishkin morreu em 1898, em São Petersburgo, enquanto desenvolvia uma nova pintura. (Daqui)

„Toda a forma de vida é uma manifestação de Deus e está sob os nossos cuidados. Proteja o que é seu - sua fauna sua flora. As plantas e os animais embelezam a terra. São úteis ao homem e representam a riqueza da Pátria. Nunca se deve mutilar, destruir ou deixar que destruam estes bens. Vamos amar nossos animais domésticos. Vamos dar aos selvagens a paz que eles têm direito. Permitamos que enfeitem nossas florestas. Vamos amar os pássaros puros e belos, cantando nas ramagens, voando alegres no espaço ilimitado, como verdadeiros símbolos de liberdade!“ — Francisco de Assis

Referência: https://citacoes.in/autores/francisco-de-assis/

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

"Amo-te por sobrancelhas" - Poema de Julio Cortázar


Janos Laszlo Aldor (Hungria, 1895-1944), Sonhando acordada, s/d



Amo-te por sobrancelhas


Amo-te por sobrancelhas, por cabelo, debato-te em corredores
branquísimos onde se jogam as fontes da luz,
Discuto-te a cada nome, arranco-te com delicadeza de cicatriz,
vou pondo no teu cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.

Não quero que tenhas uma forma, que sejas
precisamente o que vem por trás de tua mão,
porque a água, considera a água, e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitetura do nada,
acendendo as lâmpadas a meio do encontro.

Tudo amanhã é a ardósia onde te invento e desenho.
pronto a apagar-te, assim não és, nem tampouco
com esse cabelo liso, esse sorriso.

Procuro a tua súmula, o bordo da taça onde o vinho
é também a lua e o espelho,
procuro essa linha que faz tremer um homem
numa galeria de museu.

Além disso quero-te, e faz tempo e frio.


Julio Cortázar
(Daqui)




Escritor argentino Julio Cortázar


“Te quiero por ceja”


Te amo por ceja, por cabello, te debato en corredores
blanquísimos donde se juegan las fuentes de la luz,
te discuto a cada nombre, te arranco con delicadeza de cicatriz,
voy poniéndote en el pelo cenizas de relámpago
y cintas que dormían en la lluvia.

No quiero que tengas una forma, que seas
precisamente lo que viene detrás de tu mano,
porque el agua, considera el agua, y los leones
cuando se disuelven en el azúcar de la fábula,
y los gestos, esa arquitectura de la nada,
encendiendo sus lámparas a mitad del encuentro.

Todo mañana es la pizarra donde te invento y te dibujo,
pronto a borrarte, así no eres, ni tampoco
con ese pelo lacio, esa sonrisa.

Busco tu suma, el borde de la copa donde el vino
es también la luna y el espejo,
busco esa línea que hace temblar a un hombre
en una galería de museo.

Además te quiero, y hace tiempo y frío.


Julio Cortázar



Janos Laszlo Aldor, Portrait of a Lady, 1934 



"... afinal, o que são as lembranças senão o idioma dos sentimentos?"

(Julio Cortázar)


Escritor argentino, Julio Cortázar nasceu a 26 de agosto de 1914, em Bruxelas, na Bélgica, durante uma viagem de negócios empreendida pelos seus pais. Em 1918 a família regressou a Buenos Aires, onde Cortázar veio a estudar, obtendo, em 1935, habilitações como professor do ensino secundário pela Escuela Normal de Professores Mariano Acosta. Ingressou depois na Universidade de Buenos Aires e deu aulas nas escolas secundárias de Bolívar, de Chivilcoy e de Mendonza.

Em 1944 conseguiu uma posição como professor de Literatura Francesa na Universidade de Cuyo, em Mendonza, onde se envolveu numa manifestação contra a política populista e sindicalista de Juan Domingo Peron, pelo que foi encarcerado. Posto em liberdade pouco tempo depois, viu, no entanto, vedada a sua carreira académica. Assumiu então, e em 1946, a direção de uma editora em Buenos Aires, funções que desempenhou até 1948, altura em que completou a sua licenciatura em Direito e Línguas. Cortázar passou então a trabalhar como tradutor.

Em 1949 publicou a sua primeira obra digna de interesse, Los Reyes, um longo poema narrativo em que utilizava arquétipos como o Minotauro e o Labirinto de Creta. Em 1951, época em que o regime de Peron se estabelecia como ditadura, publicou numa revista mantida por Jorge Luis Borges, a Los Anales de Buenos Aires, a sua primeira coletânea de contos, com o título Bestiário (1951).

Nesse mesmo ano, e em resultado das perseguições que lhe foram movidas, o autor optou pelo exílio, mudando para Paris, cidade que não mais abandonaria. A partir de 1952 passou a trabalhar para a UNESCO como tradutor independente.

Continuou a publicar coletâneas de contos, como Final de Juego (1956), Las Armas Secretas (1959), obra que viria a ser adaptada para cinema pelo realizador italiano Michelangelo Antonioni, com o título Blow Up, em 1966. Em 1960 consagrou-se também como romancista, com o aparecimento de Los Premios, obra em que contava o rumo de um grupo de pessoas que ganham como prémio de lotaria um cruzeiro-surpresa. O seu romance mais conhecido, Rayuela, seria publicado em 1963. A obra, original e imaginativa, influenciou significativamente a literatura da América Latina.

Em 1973 empreendeu uma longa viagem pela América do Sul, visitando países como o Peru, o Equador, o Chile e a Argentina, como investigador das violações dos direitos humanos no continente, apoiando, com os ganhos resultantes da venda das suas obras, os Sandinistas e as famílias de prisioneiros políticos.

Em 1975 lecionou, como professor convidado, nas Universidades de Oklahoma e do Barnard College de Nova Iorque. Em 1981 tomou a nacionalidade francesa e, dois anos depois, foi-lhe autorizado visitar de novo a Argentina.

Faleceu a 12 de fevereiro de 1984, em Paris. Embora seja geralmente aceite como causa da sua morte uma leucemia, existe também a opinião de que o autor tenha sido vítima de  SIDA, nesse tempo ainda não diagnosticável. (Daqui)

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

"Encontro em Copenhague" - Poema de Yevgeny Aleksandrovich Yevtushenko


Ernest Hemingway at his home in Cuba, circa 1953, 
standing in front of a 1929 portrait of himself 


Ernest Hemingway as 'Kid Balzac' painted 
by Waldo Peirce in 1929, Key West



Encontro em Copenhague


Sentados no aeroporto em Copenhague
atacávamos juntos o café.
Ali tudo era belo,
confortável.
— Ambiente refinado como quê!

E de súbito
aquele velho surgiu,
japona simples e capuz verde oliva,
pele curtida
por lufadas salinas,
ou melhor,
não surgiu,
exsurgiu.

Caminhava,
singrando por turistas,
como se houvesse largado o leme faz pouco,
feito espuma do mar
a barba híspida
branca
emoldurava-lhe o rosto.

Com sombria decisão de vitória
caminhava,
erguendo uma onda volumosa,
através de antiqualhas
de um moderno postiço,
através do moderno posiçando o antigo.

E abrindo a gola da camisa rústica,
ele, rejeitando o vermute e o pernaud,
pediu ao balcão uma vodca russa
e repeliu a soda com um gesto:
“No...”

Mãos gretadas, com cicatrizes,
curtidas,
sapatos grossos, arrastando solas,
calças incrivelmente encardidas,
— era mais elegante
do que todos em roda!

A terra sob ele como que afundava,
com o peso daquelas passadas.
Um dos nossos sorriu-me:
“Ei!
Veja se não parece Hemingway!”

Caminhava,
expresso em gestos curtos,
andar de pescador, pesado, lento,
todo talhado num rochedo bruto,
como através das balas,
através dos tempos.

Caminhava, encurvado, como na trincheira,
abria caminho entre pessoas e cadeiras...
Parecia-se tanto com Hemingway! 
 
— Depois fiquei sabendo:
era Hemingway.


Yevgeny Aleksandrovich Yevtushenko,
Trad. de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman 
 

Waldo Peirce, Ernest Hemingway, 1966 
("Don Ernesto con una bonita", Key West '27)


“Nossas virtudes e nossos defeitos são inseparáveis, assim como a força e a matéria. Quando se separam, o homem deixa de existir.”

(Nikola Tesla)



quarta-feira, 21 de agosto de 2019

"O Oceano" - Poema de Lord Byron


Ivan Constantinovich Aivazovsky, The Battle in the Chios Channel, 1848



O Oceano


Rola, Oceano profundo e azul sombrio, rola!
Caminham dez mil frotas sobre ti, em vão;
de ruínas o homem marca a terra, mas se evola
na praia o seu domínio. Na úmida extensão
só tu causas naufrágios; não, da destruição
feita pelo homem sombra alguma se mantém,
exceto se, gota de chuva, ele também
sem féretro, sem túmulo, desconhecido
se afunda a borbulhar com seu gemido.

Do passo do há traços em teus caminhos,
nem são presa teus campos. Ergues-te e o sacodes
de ti; desprezas os poderes tão mesquinhos
que usa para assolar a terra, já que podes
de teu seio atirá-lo aos céus; assim o lanças
tremendo uivando em teus borrifos escarninhos
rumo a seus deuses – nos quais firma as esperanças
de achar um portou angra próxima, talvez –
e o devolves à terra – jaza aí, de vez.

Os armamentos que fulminam as muralhas
das cidades de pedra – e tremem as nações
ante eles, como os reis em suas capitais – ,
os leviatãs de roble, cujas proporções
levam o seu criador de barro a se apontar
como Senhor do Oceano e árbitro das batalhas,
fundem-se todos nessas ondas tão fatais
para a orgulhosa Armada ou para Trafalgar.

Tuas bordas são reinos, mas o tempo os traga:
Grécia, Roma, Catargo, Assíria, onde é que estão?
Quando outrora eram livres tu as devastavas,
e tiranos copiaram-te, a partir de então;
manda o estrangeiro em praias rudes ou escravas;
reinos secaram-se em desertos, nesse espaço,
mas tu não mudas, salvo no florear da vaga;
em tua fronte azul o tempo não põe traço;
como és agora, viu-te a aurora da criação.

Tu, espelho glorioso, onde no temporal
reflete sua imagem Deus onipotente;
calmo ou convulso, quando há brisa ou vendaval,
quer a gelar o pólo, quer em cima ardente
a ondear sombrio, – tu és sublime e sem final,
cópia da eternidade, trono do Invisível;
os monstros dos abismos nascem do teu lodo;
insondável, sozinho avanças, és terrível.

Amei-te, Oceano! Em meus folguedos juvenis
ir levado em teu peito, como tua espuma,
era um prazer; desde meus tempos infantis
divertir-me com as ondas dava-me alegria;
quando, porém, ao refrescar-se o mar, alguma
de tuas vagas de causar pavor se erguia,
sendo eu teu filho esse pavor me seduzia
e era agradável: nessas ondas eu confiava.
e, como agora, a tua juba eu alisava.


Lord Byron
 Tradução de Castro Alves



Ivan Aivazovsky, The Ninth Wave (1850, Russian Museum, Saint Petersburg) is considered
Aivazovsky's most famous work.



"Quão inapropriado chamar Terra a este planeta, quando é evidente que deveria chamar-se Oceano."

(Arthur C. Clarke)
 

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

"Entre a cidade Sim e a cidade Não" - Poema de Yevgeny Aleksandrovich Yevtushenko


Carlos Botelho, Nova York, Rua 53, 1939



Entre a cidade Sim e a cidade Não


Sou um comboio rápido
que há muitos anos vai e vem
entre a cidade Sim
e a cidade Não.
Os meus nervos estão tensos
como cabos
entre a cidade Não
e a cidade Sim.

Tudo está morto e assustado na cidade Não.
É como um embrulho feito de tristeza.
Dentro dela todas as coisas franzem a testa.
Há medo nos olhos de todos os retratos.
De manhã enceram com bílis o soalho.
Os sofás são de falsidade, as paredes de miséria.
Nunca te darão nessa cidade um bom conselho,
nem um ramo de flores, nem um simples aceno.
As máquinas de escrever batem, com cópia,
a resposta:
"Não-não-não... não-não-não... não-não-não..."
E quando enfim se apagam as luzes
os fantasmas iniciam o seu lúgubre bailado.
Nunca, ainda que rebentes, arranjarás bilhete
para fugir da negra cidade. Não.

Ah, mas a vida na cidade Sim é um canto de ave.
Não tem paredes a cidade, é como um ninho.
As estrelas dizem que as acolhas nos teus braços.
E sem vergonha seus lábios pedem teus lábios,
num brando murmúrio: "São tudo tolices..."
A flor provocante implora que a cortes,
os rebanhos oferecem o leite com seus mugidos,
ninguém tem ponta de medo.
E aonde queiras ir te levam num instante comboios,
barcos, aviões,
e com um rumor antigo vai a água murmurando:
"Sim-sim-sim... sim-sim-sim... sim-sim-sim..."
Mas às vezes é certo que aborrece
ser-me dado, afinal, tudo sem esforço
nesta cidade Sim, deslumbrante de cor.

É melhor ir e vir até ao fim da minha vida
entre a cidade Sim
e a cidade Não!
É melhor ter os nervos tensos como cabos
entre a cidade Não
e a cidade Sim! 


 Trad. de J. Seabra-Dinis



Carlos Botelho, Noturno - Nova Iorque, 1940


"Deus fez o campo, o homem fez a cidade."


(William Cowper)



domingo, 18 de agosto de 2019

"Ato de Contrição" - Poema de Adolfo Casais Monteiro


Ato de Contrição


Pelo que não fiz, perdão!
Pelo tempo que vi, parado,
correr chamando por mim,
pelos enganos que talvez
poupando me empobreceram,
pelas esperanças que não tive
e os sonhos que somente
sonhando julguei viver,
pelos olhares amortalhados
na cinza de sóis que apaguei
com riscos de quem já sabe,
por todos os desvarios
que nem cheguei a conceber,
pelos risos, pelas lágrimas,
pelos beijos e mais coisas,
que sem dó de mim malogrei

— por tudo, vida, perdão!


Adolfo Casais Monteiro






"Quem não ama o seu semelhante vive uma vida estéril e prepara um túmulo triste para a sua velhice." 

 Alastor, or The Spirit of Solitude, 1815 



terça-feira, 13 de agosto de 2019

"Lição" - Poema de Helena Kolody




LIÇÃO


A luz da lamparina dançava
frente ao ícone da Santíssima Trindade.

Paciente, a avó ensinava
a prostrar-se em reverência,
persignar-se com três dedos
e rezar em língua eslava.

De mãos postas, a menina
fielmente repetia
palavras que ela ignorava,
mas Deus entendia.


“Poesias escolhidas”



Georgios Jakobides, The First Steps, 1889


“O indivíduo que não sabe respeitar a mínimas regras de disciplina doméstica não poderá experimentar a suprema felicidade de ser senhor de suas emoções.”

(Emídio Brasileiro)


Georgios Jakobides, The Combing of Granddaughter, 1886


“É natural que o ser humano e todos os seres da natureza busquem o bem-estar pleno, atendendo a ordem de equilíbrio das forças ou leis naturais da evolução. Os bem-estares físicos, mentais e espirituais são metas a serem conquistadas. E essas metas são geralmente denominadas de felicidade.”

(Emídio Brasileiro)



Georgios Jakobides, Cold Shower, 1898


“Um lar estruturado pela concórdia do amor é a melhor universidade que existe.”

(Emídio Brasileiro)



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