terça-feira, 30 de junho de 2015

"Cena Familiar " - Poema de Affonso Romano de Sant’Anna


Judith Leyster (1609-1660), O Casal Feliz, 1630 
(Museu do Louvre)




Cena Familiar


Densa e doce paz na semiluz da sala. 
Na poltrona, enroscada e absorta, uma filha 
desenha patos e flores. 
Sobre o couro, no chão, a outra viaja silenciosa 
nas artimanhas do espião. 
Ao pé da lareira a mulher se ilumina numa gravura 
flamenga, desenhando, bordando pontos de paz. 
Da mesa as contemplo e anoto a felicidade 
que transborda da moldura do poema. 
A sopa fumegante sobre a mesa, vinhos e queijos, 
relembranças de viagens e a lareira acesa. 
Esta casa na neblina, ancorada entre pinheiros, 
é uma nave iluminada. 
Um oboé de Mozart torna densa a eternidade. 






Serenade por Judith Leyster, 1629 



"Paz e harmonia: eis a verdadeira riqueza de uma família." 





Woman playing a Virginal, de Jan Miense Molenaer
marido da pintora Judith Leyster



"A alegria é a pedra filosofal que tudo converte em ouro."





Jan Miense MolenaerHis Family portrait, 1635.



"Um bom exemplo é o melhor sermão."


(Benjamin Franklin)

"Liberdade" - Poema de Miguel Torga



Peter Paul Rubens, Venus at the Mirror, 1615




Liberdade


— Liberdade, que estais no céu... 
Rezava o padre-nosso que sabia, 
A pedir-te, humildemente, 
O pio de cada dia. 
Mas a tua bondade omnipotente 
Nem me ouvia. 

— Liberdade, que estais na terra... 
E a minha voz crescia 
De emoção. 
Mas um silêncio triste sepultava 
A fé que ressumava 
Da oração. 

Até que um dia, corajosamente, 
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado, 
Saborear, enfim, 
O pão da minha fome. 

— Liberdade, que estais em mim, 
Santificado seja o vosso nome. 


Miguel Torga, in 'Diário XII'




Peter Paul Rubens, The Three Graces, 1635, Prado

segunda-feira, 29 de junho de 2015

"Como de súbito na vida tudo cansa!" - Poema de Jorge de Sena



Henry Moore, Reclining Figure (1951), localizada no exterior do Museu  Fitzwilliam, Cambridge




Como de Súbito na Vida 


Como de súbito na vida tudo cansa! 
e cansa-nos a vida e nos cansamos dela, 
ou ela é quem se cansa de nós mesmos, 
na teima de existir e desejar? 
Porque, neste cansaço, não o que não tivemos, 
ou que perdemos, ou nos foi negado, 
o que de que se cansa, mas também 
o quanto temos, nos ama, se nos dá 
a até os simples gozos de estar vivo. 
Um dia é como se uma corda se quebrara, 
ou como se acabara de gastar-se, 
que nos prendia a tudo e tudo a nós. 
Não é que as coisas percam importância, 
as pessoas se afastem, se recusem, 
ou nós nos recusemos. Não. É mais 
ou menos que isto - se deseja igual 
ao como até há pouco desejávamos. 
É talvez mais. Mas sem valor algum. 
O dia é noite, a noite é dia, a luz 
se apaga ou se derrama sobre as coisas 
mas elas deixam de ter forma e cor, 
ou se sumir no espaço como forma oculta. 
E o que sentimos é pior que quanto 
dantes sentíamos nas horas ásperas 
da fúria de não ter ou de ter tido. 
Porque se sente o não sentir. Um tédio 
Não como o tédio antigo. Nem vazio. 
O não sentir. Que cansa como nada. 
Até dizê-lo cansa. É inútil. Cansa. 







Henry Spencer Moore (Castleford, Yorkshire, 1898Perry Green, Hertfordshire, 1986) foi um escultor e desenhista britânico que desenvolveu uma obra tridimensional predominantemente figurativa, com breves incursões pela abstração.
Filho de um engenheiro de minas, Moore se tornou conhecido por suas esculturas abstratas em grande escala, de bronze fundido e de mármore. Substancialmente sustentado pela instituição de arte britânica, Moore ajudou a introduzir uma forma especial de modernismo no Reino Unido.
Recebeu as condecorações Ordem de Mérito, Ordem dos Companheiros de Honra e fazia parte da Federação de Artistas Britânicos (Federation of British Artists).
Frequentou o Leeds College of Art e o Royal College of Art de Londres. Sua primeira exposição individual ocorreu em Londres, em 1928, onde apresentou 42 esculturas e 51 desenhos.
Foi influenciado sobretudo pela arte mexicana pré-colombiana, assim como pela arte arcaica e renascentista, pelo Surrealismo e pelo Construtivismo. A essa cultura visual vasta e multiforme do artista soma-se uma sensível capacidade de análise da natureza. (Daqui) 



Henry Moore in his studio in England (1975), by Allan Warren

domingo, 28 de junho de 2015

"O Corpo Exige" - Poema de Affonso Romano de Sant'Anna


António Neves Porto - Elétrico, Técnica Mista 



O Corpo Exige


Presto distraída atenção ao meu corpo. 
O que me pede, eu faço. 
Às vezes, não entendo logo suas ordens, mas 
cedo sempre. 
Me achego a ele e indago: 
-O que queres? Ah, é isso? Então, concedo. 
Sempre que eu resisti 
um de nós saiu-se mal. 

Nas 24 horas do dia, ele pede, 
e quando cala, fala 
num discurso de sonhos 
que me abala. 

Ele sabe. Eu sei que ele sabe, 
e sabe antes de mim, e nele 
eu sei dobrado, sou um-e-dois 
como os dois cortes de um sabre.





António Zambujo - "Pica do 7"
António Zambujo (Site Oficial) e  Sandra Barata Belo



Amor e Medo


Estou te amando e não percebo,
porque, certo, tenho medo.
Estou te amando, sim, concedo,
mas te amando tanto
que nem a mim mesmo
revelo este segredo.




"Maluda: A cidade e o silêncio" - Crónica de Fernando Pernes


Maluda, Porto I, Óleo sobre tela, 73x92cm, 1987, Colecção particular



Fernando Pernes 


O espetáculo urbano voltou à arte contemporânea, após as décadas de radicalismo abstrato, geométrico ou expressionista. Assim aconteceu desde o fenómeno «pop». Assim sucede nesta pintura de Maluda, diferentemente gerada num sistemático decantamento de experiências cezannianas que lentamente lhe determinaram específica originalidade. Figurativa, a pintura de Maluda absorveu da essencialidade geométrica, o primado da ordenação plástica. Do abstracionismo, reteve a exigência de um discurso anti descritivo. A essência construtiva, o ascetismo lírico, eis pois duas eloquentes constantes nos quadros de Maluda, organizados numa depuração do naturalismo e da efusão sentimental: uma busca da clareza formal a que se conjuga o culto da claridade cromática.

Nítidas e claras são pois as composições de Maluda, assumindo, entre ambos os vetores, uma óbvia relação arquitetural como sugestiva qualidade de luz solar que as torna paisagens reconhecíveis numa perspetiva de referência meridional. Nelas, há puros ritmos de formas urbanas a destacarem se na fixidez de cores frias. Cores que podem reproduzir o vermelho de telhados, o branco ou o cinzento de fachadas, o azul do firmamento ou de águas, feitos espelhos de certa densidade sensual atribuível ao «habitat» português. 
Mas aí, também nesses quadros de Maluda, a procura do essencial e do universal, tende a varrer o anedótico e o descritivo, qualquer ruído ou agitação perturbadora, até à anulação de trepidações atmosféricas. O resto, o que permanece além da pormenorização, é a visão universalizadora. E o que fica, para lá do narrativo, será então o silêncio.

Paisagens de silêncio, eis de facto como nos aparecem os quadros de Maluda, mundo do evidente e do espectral, desassombrado e insólito, significando se para melhor nos significar, a nós, habitantes possíveis destas ruas sem tráfego, destes blocos mudos e cegos que são as casas do homem pousadas entre faixas congeladas de luz evocativa do céu ou do mar. E que, anti naturalista, esta pintura de Maluda surge sobretudo poética de progressiva congelação da natureza. Daí talvez o seu eco de ressonância metafísica, tanto mais nos surpreendendo quanto ainda evidenciando a persistência de um próximo e familiar, conotável com os sítios referidos nos quadros. Com sítios que trazem memórias ou visões lisboetas, de terras alentejanas ou algarvias, simultaneamente reconhecíveis numa essencialidade cromática ou topográfica, quanto distanciados na permanência do mesmo olhar decantante do pormenor individualizador e agindo por exigências depuradoras.

De tal modo, com Maluda, a linguagem geométrica dos arquétipos plásticos surge processo de uma dramaticidade tensa, exigente da nudez na vida oculta de todos nós. Consigo, o empenho no despojamento formal redunda na desocultação de uma condição existencial progressivamente mostrando a cidade, o homem português num mundo tão cético como expresso numa intensão universalizante a repudiar o típico e o pitoresco.

Decerto a ambição do essencial e do universal foi a determinante máxima de um processo da arte moderna que Maluda soube absorver na receptividade ao que a rodeia, aos horizontes do seu quotidiano. Agora, tal sentido do próximo despoja-se de verosimilhanças tranquilizantes: abre-se para peregrinações ao invisível e ao alarme que o rigor estruturante adensa, transformando os locais vividos em espelhos de uma vivência de solidão onde nos reconhecemos. Aí, a pintura de Maluda encontra plena justificação de modernidade estética e de atualidade sociológica.

Retratos da terra que habitamos, os seus quadros retratam nos a nossa verdade que ocultamos. Aí, também as suas paisagens passam da representação à relação do mistério, subjacente no desnudar das aparências festivas. A nudez plástica das paisagens de Maluda é imagem desocultada de algo que as palavras não sabem e onde a sua pintura reencontra a sabedoria imemorial das autênticas realizações artísticas. O ser moderno é sempre a procura dessa antiquíssima eloquência. 


Fernando Pernes, in Catálogo da Exposição Individual na Galeria Dinastia, no Porto, em 1978



MaludaPorto II, Óleo sobre tela, 73x92cm, 1994, Colecção particular


“Vim do Oriente, onde nasce a luz; passei por África, onde aprendi a amar a vida; cheguei à Europa, onde estudei pintura na cidade das luzes; depois fixei-me em Lisboa. Gradualmente refiz o percurso labiríntico em direcção à luz. Cada passo revela, à sua maneira, esse jogo de sombras e de luz que é a vida e a morte, a sabedoria e a ignorância. Eu pinto. É uma aventura que não troco por nenhuma outra.”

Maluda, in Revista Galeria de Arte, nº 5, Julho/Agosto de 1996



MaludaPorto IV, Óleo sobre tela, 50x60cm, 1994, Colecção particular



"Os quadros de Maluda são um hino, um louvor à vida, ou seja à construção do abrigo humano". 




Maluda, Foto de Augusto Cabrita, Lisboa, 1973


Maria de Lourdes Ribeiro, conhecida por Maluda  (Goa, Goa Norte, Pangim, 15 de novembro de 1934 — Lisboa, 10 de fevereiro de 1999) foi uma pintora portuguesa.
Embora experimentando vários géneros, incluindo retratos, serigrafias, tapeçarias, cartazes, painéis murais, ilustrações e selos de correio, o cerne principal da pintura de Maluda está muito voltado para a síntese da paisagem urbana, no que a sua arte segue, conceptualmente, Paul Cézanne (1839-1906), o mestre do Impressionismo. Ou, como escreveu Fernando Pernes, a sua arte representa «um sistemático decantamento da experiência cezanniana».
Os quadros que pintava eram baseados principalmente nas cidades, nomeadamente na pintura de paisagens urbanas, janelas e vários outros elementos arquitetónicos. A notoriedade das suas obras pictóricas aparentemente mais simples (algumas utilizadas em selos oficiais por encomenda dos Correios portugueses), ao mesmo tempo que a promovia a uma das mais populares pintoras portuguesas das últimas décadas do século XX artístico português, também teve o efeito negativo de encobrir uma vasta obra de criação gráfica mais complexa. Na sua carreira, Maluda efetuou 24 exposições individuais e está representada em vários museus, entre os quais os da Fundação Calouste Gulbenkian e do Centro Cultural de Belém mas também em várias coleções particulares em Portugal e noutros países. (Daqui)

"A Lua de Londres" - Poema de João de Lemos


John Atkinson Grimshaw (British, 1836-1893), Reflexões sobre o rio Tâmisa, Westminster, 1880.



A Lua de Londres


É noite. O astro saudoso 
rompe a custo um plúmbeo céu, 
tolda-lhe o rosto formoso 
alvacento, húmido véu, 
traz perdida a cor de prata, 
nas águas não se retrata, 
não beija no campo a flor, 
não traz cortejo de estrelas, 
não fala de amor às belas, 
não fala aos homens de amor.

Meiga Lua! Os teus segredos 
onde os deixaste ficar? 
Deixaste-os nos arvoredos 
das praias de além do mar? 
Foi na terra tua amada, 
nessa terra tão banhada 
por teu límpido clarão? 
Foi na terra dos verdores, 
na pátria dos meus amores, 
pátria do meu coração!

Oh! que foi!... Deixaste o brilho 
nos montes de Portugal, 
lá onde nasce o tomilho, 
onde há fontes de cristal; 
lá onde viceja a rosa, 
onde a leve mariposa 
se espaneja à luz do Sol; 
lá onde Deus concedera 
que em noite de Primavera 
se escutasse o rouxinol.

Tu vens, ó Lua, tu deixas 
talvez há pouco o país 
onde do bosque as madeixas 
já têm um flóreo matiz; 
amaste do ar a doçura, 
do azul e formosura, 
das águas o suspirar. 
Como hás-de agora entre gelos 
dardejar teus raios belos, 
fumo e névoa aqui amar?

Quem viu as margens do Lima, 
do Mondego os salgueirais; 
quem andou por Tejo acima, 
por cima dos seus cristais; 
quem foi ao meu pátrio Douro 
sobre fina areia de ouro 
raios de prata esparzir 
não pode amar outra terra 
nem sob o céu de Inglaterra 
doces sorrisos sorrir.

Das cidades a princesa 
tens aqui; mas Deus igual 
não quis dar-lhe essa lindeza 
do teu e meu Portugal. 
Aqui, a indústria e as artes; 
além, de todas as partes, 
a natureza sem véu; 
aqui, ouro e pedrarias, 
ruas mil, mil arcarias; 
além, a terra e o céu!

Vastas serras de tijolo, 
estátuas, praças sem fim 
retalham, cobrem o solo, 
mas não me encantam a mim. 
Na minha pátria, uma aldeia, 
por noites de lua cheia, 
é tão bela e tão feliz!... 
Amo as casinhas da serra 
com a Lua da minha terra, 
nas terras do meu país.

Eu e tu, casta deidade, 
padecemos igual dor; 
temos a mesma saudade, 
sentimos o mesmo amor. 
Em Portugal, o teu rosto 
de riso e luz é composto; 
aqui, triste e sem clarão. 
Eu, lá, sinto-me contente; 
aqui, lembrança pungente 
faz-me negro o coração.

Eia, pois, ó astro amigo, 
voltemos aos puros céus. 
Leva-me, ó Lua, contigo, 
preso num raio dos teus. 
Voltemos ambos, voltemos, 
que nem eu nem tu podemos 
aqui ser quais Deus nos fez; 
terás brilho, eu terei vida, 
eu já livre e tu despida 
das nuvens do céu inglês. 


João de Lemos , em 'Impressões e Recordações " 



John Atkinson Grimshaw, London Bridge 



“O que seriam os desertos da vida sem as brilhantes miragens dos nossos pensamentos!”

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