quinta-feira, 13 de agosto de 2015

"O meu olhar é nítido como um girassol" - Poema de Alberto Caeiro


Cecelia Webber, Digital Photographic Image



O meu olhar é nítido como um girassol


O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...


Alberto Caeiro 
(Heterónimo de Fernando Pessoa),
in “O Guardador de Rebanhos”



Galeria de Cecelia Webber
Cecelia Webber, Digital Photographic Image


Cecelia Webber, Digital Photographic Image


Cecelia Webber, Digital Photographic Image


Cecelia Webber, Digital Photographic Image


Cecelia Webber, Digital Photographic Image


Cecelia Webber, Digital Photographic Image




"As Amoras" - Poema de Eugénio de Andrade


Elizabeth Forbes, Blackberry Gathering, c. 1912, Walker Art Gallery (Daqui)



As Amoras


O meu país sabe às amoras bravas 
no verão. 
Ninguém ignora que não é grande, 
nem inteligente, nem elegante o meu país, 
mas tem esta voz doce 
de quem acorda cedo para cantar nas silvas. 
Raramente falei do meu país, talvez 
nem goste dele, mas quando um amigo 
me traz amoras bravas 
os seus muros parecem-me brancos, 
reparo que também no meu país o céu é azul.


("O Outro Nome da Terra")



Raphaelle Peale, Blackberries, c. 1813 (Daqui)



Citação 


"Sofremos muito com o pouco que nos falta e gozamos pouco o muito que temos."

(William Shakespeare) 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

"Delicadeza" - Poema de Eduarda Chiote


Armando Alves, Paisagem, óleo s/ tela, 100x100, 2004



Delicadeza


Essa delicadeza, cada vez mais difícil, pela qual se perde 
a vida, como a entendo, 
pratico. 
Essa subtileza de pesadelo branco, como a sinto 
extrema sempre, 
às vezes. 
Ingénua - um animal discreto; sem dono 
e sem direitos. 
Por ela arrisco um aceitar alguém 
que nunca foi 
criança. 
Um ler que me não prende mais a atenção, um ser gentil 
para com uma pessoa ingrata 
- um cultivar uma paixão isenta 
"dos cardos do contacto". 
Um não precisar esclarecer seja o que for, 
pois tudo na vida é afinal 
bem mais sério 
do que parece. 
É por essa gentileza 
que se um grito me chega ao ouvido 
prefiro escutar nele o cheiro de um corpo que se perdeu 
do meu 
e ainda assim dizer 
Deus seja louvado, 
oxalá ele consiga agora ficar 
silencioso qual rasto de leitura sem palavra. 
Sim, é por essa gentileza, mulher poeta ou homem sensível 
- não me distingo nem de um nem do outro -, 
que muito embora as minhas esperanças 
se tenham desfeito há muito 
me permito, e não obstante um total desencanto, 
acreditar, ainda, numa simpatia sem despeito; 
pois e em virtude dessa mesma gentileza, 
não quero saber mais do que me dizem 
ou confiar menos do que o desapontamento 
me permita. 
Estou consciente 
de que as criaturas ou coisas imprestáveis podem ser justas 
e belas, 
e de que chegaremos, meu delírio, 
à mansidão, se o coração enciumado 
se não puser de fora 
- se o coração se tornar generoso e vigilante 
como a espera das folhas 
de que a copa carece 
em pleno inverno. 

Por isso, se te disser que sinto frio, 
que a água da chaleira 
evaporou, 
mas que de vez em quando sempre, 
às vezes, 
o embaraço do vapor em que ela se dissolve 
deixa uma gota mais aflita 
no desamparo em que me acolhes, 
lembra-te da comoção 
que me embarga a voz, quando, após uma longa 
ausência, apareces, para e de cada vez 
que tal acontece, te ires 
definitivamente 
embora. 


Eduarda Chiote, in 'Não me Morras'



Armando Alves (Daqui)


Armando José Ruivo Alves GOM (Estremoz, 1935) é um artista plástico português.
Estudou na Escola de Artes Decorativas António Arroio, em Lisboa, e na Escola Superior de Belas-Artes do Porto; aqui conclui o curso de Pintura com vinte valores, o que originou, em 1968, a formação do grupo Os Quatro Vintes, com Ângelo de Sousa, José Rodrigues e Jorge Pinheiro, com o qual se apresenta em exposições no final da década de 1960.
Entre 1963 e 1973 foi professor assistente na ESBAP, onde introduziu o estudo das Artes Gráficas, área a que viria a dedicar-se prolongadamente, tendo estado profissionalmente ligado a três editoras: Editorial Inova (1968); Editorial Limiar (1975); Editorial Oiro do Dia (1980). Dirigiu graficamente obras literárias, produziu cartazes, comemorativos e publicitários, catálogos de exposições e programas de concertos e de atividades desportivas. Em 1983 recebeu o prémio na Mostra de Artes Gráficas Grafiporto 83, no Museu Nacional de Soares dos Reis.


Armando Alves, Objecto, madeira pintada


Tendo começado por uma figuração que pode aproximar-se do universo neo-realista, optou seguidamente por um informalismo matérico desenvolvido na década de 60. Nos anos 70 dedica-se à construção de objectos pintados, de grande depuração formal. A partir dos anos 80 retoma os valores da paisagem que reformula à luz de um abstraccionismo lírico.
Foi agraciado com o Grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito; recebeu o Prémio de Artes Casino da Póvoa 2009. (Daqui)


Armando Alves, Sem Título, 2012

"Aniversário" - de Miguel Torga





Gerês, 12 de Agosto de 1952 - Quarenta e cinco anos. 

“Numa solidão cortada por dois telegramas e dois postais, lá se passou mais este dia fatídico do meu aniversário. E digo fatídico, porque realmente o é todo aquele que assinala o nascimento de um poeta, mormente aqui em Portugal e nos tempos que vão. Desde que me conheço com alguma consciência que sinto isso. E sempre que me ponho a olhar do alto de cada marco do caminho andado, apenas consigo vislumbrar o rasto agonizante de um pobre destino humano, que nem ao menos se refresca na bica de nenhum verdadeiro devotamento tutelar. Nunca se viu no pó da estrada peregrino tão sedento e desiludido da ternura dos semelhantes! 
Sismógrafo hipersensível, que regista os estremecimentos do mundo e de si próprio, e que um abalo mais brutal desafina, acabei por ficar desirmanado na sala do observatório, absurdo, espectral, a pulsar desalmadamente enquanto a corda se não acaba, sem conseguir ver do passado mais do que a serrilhada angústia de um gráfico incansável, que só meia dúzia de entendidos poderão mais tarde decifrar." 

Miguel Torga, DIÁRIO

Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha (Vila Real, São Martinho de Anta, 12 de agosto de 1907 — Coimbra, 17 de janeiro de 1995), foi um dos mais influentes poetas e escritores portugueses do século XX. Destacou-se como poeta, contista e memorialista, mas escreveu também romances, peças de teatro e ensaios.




O Parque Nacional da Peneda-Gerês ou conjunto serrano da Peneda-Gerês", situa-se no extremo nordeste do Minho, estendendo-se até Trás-os-Montes, desde as terras da Serra da Peneda até a Serra do Gerês - daí a sua designação -, sendo recortado por dois grandes rios, o Rio Lima e Cávado. Fazendo fronteira com a Galiza, abrangendo os distritos de Braga (concelho de Terras de Bouro), Viana do Castelo (concelho de Melgaço, Arcos de Valdevez e Ponte da Barca) e Vila Real (concelho de Montalegre) numa área total de cerca de 70 290 hectares. 



Foto de Rui Videira, Peneda, Gerês, Portugal


O Parque Nacional da Peneda-Gerês abrange território de 22 freguesias distribuídas pelos concelhos de Arcos de Valdevez, Melgaço, Montalegre, Ponte da Barca e Terras de Bouro. Esta Área Protegida forma um conjunto com o parque natural espanhol da Baixa Limia - serra do Xurés, constituindo com este, desde 1997, o Parque Transfronteiriço Gerês-Xurés e a Reserva da Biosfera com o mesmo nome.




É uma das maiores atrações naturais de Portugal, pela rara e impressionante beleza paisagística e pelo valor ecológico e etnográfico e pela variedade de fauna (corços, garranos, lobos, aves de rapina) e flora (pinheiros, teixos, castanheiros, carvalhos e várias plantas medicinais). Estende-se desde a serra do Gerês, a Sul, passando pela serra da Peneda até a fronteira espanhola.
Inclui trechos da estrada romana que ligava Braga a Astorga, conhecida como Geira. No parque situam-se dois importantes centros de peregrinação, o Santuário de Nossa Senhora da Peneda, réplica do santuário do Bom Jesus de Braga, e o de São Bento da Porta Aberta, local de grande devoção popular. (Daqui)


Foto de Rui Videira, Gerês, Portugal



"Há sitios no mundo que são como certas existências humanas: tudo se conjuga para que nada falte à sua grandeza e perfeição. Este Gerês é um deles." 


Miguel Torga
Biografia de Miguel Torga (Aqui)




Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés (RBTGX) foi declarada em 27 de Maio de 2009, pela UNESCO, e está localizada na Comunidade Autónoma da Galiza (Espanha) e na Regiâo Norte de Portugal. Abrange uma área total de 267.958 ha. distribuidos por duas áreas protegidas, divididas por uma fronteira mas unidas pelo continuo natural e pela cultura.

Sendo Reserva da Biosfera Transfronteiriça há todo um esforço comum entre as entidades dos dois países na definição de metas e de prioridades de ação, o que contribui para consolidar a imagem do Parque Transfronteiriço Gerês-Xurés (PTGX). Criado em 1997, o PTGX é constituído pelo Parque Nacional da Peneda-Gerês e pelo Parque Natural Baixa Limia-Serra do Xurés, formando uma unidade natural de elevada biodiversidade.

Mais do que uma designação, a Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés pretende ser o reconhecimento da necessidade de um esforço comum e coordenado de salvaguarda dos valores de flora, fauna e paisagem que as duas áreas protegidas partilham, promovendo o desenvolvimento económico sustentável, a participação ativa dos agentes sociais do território e uma relação equilibrada entre as populações e a Natureza. (Daqui)

terça-feira, 11 de agosto de 2015

"E há poetas que são artistas" - Poema de Alberto Caeiro


Pintura de Rafał Olbiński



E há poetas que são artistas

E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!...

Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!...
Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma.

Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira.
E olho para as flores e sorrio...
Não sei se elas me compreendem
Nem se eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao colo pelas Estações contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos
E não termos sonhos no nosso sono.


Alberto Caeiro, In Poesia
 Assírio & Alvim,
 ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001


domingo, 9 de agosto de 2015

" A Segurança Destas Paralelas" - Poema de Pedro Tamen


Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), By the Water (Near the Lake), c.1880



A Segurança Destas Paralelas


A segurança destas paralelas 
— a beira da varanda e o horizonte; 
assim me pacifico, e é por elas 
que subo lentamente cada monte. 

O tempo arrefecido, e só soprado 
por uma brisa tarda que do mar 
torna este minuto leve aconchegado, 
traz mansas as certezas de se estar. 

E vêm novos nomes: são as fadas, 
gigantes e anões, que são assim 
alegres de o serem — parcos nadas 

que enchendo de silêncios este sim 
dele fazem brinquedos, madrugadas... 
Agora eu estou em ti e tu em mim. 


Pedro Tamen, in “Tábua das Matérias”



Pedro Tamen


Poeta português, Pedro Mário Alles Tamen nasceu a 1 de dezembro de 1934, em Lisboa. 
Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, foi diretor de uma editora (Editora Moraes) e administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, e co-dirigiu as revistas Anteue Flama. Lecionou no ensino secundário, fez crítica literária no semanário Expresso e foi ainda presidente do PEN Clube Português, entre 1987 e 1990. 
Traduziu Imitação de Cristo, dos Fioretti de S. Francisco, Cantos de Maldoror, de Breton, e ainda outras obras de autores como Sartre, Foucault, Camilo José Cela, Georges Bataille, Georges Pérec, Flaubert e Gabriel García Márquez. Em 1990 obteve o Grande Prémio da Tradução. 
Depois de uma crise religiosa, converteu-se ao catolicismo em 1953, não deixando as obras de estreia, em 1956 e 1958, de refletir uma busca da transcendência, traduzida numa escrita poética fundada na rutura com a causalidade e com a referência, encontrando no esplendor da própria linguagem o efeito lustral da palavra. Para António Ramos Rosa, "a poesia de Pedro Tamen é um incessante exercício de liberdade que corre o risco de se perder na insignificação total e, por outro lado, uma busca permanente de uma frescura inicial (que é a frescura da dimensão do instante recuperado na sua transparência); e, além disso, não obstante a opacidade negativa de muitos dos seus poemas, é também a reinvenção que, no próprio obscurecimento do sentido, instaura uma possibilidade aleatória, que é já uma esperança e uma vitória sobre o drama existencial" (ROSA, António Ramos - Incisões Oblíquas, p. 91). 
A sua obra poética, iniciada em 1956 com Poema para Todos os Dias (Ed. Do Autor, Lisboa) encontra-se reunida em Retábulo das Matérias (Gótica, Lisboa, 2001). Em 1999 foi publicado um disco-antologia intitulado Escrita Redita (poemas ditos por Luís Lucas; Ed. Presença / Casa Fernando Pessoa). Em 2006 a Oceanos publicou o seu livro de poesia Analogia e Dedos. A poesia de Pedro Tamen mereceu já as seguintes distinções: Prémio D. Dinis (1981), Prémio da Crítica (1991), Grande Prémio Inapa de Poesia (1991), Prémio Nicola (1997), Prémio da Imprensa e prémio PEN Clube (2000). (Daqui)

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