sexta-feira, 6 de novembro de 2015

"Carta" - de Mia Couto





Carta
(digo dos que se ditam: 
a minha defesa 
são os vossos punhais) 

Quando me disseram «não se vem à vida para sonhar» passei a odiar-vos. Para vos matar escolhi materiais inacessíveis ao meu ódio. Em mim fizestes despertar a irreparável urgência de ferir. 

Descobri a vossa intenção: decepar as minhas raízes mais profundas, obrigar-me à cerimónia das palavras mortas. Preferi reiniciar-me: na solidão me apaguei. Estava só para me encher de gente, para me povoar de ternura. Eu queria simplesmente olhar de frente a verdade das pequenas coisas: esta água vem de onde, quem teceu este linho, que mãos fizeram este pão? 

Desloquei-me para tudo ver de um outro lado: levei o meu olhar, o desejo de um princípio infinitamente retomado. Ganhei sonoridade nas vozes que me habitavam silenciosamente. Entre mar e terra eu preferia ser espuma, ter raiz e poente entre oceano e continente. 

O tempo, por vezes, morria de o não semear. Terras que golpeava com ternura eram feridas que em mim se abriam para me curar. Eram terras suspeitas, acusadas de futuro. Outras vezes eram mãos de um corpo que ainda me não nascera. Surgiam da obscuridade para afastar a água e nela me deixar tombar. Tecido que escapava da mais bela das lavadeiras eu ia pelo rio, a corrente insuflando-me e eu deixando-me arrastar com fingida contrariedade.


Outubro 1981
Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho'

sábado, 31 de outubro de 2015

"Natal cada Natal" - Poema de António Manuel Couto Viana


Paolo Veronese, Madonna and Child with Saint Elizabeth, the Infant Saint John the Baptist, 
and Saint Catherine, 1565-70, Oil on canvas



Natal cada Natal


Quando na mais sublime dor, 
A mulher dá à luz, 
Há sempre um Anjo Anunciador 
A murmurar-lhe ao coração — Jesus! 

Cada criança é o Céu que vem 
P’ra nos remir do pecado 
E as palhas d’oiro de Belém 
Espalham-se no berço, como um Sol espelhado 

Por sobre o lar presepial, o brilho 
Da estrela abre o convite dos portais: 
— Vinde adorar a floração do filho 
No alvoroço da raiz dos pais. 



in 'Mínimos'

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

"A Mulher Inteligente" - de Pedro Chagas Freitas



Otar Imerlishvili, The Girl with the Book, 1970



A Mulher Inteligente 


Sou doente pela mulher inteligente. 

Sou fanático pela mulher inteligente. Sou viciado na inteligência da mulher inteligente. Preciso dela, exijo-a a toda a hora, persigo-a como um cão com fome persegue o osso. Sou obcecado pela mulher inteligente. A mulher inteligente é a criação suprema de Deus. A mulher inteligente é o próprio Deus. A mulher inteligente, suspeito, deve ser mesmo uma forma superior do próprio Deus. Até Deus tem inveja da mulher inteligente. Meu Deus. 

A mulher inteligente despreza o que a mulher não-inteligente ama. 

A mulher inteligente não quer saber da conta bancária, não quer saber da marca do carro, da maquilhagem na cara. A mulher inteligente veste Prada a cada vez que fala, a cada vez que pensa. A mulher inteligente faz do que é um estilo, do que defende uma lei, do que parece uma moda. A mulher inteligente faz do tesão um estado de alma. A mulher inteligente dá-me tesão. Mmmm. 

Partilhar a vida com uma mulher inteligente é a única forma de partilha possível. 

Só com ela consigo partilhar, só a ela consigo dizer tudo o que sinto, tudo o que sou. Só ela saberá como eu sei – e depois de pensar um pouco saberá muito melhor do que eu sei – aquilo que eu quero dizer com aquilo que eu estou a dizer. Sim: a mulher inteligente sabe mais do seu homem do que alguma vez o próprio homem saberá. E só um homem burro se sente inferiorizado com uma mulher inteligente. Viver com uma mulher inteligente é um milagre que só mentes pequenas não gozam à grande. Viver com uma mulher inteligente é um privilégio que muito poucos estão à altura de degustar. Não é qualquer um que está à altura de rastejar e de ser rastejado. Viver com uma mulher inteligente não é uma humilhação – é uma diversão, uma animação, um verdadeiro vulcão. E é só dentro de um vulcão que a temperatura aquece. Ai. 

A mulher inteligente aquece – as outras nem aquecem nem arrefecem. 



Pedro Chagas Freitas, in 'Queres Casar Comigo Todos os Dias, Bárbara?' 

sábado, 24 de outubro de 2015

"A Missão de continuar a Vida" - Crónica de Natália Correia


Henry Herbert La Thangue (1859-1929), An Autumn Morning, 1897



A Missão de continuar a Vida


Ninguém se pode possuir inteiramente, porque se ignora, porque somos um mistério. Para nós mesmos. Podemos sim, ser mais conscientes de uma determinada missão que temos no mundo. Todos nós somos uma missão. Somos a missão de continuar a vida, aperfeiçoando-a, festejando-a e não destruindo-a como se está a fazer hoje. Eu não tenho certezas, mas tenho convicções e uma das minhas convicções mais firmes é que nascemos para a liberdade. E, no entanto, veja o paradoxo: essa liberdade, esse caminho para a liberdade está a ser cada vez mais obscurecido por aquilo que observamos no nosso mundo de hoje. Nós chegamos a esta coisa terrível, o chamado equilíbrio nuclear, que é o jogo de escondidas de duas disponibilidades criminosas para suprimir a humanidade. A humanidade está hoje pronta (parece que está sempre pronta!) para pôr luto por si própria. Isto não é uma forma humana de viver. Esta tragédia tem que ser a sua «húbris», que é, digamos, a arrogância que desencadeia a catástrofe punitiva. E o que me perturba muito, o que me assusta, é que países que subscrevem, que proclamam os direitos humanos, possam entrar num jogo fatal destes, um jogo que se destina a suprimir o homem. 

Natália Correia,  in 'Entrevista (1983)'



Henry Herbert La ThangueThe Connoisseur, 1887



"Às vezes procura-se parecer melhor do que se é. Outras vezes, procura-se parecer pior. Hipocrisia por hipocrisia, prefiro a segunda."


Jacinto Benavente,
La Virtud Sospechosa

Jacinto Benavente y Martínez (Madrid, 12 de Agosto 1866 — Madrid, 14 de Julho 1954) foi um dramaturgo e crítico espanhol. Foi galardoado com o Nobel de Literatura de 1922.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

"Natal Tão Pouco" - Poema de António Manuel Couto Viana






Natal Tão Pouco


Nasceu em Belém, ou Nazaré 
(A nova teoria), 
Este que nos é 
O Pai-Nosso em cada dia? 

Que importa onde nasceu, 
Se num presépio, se num leito? 
A verdade sou eu 
A aguardá-lo no peito. 

Pois abro o coração 
P'ra o receber, 
Quer venha ou não 
Do céu ou ventre de mulher. 

Mas, ai! a adoração dura-me instantes! 
Em breve irei negá-lo 
Três vezes, antes 
De cantar o galo!



in 'Disse e Repito'

domingo, 4 de outubro de 2015

"À Sua Esperança" - Soneto de Francisco de Vasconcelos


Simon VouetLa Richesse, 1640 (Louvre)
Simon Vouet, (Paris, 9 de janeiro de 1590 — Paris, 30 de junho de 1649) foi um pintor barroco francês.



À Sua Esperança


Esta esperança vã, doce tormento, 
Com que amor lisonjeiro determina 
Acumular estragos à ruína 
Por levantar padrões ao escarmento, 

Foi crepúsculo breve de um momento, 
Delicado jasmim, frágil bonina, 
Rosa, que se murchou duma aura fina, 
Vidro, que se quebrou de um leve vento. 

Morreu minha esperança às mãos de um rogo 
E nas cinzas se alenta o meu cuidado, 
Que amor nos impossíveis mais se inflama: 

Mas se a esperança é ar, e amor é fogo, 
Justo é que nela cresça o meu agrado, 
Pois ao sopro do vento cresce a chama. 


(1665-1723),
 in 'Fénix Renascida' 

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