segunda-feira, 16 de novembro de 2015

"Tal a Vida" - Poema de Casimiro de Brito






Tal a Vida


Em declive trepamos pela nuvem 
dos dias — em declive circundamos 
obscuros cristais 
transportados no sangue— e somos e 
levantamos 
as cores primitivas da fonte a luz 
que resvala corpo a corpo 
a semente sazonada de quem roubou 
o fogo — em declive canto 
a ternura diluída a luz reflectida 
neste muro onde vejo 
a secreção da fala onde ouço 
um caminho de metáforas: tal 
a vida — 



Casimiro de Brito, in "Negação da Morte" 

domingo, 15 de novembro de 2015

"Cenário de Natal Sem o Natal" - Poema de António Manuel Couto Viana


Paolo Veronese, The Holy Family with the Infant St. John the Baptist



Cenário de Natal Sem o Natal


Nenhuma estrela luz, com mais brilho no céu. 
Não oiço rumor d’asa ou de vagido 
É meia-noite já. E ainda não nasceu. 
O que terá acontecido? 

Eu, para aqui ajoelhado, 
A memória da infância a pedir-me alegria, 
Todo o presépio armado 
... E a mangedoira vazia! 

O silêncio apavora: 
Nem uma loa, nem o som de um sino. 
Porquê tanta demora? 
Não mais irá nascer o meu menino? 

Nenhum sinal de sobrenatural 
No cenário onde a fé não sublima nem arde. 
Por isso, o meu Natal 
Vai chegar tarde. 

(Para sempre tarde?) 



in 'Mínimos'

"Ode marítima" - Poema de Fernando Pessoa


Fernando Lemos Gomes, Paquete Funchal, 1961



Ode marítima


Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho pró lado da barra, olho pró Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto.
Há uma vaga brisa.
Mas a minh’alma está com o que vejo menos.
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.

Os paquetes que entram de manhã na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.
Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos.
Todo o atracar, todo o largar de navio,
É — sinto-o em mim como o meu sangue —
Inconscientemente simbólico, terrivelmente
Ameaçador de significações metafísicas
Que perturbam em mim quem eu fui…

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.


sexta-feira, 13 de novembro de 2015

"O êxito parece a mais doce das coisas" - Poema de Emily Dickinson


Júlio Maria dos Reis Pereira ou Julio como artista plástico, 
Músicos e mulheres no espaço, 1925, óleo sobre cartão, 80 x 65 cm



O êxito parece a mais doce das coisas


O êxito parece a mais doce das coisas 
A quem nunca venceu na vida. 
Ter a compreensão de um néctar 
Exige a mais dolorosa necessidade. 

De entre o purpúreo Exército 
Que hoje empunhou a Bandeira 
Nenhum outro poderá dar uma tão clara 
Definição da Vitória 

Como o vencido - agonizante - 
Em cujo ouvido interdito 
A distante ária triunfal 
Ressoa nítida e pungente!


Emily Dickinson, in "Poemas e Cartas"
Tradução de  Nuno Júdice 


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

“Hugh Selwyn Mauberley” - Poema de Ezra Pound


Pintura de Nom Kinnear King



Hugh Selwyn Mauberley
(1919)


Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz

Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.


Trecho deHugh Selwyn Mauberley, de Ezra Pound.
Tradução de Augusto de Campos





Augusto Luís Browne de Campos (São Paulo, 14 de fevereiro de 1931) é um poeta, tradutor e ensaísta brasileiro. Estreou em 1951 com o livro "Rei Menos o Reino", quando ainda era estudante da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. É um dos criadores da Poesia Concreta, junto com seu irmão, Haroldo de Campos, e Décio Pignatari, que ao romperem com o Clube de Poesia, lançaram a revista Noigandres. Usando recursos visuais como a disposição geométrica das palavras na página, a aplicação de cores e de diferentes tipos de letras, Augusto criou Poetamenos (1953), Pop-cretos (1964), Poemóbiles (1974) e Caixa Preta (1975). Boa parte dessa produção está reunida nas coletâneas Viva Vaia (1979), Despoesia (1994) e Não (2004). Além de traduzir Stéphane Mallarmé, James JoyceEzra Pound, Vladimir Maiakóvski, Arnaut Daniel e e. e. cummings, entre outros, publicou as antologias Re-Visão de Sousândrade (1964) e Re-Visão de Kilkerry (1971). Seus textos críticos podem ser lidos em Teoria da poesia concreta, Balanço da Bossa, À margem da margem e o Anticrítico, entre outros. Sua obra dialoga com a música, tem parceria em canções gravadas por Caetano Veloso e Arrigo Barnabé e gravou o CD Poesia é Risco, junto com o filho Cid Campos (1994). (Daqui)

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

"Um Amor" - Poema de Nuno Júdice


Marta DahligThe Oracle




Um Amor



Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão, 
puxaste-me para os teus olhos 
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua, 
ainda apanhámos o crepúsculo. 
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar 
diferente inundava a cidade. Sentei-me 
nos degraus do cais, em silêncio. 
Lembro-me do som dos teus passos, 
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas, 
e a tua figura luminosa atravessando a praça 
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é, 
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali, 
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha 
essa doente sensação que 
me deixaste como amada 
recordação. 


Nuno Júdice  in "A Partilha dos Mitos"



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