quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

"Calmaria" - Poema de Miguel Torga


Will Barnet, Idle hands,1935



Calmaria


Nada! 
Horas e horas neste ponto morto 
Onde caiu agora a minha vida... 
Nem um desejo, ao menos! 
Só instintos pequenos: 
Apetite de cama e de comida! 

Nem sequer ler um livro 
Ou conversar comigo, discutir... 
Nada! 
Neutro, morno, a dormir 
Com a carne acordada. 


Miguel Torgain 'Diário (1939)'



quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

"Quem não Trabuca, não Manduca" - Poema de António Serrão de Castro


Ferdinand Hodler (1853-1918),  Der Schuhmacher, 1878



Quem não Trabuca, não Manduca


Olhai que quem quer comer 
trabalha, lida, e trabuca; 
que quem trabuca manduca 
mil vezes ouvi dizer; 
mas ociosos viver 
e vir comer pão alheio 
é um caso muito feio; 
coma quem sua e trabalha, 
beba quem na eira malha, 
ao sol e calma, o centeio. 



segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

"Quotidiano (Reflexão)" - Poema de Nuno Júdice


Aram Mekjian, Still Life with Window



Quotidiano (Reflexão)


Por exemplo, as coisas que faltam neste lugar: 
uma enxada para que as mãos não toquem na terra, 
um ninho de pardais no canto da relha, 
para que um ruído de asas se possa abrigar, 
um pedaço de verde no monte que ainda vejo, 
por detrás dos prédios que invadem tudo. 

Mas se estas coisas estivessem aqui, 
também faria falta um copo de água para ver, 
através do vidro, um horizonte desfocado; 
e ainda os restos de madeira com que, 
no inverno, é costume atiçar o fogo 
e a imaginação que ele consome. 

Como se tudo estivesse no lugar, 
pronto para ser usado na data prevista, 
sento-me à janela, e fixo a única coisa 
que não se move: 
o gato, hipnotizado por um olhar 
que só ele pressente. 


Nuno Júdice, in "Meditação sobre Ruínas"





"Segunda-feira é mais difícil porque é sempre a tentativa do começo de vida nova. Façamos cada domingo de noite um reveillon modesto, pois se meia noite de domingo não é começo de Ano Novo é começo de semana nova, o que significa fazer planos e fabricar sonhos."

Clarice Lispector

domingo, 3 de janeiro de 2016

"Fala de Mãe e Filho" - Poema de Mia Couto


Tender Moments, Giclee by Garmash



Fala de Mãe e Filho

 
«Meu filho:
onde vais
que tens do rio o caminhar?»

Não espreites a estrada, mãe,
que eu nasci
onde o tempo se despenhou.

«Meu filho:
onde te posso lembrar
se apenas te dei nome para te embalar?»

Mãe, minha mãe:
não te pese saudade
que eu voltarei sempre
como quem chega do mar.

«Meu filho:
onde te posso nascer
se meu ventre seco
nunca ninguém gerou?»

Mãe, nascerás sempre
na pedra em que te escuto:
a tua ausência, meu luto,
teu corpo para sempre insepulto. 


Mia Couto, in 'Tradutor de Chuvas'



Michael and Inessa Garmash 



"Quem ama a vida é amado por ela." 

sábado, 2 de janeiro de 2016

"O Mar" - Poema de Ângelo de Lima


Anton MelbyeSea at night, 1865


 O Mar


Semelhante a algum monstro, quando dorme
O mar... Era sombrio, vasto, enorme...
Arfando demorado,
Imenso sob os Céus!

Tal imenso e sombrio o mar seria
E assim, em vagas tristes arfaria
No tempo em que o espírito de Deus
Sobre ele era levado!


Ângelo de Lima
Do livro: "Líricas Portuguesas", seleção, prefácio e notas de Cabral do Nascimento, Portugália Editora, 1945, Portugal


sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

"Gargalhada" - Poema de Cecília Meireles

 
Giacomo Balla, Pessimism and Optimism, 1923
 
 

Gargalhada


Homem vulgar! Homem de coração mesquinho!
eu te quero ensinar a arte sublime de rir.
Dobra essa orelha grosseira, e escuta
o ritmo e o som da minha gargalhada:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Não vês?
É preciso jogar por escadas de mármore baixelas de ouro.
Rebentar colares, partir espelhos, quebrar cristais,
vergar a lâmina das espadas e despedaçar estátuas,
destruir as lâmpadas, abater cúpulas,
e atirar para longe os pandeiros e as liras...

O riso magnífico é um trecho dessa música desvairada.

Mas é preciso ter baixelas de ouro,
compreendes?
- e colares, e espelhos, e espadas e estátuas.
E as lâmpadas. Deus do céu!
E os pandeiros ágeis e as liras sonoras e trémulas...

Escuta bem:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Só de três lugares nasceu até hoje esta música heróica:
do céu que venta,
do mar que dança,
e de mim. 


Cecília Meireles
In Viagem, 1939 


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