quinta-feira, 10 de março de 2016

"Anoitece em Inferno a Minha Casa" - Poema Helga Moreira





Anoitece em Inferno a Minha Casa


Anoitece em inferno a minha casa. 
Fico com este começo de verso 
a serenar a exaltação de não dizer nada. 
Deixem-me com este sorriso a morrer 
por uma sílaba mais real onde um verso 
me sossegue 
com unhas de lama e sangue, 
como garras. 
Anoitece em inferno a minha casa. 
Fica a certeza de não ter fim o que 
de inutilidades se basta, 
ou apenas o instante em que, 
por um verso, eu fui 
à outra parte da casa. 



Helga Moreira, in 'Os Dias Todos Assim'






À pergunta habitual: ''Por que é que escreve?'', a resposta do poeta será sempre a mais curta: ''Para viver melhor.''


Pseudónimo de Alexis Leger


terça-feira, 8 de março de 2016

"Paixão Secreta" - Poema de Rabindranath Tagore



Myrtille Henrion Picco, De nos jours les humeurs vagues abondent (2007) / 89X89 cm
 


Paixão Secreta


Acordei com os primeiros pássaros, 
já minha lâmpada morria. 
Fui até à janela aberta e sentei-me, 
com uma grinalda fresca 
nos cabelos desatados... 
Ele vinha pelo caminho 
na névoa cor de rosa da manhã. 
Trazia ao pescoço 
uma cadeia de pérolas 
e o sol batia-lhe na fronte. 
Parou à minha porta 
e disse-me ansioso: 
— Onde está ela? 
Tive vergonha de lhe dizer: 
— Sou eu, belo caminhante, 
sou eu. 

Anoitecia 
e ainda não tinham acendido as luzes. 
Eu atava o cabelo, desconsolada. 
Ele chegava no seu carro 
todo vermelho, aceso pelo sol poente. 
Trazia o fato cheio de poeira. 
Fervia a espuma 
na boca anelante dos seus cavalos... 
Desceu à minha porta 
e disse-me com voz cansada: 
— Onde está ela? 
Tive vergonha de lhe dizer: 
— Sou eu, fatigado caminhante, 
sou eu. 

Noite de Abril. 
A lâmpada arde neste meu quarto 
que a brisa do Sul 
enche suavemente. 
O papagaio palrador 
dorme na sua gaiola. 
O meu vestido é azul 
como o pescoço dum pavão, 
e o manto verde como a erva nova. 
Sentada no chão, perto da janela, 
olho a rua deserta ... 
Passa a noite escura 
e não me canso de cantar: 
— Sou eu, caminhante sem esperança, 
sou eu. 


Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera" 
Tradução de Manuel Simões 



Myrtille Henrion Picco, Ella Mana (1995), huile sur toile / 92 x 65 cm
Collection privée, Allemagne



Flor da Paixão


Sei agora 
que a paixão 
é azul e coroada 
como o sangue e a cabeça 
das rainhas. Que tem 
nome de flor 
e é ímpar. Porque, 
se o não fosse, 
não seria paixão. 


 in "Castália e Outros Poemas"



Myrtille Henrion Picco, L'Appel (1991), huile sur toile / 100 x 81 cm
Collection privée, France

domingo, 6 de março de 2016

"Cegueira Bendita" - Poema de Florbela Espanca


Myrtille Henrion Picco, Somnolence (1988), 24 x 32 cm, Collection privée, France



Cegueira Bendita


Ando perdida nestes sonhos verdes 
De ter nascido e não saber quem sou, 
Ando ceguinha a tatear paredes 
E nem ao menos sei quem me cegou! 

Não vejo nada, tudo é morto e vago... 
E a minha alma cega, ao abandono 
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago 
Estendendo as asas brancas cor do sonho... 

Ter dentro d´alma na luz de todo o mundo 
E não ver nada nesse mar sem fundo, 
Poetas meus irmãos, que triste sorte!... 

E chamam-nos a nós Iluminados! 
Pobres cegos sem culpas, sem pecados, 
A sofrer pelos outros até à morte! 



in "A Mensageira das Violetas"


sexta-feira, 4 de março de 2016

"É por ti que escrevo" - Poema de António Ramos Rosa


Pintura de Dmitry Lisichenko



É por ti que escrevo


É por ti que escrevo que não és musa nem deusa 
mas a mulher do meu horizonte 
na imperfeição e na incoincidência do dia a dia 
Por ti desejo o sossego oval 
em que possas identificar-te na limpidez de um centro 
em que a felicidade se revele como um jardim branco 
onde reconheças a dália da tua identidade azul 
É porque amo a cálida formosura do teu torso 
a latitude pura da tua fronte 
o teu olhar de água iluminada 
o teu sorriso solar 
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte 
nem a túmida integridade do trigo 
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis 
para a oferenda do meu sangue inquieto 
onde pressinto a vermelha trajetória de um sol 
que quer resplandecer em largas planícies 
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso 


António Ramos Rosa, in 'O Teu Rosto'

terça-feira, 1 de março de 2016

"Acerca de Gatos" - Poema de Eugénio de Andrade

Acerca de Gatos


Em abril chegam os gatos: à frente
o mais antigo, eu tinha
dez anos ou nem isso,
um pequeno tigre que nunca se habituou
às areias do caixote, mas foi quem
primeiro me tomou o coração de assalto.
Veio depois, já em Coimbra, uma gata
que não parava em casa: fornicava
e paria no pinhal, não lhe tive
afeição que durasse, nem ela a merecia,
de tão puta. Só muitos anos
depois entrou em casa, para ser
senhor dela, o pequeno persa
azul. A beleza vira-nos a alma
do avesso e vai-se embora.
Por isso, quem me lambe a ferida
aberta que me deixou a sua morte
é agora uma gatita rafeira e negra
com três ou quatro borradelas de cal
na barriga. É ao sol dos seus olhos
que talvez aqueça as mãos, e partilhe
a leitura do Público ao domingo.




Eugénio de Andrade por Carlos Ferreira




O Sorriso

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.


(Eugénio de Andrade)



"O Sorriso" dito por Eugénio de Andrade.


domingo, 28 de fevereiro de 2016

"Tu procuras saber" - Poema de António Ramos Rosa


Pintura de Joni Mitchell 



Tu procuras saber 


Tu procuras saber
eu não procuro porque sei que nunca saberei 
Tu queres abrir as portas do conhecimento para fundares a tua integridade 
Eu entrego-me ao vago e indefinível vagar 
da luz sobre a página que nunca é um oásis 
e não conduz ao plácido porto que nela pressentimos 
Tu desejas ir além das sequências quotidianas 
eu procuro também um além 
mas no interior da sombra do meu corpo 
ao ritmo da respiração 
para fortalecer a minha incerta identidade 
Tu não desistes de conhecer a lucidez do centro 
para que a vida encontre o seu equilíbrio e o seu horizonte 
Eu não conheço outro horizonte além da vaga claridade 
que às vezes brilha no silêncio de um abandono 
ou no fluir das palavras que procuram a nudez 
Tu procuras algo que transcenda o mundo 
eu procuro o mundo no mundo ou para aquém dele 
Eu sei que a fragilidade pode cintilar 
como uma constelação ou como um delta 
quando o corpo se entrega sobre as dunas do silêncio 
Tu queres ser a coluna ou a balança viva 
do puro equilíbrio que sustenta o mundo 




Joni Mitchell 



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