sábado, 12 de março de 2016

"A um Jovem Poeta" - Poema de Manuel António Pina






A um Jovem Poeta


Procura a rosa. 
Onde ela estiver 
estás tu fora 
de ti. Procura-a em prosa, pode ser 

que em prosa ela floresça 
ainda, sob tanta 
metáfora; pode ser, e que quando 
nela te vires te reconheças 

como diante de uma infância 
inicial não embaciada 
de nenhuma palavra 
e nenhuma lembrança. 

Talvez possas então 
escrever sem porquê, 
evidência de novo da Razão 
e passagem para o que não se vê. 


in "Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança"


quinta-feira, 10 de março de 2016

"Anoitece em Inferno a Minha Casa" - Poema Helga Moreira





Anoitece em Inferno a Minha Casa


Anoitece em inferno a minha casa. 
Fico com este começo de verso 
a serenar a exaltação de não dizer nada. 
Deixem-me com este sorriso a morrer 
por uma sílaba mais real onde um verso 
me sossegue 
com unhas de lama e sangue, 
como garras. 
Anoitece em inferno a minha casa. 
Fica a certeza de não ter fim o que 
de inutilidades se basta, 
ou apenas o instante em que, 
por um verso, eu fui 
à outra parte da casa. 



Helga Moreira, in 'Os Dias Todos Assim'






À pergunta habitual: ''Por que é que escreve?'', a resposta do poeta será sempre a mais curta: ''Para viver melhor.''


Pseudónimo de Alexis Leger


terça-feira, 8 de março de 2016

"Paixão Secreta" - Poema de Rabindranath Tagore



Myrtille Henrion Picco, De nos jours les humeurs vagues abondent (2007) / 89X89 cm
 


Paixão Secreta


Acordei com os primeiros pássaros, 
já minha lâmpada morria. 
Fui até à janela aberta e sentei-me, 
com uma grinalda fresca 
nos cabelos desatados... 
Ele vinha pelo caminho 
na névoa cor de rosa da manhã. 
Trazia ao pescoço 
uma cadeia de pérolas 
e o sol batia-lhe na fronte. 
Parou à minha porta 
e disse-me ansioso: 
— Onde está ela? 
Tive vergonha de lhe dizer: 
— Sou eu, belo caminhante, 
sou eu. 

Anoitecia 
e ainda não tinham acendido as luzes. 
Eu atava o cabelo, desconsolada. 
Ele chegava no seu carro 
todo vermelho, aceso pelo sol poente. 
Trazia o fato cheio de poeira. 
Fervia a espuma 
na boca anelante dos seus cavalos... 
Desceu à minha porta 
e disse-me com voz cansada: 
— Onde está ela? 
Tive vergonha de lhe dizer: 
— Sou eu, fatigado caminhante, 
sou eu. 

Noite de Abril. 
A lâmpada arde neste meu quarto 
que a brisa do Sul 
enche suavemente. 
O papagaio palrador 
dorme na sua gaiola. 
O meu vestido é azul 
como o pescoço dum pavão, 
e o manto verde como a erva nova. 
Sentada no chão, perto da janela, 
olho a rua deserta ... 
Passa a noite escura 
e não me canso de cantar: 
— Sou eu, caminhante sem esperança, 
sou eu. 


Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera" 
Tradução de Manuel Simões 



Myrtille Henrion Picco, Ella Mana (1995), huile sur toile / 92 x 65 cm
Collection privée, Allemagne



Flor da Paixão


Sei agora 
que a paixão 
é azul e coroada 
como o sangue e a cabeça 
das rainhas. Que tem 
nome de flor 
e é ímpar. Porque, 
se o não fosse, 
não seria paixão. 


 in "Castália e Outros Poemas"



Myrtille Henrion Picco, L'Appel (1991), huile sur toile / 100 x 81 cm
Collection privée, France

domingo, 6 de março de 2016

"Cegueira Bendita" - Poema de Florbela Espanca


Myrtille Henrion Picco, Somnolence (1988), 24 x 32 cm, Collection privée, France



Cegueira Bendita


Ando perdida nestes sonhos verdes 
De ter nascido e não saber quem sou, 
Ando ceguinha a tatear paredes 
E nem ao menos sei quem me cegou! 

Não vejo nada, tudo é morto e vago... 
E a minha alma cega, ao abandono 
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago 
Estendendo as asas brancas cor do sonho... 

Ter dentro d´alma na luz de todo o mundo 
E não ver nada nesse mar sem fundo, 
Poetas meus irmãos, que triste sorte!... 

E chamam-nos a nós Iluminados! 
Pobres cegos sem culpas, sem pecados, 
A sofrer pelos outros até à morte! 



in "A Mensageira das Violetas"


sexta-feira, 4 de março de 2016

"É por ti que escrevo" - Poema de António Ramos Rosa


Pintura de Dmitry Lisichenko



É por ti que escrevo


É por ti que escrevo que não és musa nem deusa 
mas a mulher do meu horizonte 
na imperfeição e na incoincidência do dia a dia 
Por ti desejo o sossego oval 
em que possas identificar-te na limpidez de um centro 
em que a felicidade se revele como um jardim branco 
onde reconheças a dália da tua identidade azul 
É porque amo a cálida formosura do teu torso 
a latitude pura da tua fronte 
o teu olhar de água iluminada 
o teu sorriso solar 
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte 
nem a túmida integridade do trigo 
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis 
para a oferenda do meu sangue inquieto 
onde pressinto a vermelha trajetória de um sol 
que quer resplandecer em largas planícies 
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso 


António Ramos Rosa, in 'O Teu Rosto'

terça-feira, 1 de março de 2016

"Acerca de Gatos" - Poema de Eugénio de Andrade

Acerca de Gatos


Em abril chegam os gatos: à frente
o mais antigo, eu tinha
dez anos ou nem isso,
um pequeno tigre que nunca se habituou
às areias do caixote, mas foi quem
primeiro me tomou o coração de assalto.
Veio depois, já em Coimbra, uma gata
que não parava em casa: fornicava
e paria no pinhal, não lhe tive
afeição que durasse, nem ela a merecia,
de tão puta. Só muitos anos
depois entrou em casa, para ser
senhor dela, o pequeno persa
azul. A beleza vira-nos a alma
do avesso e vai-se embora.
Por isso, quem me lambe a ferida
aberta que me deixou a sua morte
é agora uma gatita rafeira e negra
com três ou quatro borradelas de cal
na barriga. É ao sol dos seus olhos
que talvez aqueça as mãos, e partilhe
a leitura do Público ao domingo.




Eugénio de Andrade por Carlos Ferreira




O Sorriso

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.


(Eugénio de Andrade)



"O Sorriso" dito por Eugénio de Andrade.


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