quinta-feira, 7 de abril de 2016

"Infância" - Poema de Carlos de Oliveira


Khariton Platonov, Spilled Milk, 1876



Infância


Sonhos 
enormes como cedros 
que é preciso 
trazer de longe 
aos ombros 
para achar 
no inverno da memória 
este rumor 
de lume: 
o teu perfume, 
lenha 
da melancolia. 


Carlos de Oliveira, in 'Cantata'






"A infância é como a água que desce da bica e nunca mais sobe."




quarta-feira, 6 de abril de 2016

"O trabalho" - Poema de Olavo Bilac


Pieter Bruegel - the Elder (1525-1569), Landscape with the Fall of Icarus, Ca 1558



O trabalho


Tal como a chuva caída
Fecunda a terra, no estio,
Para fecundar a vida
O trabalho se inventou.

Feliz quem pode, orgulhoso,
Dizer: “Nunca fui vadio:
E, se hoje sou venturoso,
Devo ao trabalho o que sou!

É preciso, desde a infância,
Ir preparando o futuro;
Para chegar à abundância,
É preciso trabalhar.

Não nasce a planta perfeita,
Não nasce o fruto maduro;
E, para ter a colheita,
É preciso semear...


Poesias Infantis



Pieter Bruegel - the Elder, The Harvesters, 1565



"O trabalho só nos cansa se não nos dedicarmos a ele com alegria."


(Rabindranath Tagore)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

"Igual-Desigual" - Poema de Carlos Drummond de Andrade





Igual-Desigual


Eu desconfiava: 
todas as histórias em quadrinho são iguais. 
Todos os filmes norte-americanos são iguais. 
Todos os filmes de todos os países são iguais. 
Todos os best-sellers são iguais 
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são 
iguais. 
Todos os partidos políticos 
são iguais. 
Todas as mulheres que andam na moda 
são iguais. 
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais 
e todos, todos 
os poemas em verso livre são enfadonhamente iguais. 

Todas as guerras do mundo são iguais. 
Todas as fomes são iguais. 
Todos os amores, iguais iguais iguais. 
Iguais todos os rompimentos. 
A morte é igualíssima. 
Todas as criações da natureza são iguais. 
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais. 
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa. 

Ninguém é igual a ninguém. 
Todo o ser humano é um estranho 
ímpar. 


in 'A Paixão Medida'


domingo, 3 de abril de 2016

"Recado" - Poema de Glória de Sant'Anna


Frank Dicksee (1853-1928), The Crisis, 1891




Recado


Se eu morrer longe 
sepulta-me no mar 
dentro das algas ignorantes 
e lúcidas. 

Cobre o meu rosto de palavras 
antigas 
e de música. 

Deixa em meus dedos 
a memória mais recente 
de outras coisas inúmeras 

e nos meus cabelos 
o incerto movimento 
do vento e da chuva. 

Eu vogarei sob as estrelas 
com pálidas luzes entre os cílios 
e pequenos caramujos 
entrarão nos meus ouvidos. 

Estarei assim idêntica 
a todos os motivos. 



Glória de Sant'Anna,
in 'Música Ausente'


sábado, 2 de abril de 2016

"O Sono" - Poema de Álvaro de Campos


Vilhelm Hammershøi (1864-1916), Young Man Reading (1898)



O Sono


O sono que desce sobre mim, 
O sono mental que desce fisicamente sobre mim, 
O sono universal que desce individualmente sobre mim — 
Esse sono 
Parecerá aos outros o sono de dormir, 
O sono da vontade de dormir, 
O sono de ser sono. 

Mas é mais, mais de dentro, mais de cima: 
E o sono da soma de todas as desilusões, 
É o sono da síntese de todas as desesperanças, 
É o sono de haver mundo comigo lá dentro 
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso. 

O sono que desce sobre mim 
É contudo como todos os sonos. 
O cansaço tem ao menos brandura, 
O abatimento tem ao menos sossego, 
A rendição é ao menos o fim do esforço, 
O fim é ao menos o já não haver que esperar. 

Há um som de abrir uma janela, 
Viro indiferente a cabeça para a esquerda 
Por sobre o ombro que a sente, 
Olho pela janela entreaberta: 
A rapariga do segundo andar de defronte 
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém. 
De quem?, 
Pergunta a minha indiferença. 
E tudo isso é sono. 

Meu Deus, tanto sono!... 


Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa 


sexta-feira, 1 de abril de 2016

"Saudade" - de José Luís Peixoto





Saudade


Em momentos como agora, lembro-me de ti com muita força, com detalhes. Saber que existes neste mesmo instante, lá longe, inunda-me. 
Sinto a tua falta. Sei que se começasse agora a enumerar as tuas qualidades, haveria de me perder em alguma, enlevado, antes de conseguir dizê-las todas. Ou talvez não seja possível esgotá-las. Foi precisa esta distância para reconhecer aquilo que, aqui, me parece tão evidente. 
No entanto, há horas em que não estou a pensar em ti. Nesse tempo, ocupo-me de assuntos que estão à distância do braço, basta levantar o nariz para olhá-los de frente. Ainda assim, mesmo então, sei que este é um mundo em que existes. Por baixo de tudo, quase sempre sem palavras, há essa certeza. Seria insuportável um mundo em que não existisses. 
Os lugares onde fui criança, onde cresci, ou mais tarde, onde a minha vida se decidiu, existem agora, lá longe, indiferentes talvez aos pensamentos que aqui desenvolvo sobre eles. Ao imaginá-los, com a devida diferença horária, deambulo por eles sem corpo, sou apenas olhos, alma, ignorado pelas paredes, pelas ruas, que prosseguem a sua existência sem mim. 
Portugal, eu sei que uma parte da falta que sinto de ti é falta de mim próprio. Às vezes, misturo-me contigo na minha cabeça. Como um enorme espaço vazio, como um fantasma invisível, a ausência daquele que fui passeia-se em ti, Portugal. Como um eco que só eu sou capaz de ouvir, as tais paredes e as tais ruas ainda guardam a imagem daquele que fui, das ilusões que tinha, todas essas idades irrecuperáveis. Velhos que conheci novos passam a coxear por esses lugares e não me distinguem nas suas lembranças, crianças que não tinham nascido passam a correr por esses lugares e não me distinguem na sua imaginação. 
Mas também sei, Portugal, que uma parte enorme da falta que sinto de ti é falta desse teu corpo subjetivo, desse teu ar, do teu porte, da tua presença física. Às vezes, nos lugares por onde passo, quando me lembro de ti como agora, quando me enches os olhos, parece que te vejo em toda a parte. Os sentidos enganam-me. Começa a parecer-me, por exemplo, que as pessoas lá ao fundo estão a falar em português. À distância de lhes distinguir o entusiasmo vago, mas sem lhe identificar a estrutura, sem divisão silábica rigorosa, parece-me que estão a falar em português, aproximo-me esperançado e, de repente, percebo que não e, por instantes, tudo em mim é injustificado: a minha postura, a minha posição, o meu posto. Foi precisa esta distância para reconhecer o privilégio, tão evidente, de estar rodeado de pessoas a falarem a mesma língua que eu. 
Mas haveria muito mais, Portugal. És família profunda, és terra. És toda a história e todo o futuro, não exagero, és caminho. Como disse, não vou aqui enumerar tudo o que te distingue aos meus olhos. Sinto a tua falta, mas não chego a lugares onde não estejas. Levo-te comigo, Portugal. Estás agarrado à minha pele, à minha voz, a tudo o que sou capaz de pensar, sentir e ser. É através de ti, Portugal, que entendo o mundo inteiro. 


José Luís Peixoto, in 'Up' (Revista)

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