domingo, 10 de abril de 2016

"Visita" - Poema de Miguel Torga


Max Liebermann, Rider on the Beach, 1904



Visita


Fui ver o mar.
Homem de pólo a pólo, vou
De vez em quando olhá-lo, enraizar
Em água este Marão que sou.

Da penedia triste
Pus-me o olhar aquele fundo
Dentro do qual existe
O coração do mundo.

E vi, horas a fio,
A sua angústia ser
Uma espécie de rio
Que não sabe correr.


In: Antologia Poética. Lisboa: Círculo de Leitores, p. 253.






"O mar é a religião da Natureza."




sábado, 9 de abril de 2016

"Madrigal" - Poema de Soror Violante do Céu


Vilhelm Hammershøi, pintor dinamarquês (1864-1916)



Madrigal


Enfim fenece o dia, 
Enfim chega da noite o triste espanto, 
E não chega desta alma o doce encanto 
Enfim fica triunfante a tirania, 
Vencido o sofrimento, 
Sem alívio meu mal, eu sem alento, 
A sorte sem piedade, 
Alegre a emulação, triste a vontade, 
O gosto fenecido, 
Eu infeliz enfim, Lauro esquecido... 
Quem viu mais dura sorte? 
Tantos males, amor, para uma morte? 
Não basta contra a vida 
Esta ausência cruel, esta partida? 

Não basta tanta dor? tanto receio? 
Tanto cuidado, ai triste, e tanto enleio? 
Não basta estar ausente, 
Para perder a vida infelizmente? 
Se não também, cruel, neste conflito 
Me negas o socorro de um escrito? 
Porque esta dor que a alma me penetra 
Não ache o maior bem na menor letra, 
Ai! bem fazes, amor, tira-me tudo! 
Não há alívio, não, não há escudo, 
Que a vida me defenda, 
Tudo me falte, enfim, tudo me ofenda, 
Tudo me tire a vida, 
Pois eu a não perdi na despedida. 


in 'Antologia Poética'



Vilhelm Hammershøi, Interior, c.1900, Oil on canvas, 56 x 44,5 cm, Private Collection


Sóror Violante do Céu era uma freira dominicana que na vida secular se chamava Violante Montesino. Professou no convento de Nossa Senhora do Rosário da Ordem de S. Domingos em 1630.
Aos 17 anos, celebrizou-se ao compor uma comédia para ser representada durante a visita de Filipe II a Lisboa. Também se dedicou à música como instrumentista, tocando, como consta, harmoniosamente harpa. 
Todavia, foi sobretudo na poesia que se distinguiu, sendo hoje reconhecida como um dos expoentes máximos da lírica barroca em Portugal.
Conhecida pelos meios culturais da sua época como Décima Musa e Fénix dos Engenhos Lusitanos, cultivou a vertente conceptista do Barroco, que assentava, essencialmente na construção mental e na elegância da subtileza, exibindo um estilo muito mais intelectualizado do que o admitiria o preconceito sentimentalista feminino. Profundamente entrosada no espírito da Fénix Renascida, exibe nas suas composições uma dialética idealista que procura concretizar o impossível, transformar a morte na vida, a tristeza na alegria. 
Intelectualizou ainda escolasticamente alguns temas líricos, nos quais revela muitas vezes alguns acentos de sinceridade, como é o caso dos versos que dedica a um incógnito Silvano: 


Se apartada do corpo a doce vida, 
Domina em seu lugar a dura morte,
De que nasce tardar-me tanto a morte 
Se ausente da alma estou, que me dá vida? 

Não quero sem Silvano já ter vida, 
Pois tudo sem Silvano é viva morte, 
Já que se foi Silvano, venha a morte, 
Perca-se por Silvano a minha vida. 

Ah! Suspirado ausente, se esta morte 
Não te obriga querer vir dar-me vida, 
Como não ma vem dar a mesma morte? 

Mas se na alma consiste a própria vida, 
Bem sei que se me tarda tanto a morte, 
Que é porque sinta a morte de tal vida. 


Soror Violante do Céu

sexta-feira, 8 de abril de 2016

"Morena"- Poema de Guerra Junqueiro


Albert Chevallier Tayler, Girl Shelling Peas, 1886



Morena


Não negues, confessa 
Que tens certa pena 
Que as mais raparigas 
Te chamem morena. 

Pois eu não gostava, 
Parece-me a mim, 
De ver o teu rosto 
Da cor do jasmim. 

Eu não... mas enfim 
É fraca a razão, 
Pois pouco te importa 
Que eu goste ou que não. 

Mas olha as violetas 
Que, sendo umas pretas, 
O cheiro que têm! 
Vê lá que seria, 
Se Deus as fizesse 
Morenas também! 

Tu és a mais rara 
De todas as rosas; 
E as coisas mais raras 
São mais preciosas. 

Há rosas dobradas 
E há-as singelas; 
Mas são todas elas 
Azuis, amarelas, 
De cor de açucenas, 
De muita outra cor; 
Mas rosas morenas, 
Só tu, linda flor. 

E olha que foram 
Morenas e bem 
As moças mais lindas 
De Jerusalém. 
E a Virgem Maria 
Não sei... mas seria 
Morena também. 

Moreno era Cristo. 
Vê lá depois disto 
Se ainda tens pena 
Que as mais raparigas 
Te chamem morena! 


in 'A Musa em Férias'


Interpretação do tema "Morena"

quinta-feira, 7 de abril de 2016

"Infância" - Poema de Carlos de Oliveira


Khariton Platonov, Spilled Milk, 1876



Infância


Sonhos 
enormes como cedros 
que é preciso 
trazer de longe 
aos ombros 
para achar 
no inverno da memória 
este rumor 
de lume: 
o teu perfume, 
lenha 
da melancolia. 


Carlos de Oliveira, in 'Cantata'






"A infância é como a água que desce da bica e nunca mais sobe."




quarta-feira, 6 de abril de 2016

"O trabalho" - Poema de Olavo Bilac


Pieter Bruegel - the Elder (1525-1569), Landscape with the Fall of Icarus, Ca 1558



O trabalho


Tal como a chuva caída
Fecunda a terra, no estio,
Para fecundar a vida
O trabalho se inventou.

Feliz quem pode, orgulhoso,
Dizer: “Nunca fui vadio:
E, se hoje sou venturoso,
Devo ao trabalho o que sou!

É preciso, desde a infância,
Ir preparando o futuro;
Para chegar à abundância,
É preciso trabalhar.

Não nasce a planta perfeita,
Não nasce o fruto maduro;
E, para ter a colheita,
É preciso semear...


Poesias Infantis



Pieter Bruegel - the Elder, The Harvesters, 1565



"O trabalho só nos cansa se não nos dedicarmos a ele com alegria."


(Rabindranath Tagore)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

"Igual-Desigual" - Poema de Carlos Drummond de Andrade





Igual-Desigual


Eu desconfiava: 
todas as histórias em quadrinho são iguais. 
Todos os filmes norte-americanos são iguais. 
Todos os filmes de todos os países são iguais. 
Todos os best-sellers são iguais 
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são 
iguais. 
Todos os partidos políticos 
são iguais. 
Todas as mulheres que andam na moda 
são iguais. 
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais 
e todos, todos 
os poemas em verso livre são enfadonhamente iguais. 

Todas as guerras do mundo são iguais. 
Todas as fomes são iguais. 
Todos os amores, iguais iguais iguais. 
Iguais todos os rompimentos. 
A morte é igualíssima. 
Todas as criações da natureza são iguais. 
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais. 
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa. 

Ninguém é igual a ninguém. 
Todo o ser humano é um estranho 
ímpar. 


in 'A Paixão Medida'


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