terça-feira, 28 de junho de 2016

"Inscrição" - Poema de Cecília Meireles


Sophie Gengembre Anderson (1823-1903), Natural Princess, 1881




Inscrição


Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar. 
Por que havemos de ser unicamente humanos, 
limitados em chorar?

Não encontro caminhos
 fáceis de andar.
 Meu rosto vário desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e de ar

E por isso levito.
É bom deixar
um pouco de ternura e encanto indiferente
de herança, em cada lugar.

Rastro de flor e estrela,
Nuvem e mar.
Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido:
A sombra é que vai devagar.



In Mar Absoluto e Outros Poemas (1945)



Sophie Gengembre Anderson (1823-1903), The turtle dove



"A bondade é o humano que toca o divino."




segunda-feira, 27 de junho de 2016

"A folha viva" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão


Winslow Homer, The Four Leaf Clover, 1873



A folha viva


Mantêm-se o ramo vivo
da verdura. A folha
cai, repõe-se, a copa reverdece,
o seu volume sobe.
Nada é efémero
sob o tom da luz. Tudo
retoma a folha, tem recorte,
o seu pecíolo verde ou outra forma.

Cai a folhagem, tinge todo o chão.
Ou, possuída a terra, ela persiste
e é perene a queda
de uma árvore,
depois o surto,
e tudo convergente, se mantém.


Fiama Hasse Pais Brandão


domingo, 26 de junho de 2016

"Faz-se Luz" - Poema de Mário Cesariny


Salvador Dalí, O Grande Masturbador (1929)



Faz-se Luz


Faz-se luz pelo processo 
de eliminação de sombras 
Ora as sombras existem 
as sombras têm exaustiva vida própria 
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela 
intensamente amantes loucamente amadas 
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta 
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem. 

Por outro lado a sombra dita a luz 
não ilumina realmente os objet
os 
os objetos vivem às escuras 
numa perpétua aurora surrealista 
com a qual não podemos contactar 
senão como amantes 
de olhos fechados 
e lâmpadas nos dedos e na boca. 


Mário Cesariny, in "Pena Capital" 


quinta-feira, 23 de junho de 2016

"Gato em Volutas" - Poema de Renata Pallottini


Zai Kuang, Cat in the Room, 2004



Gato em Volutas


Chegou-se a mim, com pés forrados de silêncio.
Seu rastro sinuoso marcara-se com plumas.
Ei-lo que roça no ser humano
sua egoísta subserviência.
Recolhe as unhas, como quem guardasse
um íntimo segredo invulnerável.

Ó gato, quanto mais eu te amaria
se me houvessem rasgado tuas unhas
a frágil carne, a de afeição canina!

Afasta-se, seus olhos impossíveis
fitos em alguma outra parte.

Quedo, à distância ignora o tempo morto.
E em mim a essência morta.




Zai Kuang, Girl With a Cat


“Não há nada mais divertido do que um gato jovem, nem mais sério do que um gato idoso.”

(Thomas Fuller)
 
 
 

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Poema de Renata Pallottini


Carl Holsøe, Waiting by the Window



Poema



E então, pergunto, por que esta vida 
de pão e horas moídas?

Por que não somente um pássaro 
na insciência da tarde clara,

uma árvore verde embutida 
no musgo da manhã... Por que esta vida?

Por que não uma pedra severa 
que não procura, não erra, não espera,

ou então outra vida, outra vida 
que não esta, de sal e lâminas finas,

que não esta, de sal sobre as feridas?



(De Os Arcos da Memória, 1971)




Carl Holsøe, The Reader



Um Fruto


A juventude
houve
como um fruto.

Hoje habito uma casa
polpa madura de mulher
meu corpo.

Amanhã haverá uma flor.
Não sei onde. 



(De Ao Inventor das Aves, 1985) 


terça-feira, 21 de junho de 2016

"Romanceiro da Inconfidência" - Poema de Cecília Meireles


Middleton Alexander Jameson (Scottish, 1851-1919), At the Piano (1877). Oil on canvas.



Romanceiro da Inconfidência 

(trecho)


Não posso mover meus passos
Por esse atroz labirinto
De esquecimento e cegueira
Em que amores e ódios vão:
- pois sinto bater os sinos,
percebo o roçar das rezas,
vejo o arrepio da morte,
à voz da condenação;
- avisto a negra masmorra
e a sombra do carcereiro
que transita sobre angústias,
com chaves no coração;
- descubro as altas madeiras
do excessivo cadafalso
e, por muros e janelas,
o pasmo da multidão.

Batem patas de cavalos.
Suam soldados imóveis.
Na frente dos oratórios,
que vale mais a oração?
Vale a voz do Brigadeiro
sobre o povo e sobre a tropa,
louvando a augusta Rainha,
– já louca e fora do trono –
na sua Proclamação.

Ó meio-dia confuso,
ó vinte-e-um de abril sinistro,
que intrigas de ouro e de sonho
houve em tua formação?
Quem condena, julga e pune?
Quem é culpado e inocente?
Na mesma cova do tempo
Cai o castigo e o perdão.
Morre a tinta das sentenças
e o sangue dos enforcados …
- liras, espadas e cruzes
pura cinza agora são.
Na mesma cova, as palavras,
e o secreto pensamento,
as coroas e os machados,
mentiras e verdade estão.

Aqui, além, pelo mundo,
ossos, nomes, letras, poeira…
Onde, os rostos? onde, as almas?
Nem os herdeiros recordam
rastro nenhum pelo chão.

Ó grandes muros sem eco,
presídios de sal e treva
onde os homens padeceram
sua vasta solidão…

Não choraremos o que houve,
nem os que chorar queremos:
contra rocas de ignorância
rebenta nossa aflição.

Choraremos esse mistério,
esse esquema sobre-humano,
a força, o jogo, o acidente
da indizível conjunção
que ordena vidas e mundos
em pólos inexoráveis
de ruína e de exaltação.

Ó silenciosas vertentes
por onde se precipitam
inexplicáveis torrentes,
por eterna escuridão!




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