terça-feira, 9 de agosto de 2016

"Um Segredo" - Poema de Fernando Namora


Charles Spencelayh (British, 1865-1958)



Um Segredo


Meu pai tinha sandálias de vento 
só agora o sei. 
Tinha sandálias de vento 
e isto nem sequer é uma maneira de dizer 
andava por longe os olhos fugidos a expressão em nenhures 
com as miraculosas instantaneidades que nos fazem estar em todos os sítios. 

Andava por longe meu pai sonhando errando vadiando 
mas toda a sua ausência era 
o malogro de o ser 
só agora o sei. 
Andava por longe ou sentíamo-lo longe 
vem dar no mesmo 
e no entanto víamo-lo sempre 
ali plantado de imobilidade absorta 
no cepo de carvalho raiado de negro 
a que o caruncho comera o miolo 
como as lagartas esvaziam as maçãs 
estranhamente quieto murcho resignado 
no seu estranho vadiar 
os olhos aguados numa tristeza que hoje me dói 
como um apelo perdido uma coragem abortada. 
Ausência era tão de mágoa urdida tão de fracasso tingida 
ausência era 
altiva e desolada altiva e triste sobretudo triste 
tristeza sim tristeza solene e irremediada 
só agora o sei. 

Às vezes parecia-me uma águia que atravessa os ares 
sulco azul 
que nada distingue do azul onde foi sulcado 
e por isso nem é águia nem ao menos 
o que do seu voo resta para que 
o sonho se faça real. 
Meu pai era um homem com as nostalgias 
do que nunca acontecera e isso minava-o víscera a víscera 
como as tais lagartas esfarelam as maçãs 
e então sei-o agora calçava as ágeis sandálias 
miraculosamente leves soltas imaginosas 
indo de acaso em acaso de astro em astro 
eram de vento as suas sandálias fabulosas 
levando-o aonde mais ninguém poderia chegar. 

Os outros não o sabiam nem eu o sabia 
só o víamos sentado no cepo velho 
raiado de negro como uma estrela fossilizada 
por isso tudo era para ele mais irremediável e triste 
sei-o agora tarde de mais 
tarde de mais é uma dor de remorso 
que me consome víscera a víscera 
como as tais lagartas esfarelam as maçãs. 
Mas de qualquer maneira existe um segredo 
de que ambos partilhamos 
ciosamente avaramente indecifradamente 
como os astutos conspiradores 
que fazem do seu segredo 
um mágico tesouro inviolado. 

Um segredo simples: 
o que sentiste pai 
sinto-o eu agora por ambos 
sinto-o por ti 
sinto-o por mim. 

Ainda que por ele devorados. 


in 'Nome Para Uma Casa'


segunda-feira, 8 de agosto de 2016

"Notícias do Paraíso" - Poema de Zbigniew Herbert


Emile Claus (1849-1924), The Picknick, 1887



Notícias do Paraíso


No paraíso a semana de trabalho é de trinta horas
os salários são elevados e os preços descem regularmente
o trabalho manual não é cansativo (devido à reduzida gravidade)
derrubar árvores não é mais pesado do que datilografar
o sistema social é estável e as leis são sábias
na verdade no paraíso vive-se melhor do que em qualquer outro lado

A princípio era para ter sido diferente
círculos luminosos coros e graus de abstração
mas não foram capazes de separar completamente
o espírito da carne de tal modo que quem chega
traz sempre uma gota de gordura uma fibra de músculo
foi necessário enfrentar as consequências
misturar um grão de absoluto com um grão de argila
mais um desvio da doutrina o último desvio
só o apostolo João o entreviu: ressuscitaremos na carne

São poucos os que acreditam em Deus
isso é só para aqueles cem por cento pneuma
os outros ouvem os comunicados sobre milagres e dilúvios
um dia Deus revelar-se-á a todos
quando irá isso acontecer ninguém sabe

Como agora todos os sábados ao meio-dia
as sirenes tocam docemente
e das fábricas saem os proletários celestes
envergonhados debaixo dos braços carregam as suas asas como violinos



(1924 – 1998)
Tradução de Jorge de Sousa Braga a partir da versão inglesa de Czesław Miłosz 



Emile ClausBringing in the Nets, 1893



"Quando o meu amigo está infeliz, vou ao seu encontro; quando está feliz, espero por ele."




domingo, 7 de agosto de 2016

"Século XXI" - Poema de Fernando Pinto do Amaral


George Grosz, Café, 1918-1919. Coleção particular



Século XXI


Falam de tudo como se a razão 
lhes ensinasse desesperadamente 
a mentir, a lançar 
sem remorso nem asco um novo isco 
à espera que alguém morda 
e acredite nessa liturgia 
cujos deuses são fáceis de adorar 
e obedecem às leis do mercado. 

Falam desse ludíbrio a que chamam 
o futuro 
como se ele existisse 
e as suas palavras ecoam 
em flatulentas frases 
sempre a favor do vento que as agita 
ao ritmo dos sorrisos ou das entrevistas 
em que tudo se vende 
por um preço acessível: emoções 
& sexo & fama & outros prometidos 
paraísos terrestres em horário nobre 
- matéria reciclável 
alimentando o altar do esquecimento. 

O poder não existe, como sabes 
demasiado bem - apenas uma 
inútil recidiva biológica 
de hormonas apressadas que procuram 
ser fiéis aos comércio 
dos sonhos sempre iguais, reproduzindo 
sedutoras metástases do nada 
nos códigos de barras ou nos cromossomas 
de quem já pouco espera dos seus genes. 


in 'A Luz da Madrugada'


sábado, 6 de agosto de 2016

"Soneto Autobiográfico" - de António Gomes Leal


Viggo Johansen (1851-1935) 



Soneto Autobiográfico


Outrora, outrora, em épocas passadas,
Tive uma santa Mãe de ideias maneiras,
Um reto Pai de barbas prateadas,
Tive prédios, jardins, fontes, roseiras.

Nos colégios, nas aulas, nas bancadas,
Não quebrei bancos, não parti carteiras;
Fiz bons exames, contas, tabuadas,
Mais tarde amei patrícias feiticeiras.

Fui amigo do Eça e do Ramalho,
João de Deus, mais do excêntrico Fialho,
E tive que emigrar para o estrangeiro.

Chorei, gemi! Qual Dante nas estradas!
E ao regressar, por causas avanças,
- fui por três vezes parar ao Limoeiro.




terça-feira, 2 de agosto de 2016

"Trágica Recordação" - Poema de Teixeira de Pascoaes


Thomas Benjamin Kennington (1856 – 1916, English), Homeless, 1890



Trágica Recordação


Meu Deus! meu Deus! quando me lembro agora 
De o ver brincar, e avisto novamente 
Seu pequenino Vulto transcendente, 
Mas tão perfeito e vivo como outrora! 

Julgo que ele ainda vive; e que, lá fora, 
Fala em voz alta e brinca alegremente, 
E volve os olhos verdes para a gente, 
Dois berços de embalar a luz da aurora! 

Julgo que ele ainda vive, mas já perto 
Da Morte: sombra escura, abismo aberto... 
Pesadelo de treva e nevoeiro! 

Ó visão da Criança ao pé da Morte! 
E a da Mãe, tendo ao lado a negra sorte 
A calcular-lhe o golpe traiçoeiro! 


 in 'Elegias'


segunda-feira, 1 de agosto de 2016

"Entardecer" - Poema de Luís de Montalvor


Leonid Afremov, Sunset of Feelings



Entardecer


Sol-posto ungindo o mar: incensos de ouro!

Recolhe funda a tarde em sonho e mágoa. 
Surdina fluida: anda o silêncio a orar – 
E há crepúsculos de asas e, na água, 
O céu é mármore extático a cismar! 

E nas faces marmóreas dos rochedos 
Esboçam-se perfis, 
- Cintilações, 
Penumbra de segredos! 

Ó painéis de nuvens sobre a terra, 
Ogivas delirantes 
Na água refractando… 
Encheis de sombra o mar de espumas rasas, 
Iniciando 
A hora pânica das asas! 

E, à meia luz da tarde, 
Na areia requeimada, 
São vultos sonolentos 
As proas dos navios… 

Ó tristeza dos balões 
Iluminando, 
Na água prateada, 
Os pegos e baixios… 

Dormentes constelações 
Que, em fundos lacustres 
E musgosos, 
Pondes reverberações 
Em nossos olhos ansiosos. 

Ó tardes de aquático esplendor, 
Descendo em meu olhar! 

Num sonho de regresso, 
Numa ânsia de voltar, 
Em mim todo me esqueço 
E fico-me a cismar. 

A tarde é toda um sonho moribundo. 
É já olor da cor que amorteceu. 
O céu vive no mar: sono profundo. 
A asa do rumor no ar adormeceu! 


Luís de Montalvor 
(1892-1947), 
in 'Antologia Poética'



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