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"Educai as crianças e não será preciso punir os homens." (Pitágoras - filósofo e matemático grego)

sexta-feira, 1 de maio de 2026

"Partir" - Poema de Manuel da Fonseca



José Malhoa (Pintor, desenhador e professor português, 1855–1933),
"O Emigrante" (Partida para o Brasil - Último olhar à aldeia), 1918.
Coleção particular.
(daqui)


Partir


Eu vou-me embora para além do Tejo,
não posso mais ficar!

Já sei de cor os passos de cada dia,
na boca as mesmas palavras
batidas nos meus ouvidos...
– Ai as desgraças humanas destas paisagens iguais!
Abro os olhos e não vejo
já não ando, já não oiço...
Não posso mais.

Grita-me a Vida de longe
e eu vou-me embora para além do Tejo.

Passa a ave no céu bebendo azul e diz: – Vem!
O vento envolve-me numa carícia,
envolve-me e murmura: – Vem!
As ondas estalam nas praias e vão mar fora,
as mãos de espuma a prender-me os sentidos
chamam do fundo dos meus olhos: – Vem!

– Camaradas, eu vou, esperai um pouco...
Ai, mas a vida nunca espera por ninguém.
E a noite chega vingadora;
O vento rasga-me o fato,
as ondas molham-me a carne
e a ave pia misticamente no ar;
abro os olhos e não vejo,
já não ando, já não oiço,
– e fico, desgraçado de ficar.


Manuel da Fonseca
(Poeta, contista, romancista e cronista português, 1911–1993)

José Malhoa, Paisagem de Figueiró, Portugal, 1915. Coleção particular.


Apetece-me parar um dia numa esquina, entre a sombra e o sol e dizer:
«Que coisa extraordinária que eu vivi!» e, se eu disser isto, é porque estou no bom caminho, que é esse de colecionar coisas extraordinárias. 
Estou a ser escritor. Porque ser escritor é também isso e porque não há nada mais, além disto, na literatura.
É um grande murmúrio, um grande espanto, um grande assunto, se quisermos.

Manuel da Fonseca
 
quadrogiz at sexta-feira, maio 01, 2026
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