quarta-feira, 15 de abril de 2026

"O Gato" - Poema de Afonso Lopes Vieira



Charles van den Eycken (Belgian painter, 1859-1923),
A Cat at the Window, n.d.


O Gato

O gato, à sua janela,
ao sol, que brilha fulgindo,
vai dormindo,
vai pensando
e vai sonhando:

– “Ó minha linda casinha,
tu és minha, muito minha,
nem há outra melhor que ela...”

O gato, à sua janela,
ao sol, que brilha fulgindo,
vai dormindo,
vai pensando
e vai sonhando:

– Pelas noites de invernia,
quando o vento, num lamento,
muito lento, muito longo,
muito fundo, de agonia,
ruge e muge,
e a chuva bate à janela,
nos vidros, fina, a tinir...
ai como é bom,
ai como é bom dormir
ao serão, todo enroscado
ao pé do lume doirado,
fazendo ron-ron-ron-ron...

– “Ó minha linda casinha,
tu és minha, muito minha,
nem há outra melhor que ela...”

O gato, à sua janela,
ao sol, que brilha fulgindo,
vai dormindo,
vai pensando
e vai sonhando:

– Não tenho inveja a ninguém:
nem aos pássaros do ar,
a voar;
nem aos cavalos saltando,
galopando;
nem aos peixinhos do mar,
a nadar;
Não tenho inveja a ninguém
aqui na minha janela,
onde me sinto tão bem...

– “Ó minha linda casinha,
tu és minha, muito minha,
nem há outra melhor que ela...”


Afonso Lopes Vieira (1878-1946),
em "Animais Nossos Amigos", 1911.
Ilustrações de Raul Lino


  
"Animais nossos Amigos": Versos de Afonso Lopes Vieira;
Ilustrações de Raul Lino. 1.ª edição da Livraria Ferreira, 1911.
 

Eles

Sempre dei pousada a gatos, vagabundos quase todos, ora salvos de uma jaula, de uma sarjeta, ou de um contentor do lixo. Com nomes cristãos, e mais do que isso, artísticos e literários, os batizei, Gelsomina e Leonardo, Félix e Henriqueta, favor que jamais me agradeceriam.
Não cessa de me intrigar o desprezo a que eles votam os cães da casa, esses sim, profundamente comovidos com a graça que lhes pus, Puck e Robin e Jasão, e mais recentemente Argos, aptos a proclamá-la com orgulho e alegria. E olham estes os gatos que os rodeiam com a tolerância, e não raro com a estima, de os saberem também da família do dono.
O que verdadeiramente me dói ao fim de contas é essa incapacidade de levarem os gatos ao plano do mimetismo, não apenas das maneiras, mas da própria figura, o reconhecimento que não sentem. Com os cães me pareço, comigo os cães se identificam, e transforma-se o amador na coisa amada. Não constituirá isto a mais tocante e a mais original prova de afeto?

Mário Cláudio (Escritor português, n. 1941) (daqui)







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