segunda-feira, 20 de junho de 2016

"Felina Mulher" - Poema de Guilherme de Azevedo


Pintura de March Avery



Felina Mulher 


Eu quisera depois das lutas acabadas, 
na paz dos vegetais adormecer um dia 
e nunca mais volver da santa letargia, 
meu corpo dando pasto às plantas delicadas. 

Seria belo ouvir nas moitas perfumadas, 
enquanto a mesma seiva em mim também corria, 
as sãs vegetações, em íntima harmonia, 
aos troncos enlaçando as lívidas ossadas! 

Ó beleza fatal que há tanto tempo gabo: 
se eu volvesse depois feito em jasmins-do-cabo 
– gentil metamorfose em que nesta hora penso – 

tu, felina mulher, com garras de veludo, 
havias de trazer meu espírito, contudo, 
envolto muita vez nas dobras do teu lenço! 


in 'Antologia Poética'


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